segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Os outros


Embora nascido em Ponte de Lima, o meu pai era de Viana do Castelo. Adorava a sua cidade, a família que tinha por lá, os amigos de infância e aqueles que aí fora criando ao longo da vida. Vivia, desde há muito, em Vila Real, um “exílio” que lhe não podia ser mais confortável e feliz. 

Regressar a Viana era, contudo, outra coisa. Pelo Verão ou em outras férias, as conversas com a mãe, os irmãos e os sobrinhos, bem como com os amigos, na Café Bar ou no Girassol, faziam parte da rota de alegria que era esse regular mas episódico reencontro com a sua terra.

A vida foi fazendo o seu curso. A família de Viana foi desaparecendo, os amigos que por lá tinha também. Cada visita àquela cidade, onde eu teimava sempre em levá-lo, no final da vida, à procura desse outro tempo, foi-se tornando para ele mais penosa, mais nostálgica, cada vez mais vazia de gente e cheia de melancolia. 

O meu pai viveu até aos 97 anos. Nos últimos anos, já não tinha amigos de infância, pior, já não tinha amigos da sua geração ou mesmo da geração imediatamente posterior. A certo passo, percebi que a recordação do passado em Viana, deixou de ter qualquer interesse para ele. Evitava conversas sobre isso. Não gostava de ver fotografias antigas, imagino que porque estas lhe lembravam tempos de uma outra felicidade (e nós sabemos que a felicidade do passado é quase sempre “mais feliz” do que aquela que vivemos). 

Nos seus últimos tempos, o meu pai passou a resistir, quando eu lhe sugeria darmos uma saltada a Viana. Um dia, poucas semanas antes da sua morte, depois de um almoço nas Pedras Salgadas, fui conduzindo devagar por várias estradas, como se ao acaso. Ele adormeceu, ao meu lado. Acordei-o com Santa Luzia à vista. “Mas isto é Viana!”, exclamou, sorrindo, de súbito bem feliz. Levei-o à Praça da República, à Caravela. Não perguntou por nenhuma pessoa. Disse-me, no regresso da tristeza: “Já não conheço por aqui ninguém. Ninguém, mesmo!”. Não era verdade, tinha ainda sobrinhos por lá, mas percebi que seria cruel confrontá-lo com caras que lhe trariam o que já era o insuportável peso do passado uma vez mais de volta. Mas não sei se fiz bem.

Há pouco, um minuto depois da meia-noite, recebi uma chamada telefónica que, não tendo nada a ver com o que escrevi, me suscitou fortemente esta evocação, que dedico a um grande amigo que não sei se a lerá.

5 comentários:

Rui C. Marques disse...

Peço-me emprestado a Ruy Belo e digo:comovi-me,deve ser da idade.

JORGE M disse...

Senhor embaixador
Quero dizer lhe que os seu posts comecaram por ser uma curiosidade que vinha as vezes ler. Passaram a ser um habito e agora sao uma necessidade. Ha sempre uma historia boa , sem a qual ja não consigo passar sem ler , e com o mesmo prazer com que na juventude lia os contos do Hemingway. Desculpe a comparacao senao gostar.
Um bom ano para si para mim e para todos os seus leitores.

ARPires disse...

"Peço-me emprestado a Ruy Belo e digo:comovi-me,deve ser da idade."
Rui C. Marques disse e eu repito: comovi-me, deve ser da idade.

Luís Lavoura disse...

É isso mesmo.
O meu pai também amou profundamente a sua aldeia até ao fim, embora nos últimos anos já não tivesse lá ninguém da sua geração com quem conversar. Embora tivesse lá reconstruído a casa dos meus avós para nela passar a reforma, quando ela chegou não quis cumprir esse desígnio - a sua aldeia já era demasiado solitária para ele.

Anónimo disse...

Pois é! Os anos passam e a vida vai-se modificando. Os amigos vão partindo, e os que por cá ficam vem que a "fila" vai encurtando... Moro num apartamento há 47 anos, para onde vim logo a seguir ao casamento, cujo edifício tem 14 apartamentos. Curiosamente, os outros 13 apartamentos, foram ocupados também por jovens casais nesses longínquos anos. Ao ler a sua postagem, verifico que só nós e outro casal ainda por cá estão. Os outros já partiram...