sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A segunda vitória de Marcelo


No auge do “infamous” governo de Santana Lopes, em 2004, quando as “trapalhadas” se sucediam na residência oficial de S. Bento (já depois dos “históricos” discurso de posse e da entrada em funções dos secretários de Estado), o então “retirado” Aníbal Cavaco Silva, que fazia tirocínio para regressar à política através de Belém, escreveu, creio que no “Expresso”, um artigo em que falava da “lei de Gresham”, uma teoria económica que defende que uma má moeda, colocada no mercado, afasta qualquer boa moeda. 

Só os ingénuos não entenderam então que Cavaco queria, naquela específica conjuntura, atacar abertamente a “governação” de Santana Lopes, que diariamente divertia, ao mesmo tempo que ridicularizava, o país. Se outro efeito não teve, o artigo de Cavaco (que sempre foi parco em textos, mas que, recordo, subscreveu, em 1982, com Eurico de Melo, outro artigo, também “assassino”, para o governo de Pinto Balsemão, quando fazia a “rodagem” para a Figueira da Foz), a atitude de Cavaco deu então uma preciosa munição mais a Jorge Sampaio para se ver livre de Santana Lopes.

Por que trago isto à colação? Porque achei estranho, nos debates entre Rui Rio e Santana Lopes, quando o primeiro aflorou as “trapalhadas” do efémero e calamitoso governo Santana, não ter visto esgrimida, como argumento de autoridade, uma frase do género: “até Cavaco Silva, com o artigo da “má moeda”, colocou o teu governo em causa”. Ainda pensei que Rio, à época, sendo vice-presidente do PSD, tivesse reagido contra o artigo. Mas verifiquei que não.

Coloquei então a questão a alguns amigos do PSD: por que razão Rio não usou o argumento? Sem exceção, todos coincidiram na interpretação: porque trazer Cavaco Silva a terreiro, no seio dos militantes social-democratas, está longe de ser, nos dias de hoje, um argumento positivo para quem quer que seja... A morte política é muito cruel, em especial se pensarmos nos fantásticos resultados que Cavaco deu ao seu partido.

Esta é assim como que uma segunda vitória de Marcelo Rebelo de Sousa sobre a memória do mais bem sucedido líder do seu partido originário.

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