terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Bonnie and Clyde


Olhei ontem para ambos, ainda antes da "gaffe' patética que involuntariamente protagonizaram nessa gala dos Óscares, e tive algumas saudades. De mim, confesso. Nessa noite do Porto, há quase meio século, num cinema então novo junto à Costa Cabral, por detrás do Estádio do Lima. Era o "Bonnie and Clyde", esse belo filme sobre a dupla de bandidos (só o cinema e a política tornam charmosos os bandidos), que dava ares de cinema europeu de autor (e, talvez por isso, fez tanto sucesso na Europa), mas eu, na altura, não fazia ideia do que isso era. Chovia, lembro-me, porque a sala tinha uma cobertura metálica onde isso se sentia, julgo recordar-me (mas posso estar equivocado). Debaixo do braço, levava comigo "A Capital", um novo jornal que era uma dissidência do "meu" "Diário de Lisboa", que trazia uma análise detalhada ao filme, num tempo em que a crítica cinematográfica não tinha necessariamente como finalidade mostrar-se ininteligível. Saí dali com amigos para o Ginjal, no Bonjardim, para acabar a noite. Aquelas imagens impressivas de Faye Dunaway e Warren Beatty, de armas na mão em carros "vintage", nunca mais me largaram. Por isso, vê-los entrar, algo trémulos, naquele palco, fez-me alguma impressão, agravada pela confusão que se seguiu. Depois, passou. Tudo passa, já aprendi.

Sócrates

Depois de ouvir com atenção José Sócrates na entrevista à TVI, defendendo-se das acusações que lhe são feitas no livro de Cavaco Silva, dei comigo a pensar que, depois de todos estes anos, ele acabou por criar uma relação estranha com o país: diga ele o que disser, isso só conforta o fervor dos seus apoiantes e alimenta a rejeição por parte dos seus críticos.

Que fazer?


Já lá não ia há um bom par de anos. Começa a fazer parte daquele tipo de restaurantes onde só volto quando verdadeiramente me esqueci da má impressão com que fiquei, da última vez que lá fui.

Há restaurantes maus ou medíocres a que regresso apenas por razões sentimentais - ou porque gosto muito dos donos ou porque vou com amigos a quem não quero dizer que não ou porque me dá jeito, por uma qualquer razão, pousar episodicamente por lá. Nesses, sei, à partida, que a experiência gastronómica vai ser desastrosa e, talvez por essa razão, valorizo ao máximo qualquer menor ponto que saia menos mau: "Olha! As batatas fritas até que nem estavam nada más!" ou "o pão e as azeitonas aproveitavam-se" ou "o café estava bom!" ou coisas residuais assim. Visito esses locais, como disse, por sentimentalismo ou por facilidade ou por oportunidade. Alguns são aquilo a que eu chamo restaurantes "sustentadamente maus": têm um nível de mediocridade à prova de bala ou de melhoria, os donos são já honestamente incapazes de perceber a falta de qualidade daquilo que nos servem e, pelo contrário, dizem com a maior candura que "as pataniscas, hoje, estão excecionais" - para depois nos chegar uma coisa amassarocada, com fiapos de bacalhau, altíssima, frita num óleo reciclado.

Mas este não. Este é um restaurante que já foi bastante bom, que teve nome, onde me desloquei várias vezes, ido de longe, com prazer, pela certeza segura de ir lá comer bem. Depois, as coisas começaram a "descarrilar". Há uns anos, ao tempo em que escrevia uma crónicas gastronómicas para a "Sábado", fiz uma visita "profissional" ao local. Ia com alguma esperança. Frustrada. No final, paguei a conta do meu bolso e acabei por não escrever nada. 

(As revistas e os jornais para os quais escrevo críticas gastronómicas só pagam se eu elaborar um texto para ser publicado. Ora eu só escrevo sobre aquilo que gosto; se não gosto de um restaurante, não digo rigorosamente nada sobre ele. Não quero correr o risco, irresponsável, de poder contribuir, com uma crítica negativa, que às vezes pode ter sido causada apenas por um mau momento da casa, para afetar um investimento e pôr em causa um negócio e postos de trabalho.)

Hoje, voltei ao tal restaurante. Comi mal? Mal não comi. Comi "assim-assim-para-mal", paguei excessivamente e, havendo por aí tantos restaurantes onde se come garantidamente bem, combinei comigo mesmo que nunca mais vou repetir aquela experiência. Ao despedir-me do simpático dono, a quem não fiz o mais leve comentário, tive a estranha sensação de estar a dizer o derradeiro adeus a um velho conhecido, que parte emigrado para a Austrália, a quem, com toda a certeza, nunca mais verei. Mas tem que ser assim.

(Qual é o nome do restaurante? Não digo, claro!)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Gerald Kaufman


Gerald Kaufman, que acabo de saber que morreu ontem, aos 86 anos, era o "shadow Foreign Secretary" ao tempo em que Neil Kinnock era líder da oposição trabalhista. Eu vivia em Londres nesse período e seguia com atenção as prestações de Kaufman, uma voz muito respeitada, num período complexo para a construção de uma alternativa a Margareth Thatcher, que demoraria algum tempo a concretizar-se. Quando isso ocorreu, já sob a liderança de Tony Blair, Kaufman não seria escolhido para liderar a diplomacia britânica, tarefa que coube a Robin Cook. Recordo ainda que é dele a magnífica e assassina frase com que qualificou o programa esquerdista de Michael Foot, em 1983: "the longest suicide note in History".

Como se sabe, na terminologia britânica, os Ministros são designados por "Secretary of State" e aquiles a quem entre nós chamamos Secretários de Estado são apelidados de "Minister", o que muitas vezes confunde a nossa imprensa.

Kaufman tivera funções govenativas num anterior governo trabalhista e havia escrito, já em 1980, um curioso livro sobre o mundo da política governativa no Reino Unido, na relação entre os governantes e o "civil service". Esse livro tem por título "How to be a minister".

Um dia, estando no governo em Portugal como secretário de Estado, numa passagem por Londres, encontrei uma reedição do livro numa livraria e comprei-o. No avião para Lisboa, comecei a lê-lo. Os passageiros foram entrando e, como mais tarde vim a constatar, entre eles devia ir um jornalista. Porquê? Porque, uns dias mais tarde, numa daquelas colunas anónimas de imprensa tipo "Gente", lá vinha uma graça de que eu andava a ler um livro cujo título representava ambições que tinha... Enfim, a intriga, combinada com falta de cultura.   

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Agora, a sério

Paulo Núncio assumiu a sua "responsabilidade política" no caso da listas das transferências para "offshores". Muito bem, dirão alguns. Menos bem, digo eu.

Porquê? Porque, enquanto secretário de Estado, Paulo Núncio não tem, à luz da Constituição, "responsabilidade política".

Leia-se o n° 3 do artigo 191° da CRP: "Os Secretários e Subsecretários de Estado são responsáveis perante o Primeiro-Ministro e o respetivo ministro". Essa é uma responsabilidade funcional.

Ora a CRP é muito clara no n° 2 do mesmo artigo 191°: "Os Vice-Primeiros-Ministros e os Ministros são responsáveis perante o Primeiro-Ministro e, no âmbito da responsabilidade política do Governo, perante a Assembleia da República".

As coisas são muito evidentes. Paulo Núncio era responsável perante o seu Ministro e é este quem tem "responsabilidade política" face à instituição perante a qual o Governo e os Ministros respondem: a Assembleia da República.

Quero com isto dizer que a responsabilidade política pelo ato ou omissão do Secretário de Estado Paulo Núncio, ao longo dos anos, pertence aos Ministros de quem dependeu, Vitor Gaspar e Maria Luís Albuquerque. São estes responsáveis políticos que devem ser chamados a prestar contas perante a Assembleia da República.

Ou não será assim?

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Máscaras de Carnaval

( Dos jornais: "Paulo Núncio assume responsabilidade política e demite-se de funções no CDS". )

Se eu tivesse funções políticas e tivesse que demitir-me, limitando ao mínimo o "estrondo" do assunto incómodo para o meu partido, fá-lo-ia num sábado à tarde, depois de publicados os cinco semanários com impacto político, ainda bem longe dos próximos "Quadratura do Círculo", "Expresso da Meia Noite" e "Governo Sombra". E então se houver um feriado de Carnaval a atenuar a mobilização político-mediática na semana seguinte, a "faena" em prol do esquecimento ficaria garantida.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Crónica gastrófila


A crónica que publico na revista "Evasões", hoje distribuída com o "Jornal de Notícias" e o "Diário de Notícias", aprecia o restaurante "Costa do Sol", em Vila Pouca de Aguiar.

Pode ser lida aqui.

A terceira idade da Europa


Eça de Queirós escreveu um dia que «a crise é a condição quase regular da Europa ». Com um pouco de exagero, poderia ter dito que a guerra era também algo que, por séculos, viveu historicamente inscrito no código genético do continente. Eça não teve presciência para prever que, no período subsequente ao segundo conflito mundial, a Europa viria a usufruir de um desenvolvimento em paz que lhe parecia induzir um destino de felicidade eterna, não obstante conviver com vizinhanças próximas sob elevada tensão. Um período em que as crises foram controladas e que criou a ilusão, se não do “fim da História”, pelo menos da aparente garantia de um não surgimento, em termos trágicos, de velhos demónios. O tempo veio a atenuar essa ilusão, embora a Europa, comparativamente a outras áreas, seja ainda um invejável oásis..

O projeto integrador europeu constituiu um inegável sucesso. Mas o sucesso tem sempre um prazo de validade e faces inesperadas. Ao procurar alargar-se a Estados que carrearam consigo uma cultura de valores diferente e obsessões estratégicas muito diversas, por muito compreensíveis que estas últimas sejam, a Europa mudou fortemente de natureza. Ao entender como inevitável levar a sua integração a domínios que tocam de perto o cerne tradicional da soberania dos Estados que a compõem, a União Europeia acabou por ressuscitar pulsões nacionais que pareciam eternamente adormecidas. Alargamento e aprofundamento criaram desafios a que a Europa parece ter dificuldade de ultrapassar.

Isso aconteceu por uma razão relativamente simples: ao não comportar no seu projeto um modelo de representação operativa de interesses onde, de uma forma vista como equitativa pelos seus cidadãos, estes pudessem expressar e resolver, com eficácia e resultados, as preocupações muito diferenciadas que os atravessam, a Europa como que obrigou esses mesmos cidadãos a procurarem refúgio no único espaço onde, tradicionalmente, sentiam representada com legitimidade a sua diferença – os Estados nacionais. O único onde, para muitos deles, a sua voz conseguia ser ouvida. Ao fazê-lo, retiram implicitamente legitimidade ao projeto europeu e dão força, no interior de cada Estado, a quantos afirmam que a sede ideal para a resolução dos problemas é aquela que lhes está mais próxima, provando que é o défice democrático e de representatividade das instituições europeias que afasta estas dos cidadãos.

Esse processo de perda de representatividade das instituições europeias agravou-se ao verificar-se que, na perspetiva de muitos cidadãos, estas passaram a ser fautoras dos seus problemas e, muito menos, o espaço e o mecanismo para a sua resolução. Alguns governos nacionais, como forma de alienarem responsabilidades pelos seus insucessos, colocam também a débito do projeto europeu grande parte das insuficiências que afetam o quotidiano das populações – escondendo que a esmagadora maioria das políticas que são objeto de contestação não relevam de decisões europeias mas, simplesmente, de meras opções nacionais. Esta transferência de responsabilidades, transformando a Europa num bode expiatório de tudo quanto corre mal, é um ato de irresponsabilidade e de cobardia política. Mas é, igualmente, um sintoma muito evidente de um mal-estar europeu que não parece ter tendência a atenuar-se.

A Europa integrada vai, daqui a dias, comemorar o seu 60° aniversário. Vamos ter discursos com muitas platitudes políticas. Infelizmente, os seus líderes serão incapazes de uma autocrítica franca que explique as razões do Brexit, a subida de Le Pen e congéneres, que denuncie quem, no seu seio, lhe contraria os valores. A Europa vai comemorar um passado de que pode orgulhar-se, mas para os seus cidadãos o futuro, para o qual parece com escassas soluções, é o mais importante.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

José Afonso


Há 30 anos, morreu José Afonso, que o tempo tinha entretanto transformado num mais íntimo Zeca Afonso. Sou mesmo do período em que na capa dos seus discos figurava ainda "Dr. José Afonso". 

Não me recordo quando o ouvi pela primeira vez, mas tenho a perfeita noção - e digo-o aqui com total abertura - que reagi negativamente a algumas das suas primeiras canções apenas e só porque eram cantadas num estilo muito próximo da canção ou fado coimbrão, que é uma música que nunca me disse rigorosamente nada, e que, à época, associava negativamente a uma espécie de elitismo social fardado de preto, ao traje de capa-e-batina que sempre detestei - e que ainda hoje considero algo ridículo. Esse foi o meu primeiro José Afonso. 

Depois, com os anos, fui apreciando a coragem cívica de José Afonso, a sua denúncia do colonialismo e da ditadura, a subtileza inteligente da sua poesia, uma assunção de risco na intervenção pública que sempre me tocou. Lembro-me, creio que em 1970 ou 1971, de o ter ouvido na Associação de Estudantes de Direito e de ter vaiado, no Coliseu de Lisboa, no dia 29 de março de 1974, o boicote que a última censura do regime, que dali a dias cairia, então lhe fez. 

Naturalmente que me não foi indiferente a elevada utilidade política da sua mensagem, mas devo confessar que, embora reconhecendo a genialidade de muitas das suas composições, nunca fui um fã incondicional da sua música e, em especial, da sua (por muitos tão apreciada) voz. Vou dizer mesmo o que alguns considerarão talvez uma barbaridade: sempre ouvi, e continuo a ouvir, com muito mais agrado Sérgio Godinho, Fausto e até Jorge Palma do que José Afonso. 

Dito isto, José Afonso - de quem possuo toda a obra, note-se - permanecerá para mim como o cantautor mais importante de todo o período da transição da ditadura para a democracia. E o seu "Venham mais cinco" e a "Grândola" ficarão eternamente ligados ao meu 25 de abril. Só por isso - e há muito mais - junto-me à saudade dos que hoje assinalam que o perderam há 30 anos. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Interiores

Pelas redes sociais, dou-me conta de que o "Prós e Contras" da passada segunda-feira, dedicado aos problemas da interioridade do país, foi considerado por muitos uma "seca". Imagino que quem estava à espera de ver discutidos os SMS entre Centeno e Domingues ou a saga do Acordo Ortográfico ou o aeroporto no Montijo ou outra temática "fraturante", como o quase aniversário de Marcelo em Belém, tivesse ficado desiludido ao assistir a uma discussão serena, sobre questões que importam à vida das pessoas, sem histerias nem provocações. Como é sabido, as boas notícias não são notícia e, como ficou patente naquele debate, já há boas notícias, embora não suficientes, no que respeita à tentativa de ultrapassagem das questões da periferização dentro do país. Percebo que não seja muito "sexy" ver os mais populares programas televisivos "raptados" de Lisboa, da agenda da capital, desse mundo que vive entre os jornais e os deputados, entre os donos do regime e os que os comentam. As televisões, como se queixava com razão uma participante, mostram ainda o interior como um espaço de tipicismo rural, decadente, feito de clichés de aldeia, de cabelos brancos e de uma simplicidade amável parada no tempo, para a qual alguns olham com paternalismo complacente. Ora o que este programa ensinou ao país é que nesse interior - e esta edição foi gravada em Vila Real - há hoje interessantes fatores de inovação e de rutura com o marasmo, a despontarem por muitas das suas terras, jovens com iniciativa a sacudir o fatalismo do destino, instituições a pilotarem a modernidade, uma massa crítica pensante muito para além do paroquialismo, autarcas a olhar bem para a frente e a não se acomodarem ao país macrocéfalo, lisboacrêntrico, que alguns teimam em querer prolongar. Querem um bom teste para se perceber quem vive no passado e quem quer agitar positivamente o futuro? Olhem para as posições face à descentralização. É um excelente barómetro!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Do défice

Há um truque novo nas notícias que nos chegam nas redes sociais ou nas menções feitas pelos "media" através destas (em especial no Twitter), havendo mesmo uns jornais nisso "especialistas", useiros e vezeiros nessa prática: publica-se um título com algo que garantidamente chama a atenção, criando a subliminar sensação de que as coisas se passam em Portugal e, depois, quando se vai ler a notícia, verifica-se que é do outro lado do mundo.

Estejam atentos a coisas como "pais vendem gémeos à nascença" ou "avionetes chocam no ar" ou algo assim. Clica-se a notícia e verifica-se que, afinal, o tráfico humano foi em Nauru ou em Tegucigalpa e o acidente em Alice Springs ou no deserto de Atacama. O site, entretanto, tendo-o nós "visitado" porque caímos no "isco", já nos inundou de "pop-up" ou de outra publicidade, colocando-nos no fundo da página outras notícias enganadoras de natureza similar. Para o que interessa ao site, passou logo a contar com mais "clicks", para os números que vai mostrar aos anunciantes com vista a promover-se.

Assim, caros amigo, quando lerem "mulher foi ao banco nua" podem ter a certeza de que não foi em Cête ou em Tercena. Mas se acharem mesmo picante (e tiverem tempo para) ler essa historieta passada em Ulan Bator ou em Baku, não hesitem...

Em Portugal, quando a realidade não provoca escândalos ou situações anómalas, importamo-los. Faz parte do nosso défice... É assim que a coisas funcionam neste país de inocentes úteis e chicos espertos. E siga a Marinha!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

José Fernandes Fafe (1927-2017)


Há dias, assinalei aqui a passagem do 90º aniversário de José Fernandes Fafe, um intelectual de grande mérito que, em boa hora, Mário Soares chamou um dia à diplomacia portuguesa, onde teve uma prestação que redundou num elevado prestígio para o nosso país.

Fernandes Fafe representou muito bem a diplomacia do Portugal democrático e consagrou-se como um indiscutível valor acrescentado para a política externa portuguesa. Pessoalmente, era um amigo por quem eu tinha imensa admiração e respeito, para além de uma forte consideração cívica.

José Fernandes Fafe morreu hoje. Deixo aqui o meu pesar e os respeitos à sua Família.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O livro

As memórias presidenciais de Aníbal Cavaco Silva (já lidas de fio a pavio, porque faço parte dos estóicos de biblioteca) é uma espécie de livro de atas de um notário meticuloso (quase picuínhas) da política. 

Do texto, que em escrita é basicamente escorreito mas onde o que sai do oficioso resvala para um discurso literariamente menos glorioso, ressalta um tropismo, em crescendo, para a adjetivação ácida, aqui ou ali algo vingativa, "to say the least".

É um livro auto-elogioso à náusea, de quem tudo viu, tudo previu, numa omnisciência que só foi pena não ter tido afinal consequências de maior para bem do país que insistiu em colocá-lo em Belém por um longo decénio.

Cavaco Silva sabe que, ao ter elegido José Sócrates como "bombo da festa", garantiu um "pós-eleitorado" seguro para dar um pouco mais de credibilidade à narrativa eufórica que faz sobre si mesmo. Muito pouco elegantes são as palavras que dedica a Mário Soares. Nada que surpreenda, contudo, conhecido o autor.

Uma nota inevitável para a ligeireza com que se refere a algumas trapalhadas próprias, a menor das quais não será a das escutas.

Enfim, um livro de quem tem pressa em tentar que o país dele fixe de si uma imagem à altura da elevada conta que guarda de si mesmo.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Pedro Leite de Noronha


Hoje, em mais um excelente artigo no "Diário de Notícias", Ana Sousa Dias fala das "cartas ao diretor" dos jornais, revelando o "segredo" de que, no passado, na ausência dessa correspondência, era aos próprios jornalistas que era pedido que "inventassem" textos para encher esse espaço.

Vou repetir uma história (que já uma vez aqui contei) de uma dessas cartas, de que eu próprio fui autor, embora sob pseudónimo - e logo perceberão porquê.

Nem sempre os funcionários diplomáticos portugueses foram sindicalizados. Quando entrei para a profissão, em 1975, não havia nenhuma estrutura sindical representativa dos diplomatas. Um dia, creio que dois ou três anos mais tarde, foi criada uma Associação dos Diplomatas Portugueses. Por algum radicalismo que à época partilhava, decidi não entrar como associado dessa estrutura, por não ver a palavra "sindical" incluída no respetivo nome, condição de representatividade que achava indispensável. Cheguei mesmo ao ponto de mobilizar um grupo de jovens colegas como forma de tentar obstruir essa iniciativa, que considerava "recuada" e pouco ousada.

Mais tarde, nos anos 80, as coisas mudaram e foi, finalmente, criada a Associação Sindical dos Diplomatas Portugueses. Dela cheguei a ser vice-presidente, nos anos 90 e, nos últimos dois anos, fui presidente da respetiva Assembleia Geral. Alguns colegas mais antigos não apreciaram a mudança registada e reagiram fortemente à dimensão sindical da nova Associação.

Porque o tema dos diplomatas terem um sindicato era verdadeiramente novo e o "Expresso", por discreta sugestão de alguns de nós, tinha trazido uma notícia sobre o assunto, tive a ideia de escrever uma carta ao respetivo diretor, em nome do "ministro plenipotenciário Pedro Leite de Noronha", na falsa qualidade de um dos contestatários do novo sindicato. Nessa carta, escrita num tom snobe, expressava o "desgosto" por ver os diplomatas do MNE "banalizarem-se" e enveredarem "tristemente" pela via sindical, trazendo a público questões que, no passado, eram sempre resolvidas "entre os claustros e a tapada" das Necessidades. O "Pedro Leite de Noronha" ia mais longe e considerava que o facto dos diplomatas andarem a colocar "nas bocas públicas do mundo" as peculiaridades da sua vida profissional refletia, muito simplesmente, "o facto do nível social do seu recrutamento ter baixado", fruto dos "lamentáveis ventos de abril", de terem "deixado, na sua maioria, de possuir fortuna própria", o que os tornava "permeáveis às pulsões materiais da vida".

Nos dias subsequentes à publicação da carta, os comentários sobre a mesma motivaram muitas conversas "entre os claustros e a tapada", muito embora ninguém alimentasse a menor dúvida sobre a não autenticidade do texto, porque não havia, nos quadros do ministério, nenhum "Pedro Leite de Noronha". Procurei que o nome tivesse um toque onomástico suficientemente "bem" para poder abrir caminho à sua credibilização em áreas para fora da "casa". E todos perceberam que o absurdo do argumentário da carta mais não era de que uma forma de ridicularizar o reacionarismo primário de quantos se opunham à ação da nova associação sindical.

Só tempos depois vim a saber que, por essa altura, numa embaixada portuguesa numa importante capital europeia, por onde curiosamente eu viria a passar alguns anos mais tarde, o embaixador comentara o assunto com uma colega (hoje também já embaixadora) com uma observação do género: "É evidente que este nome é falso: não temos nenhum colega que se chame assim. Mas que ele tem bastante razão, lá isso tem!"

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

As cerejas e o Esperanto


Há dias, tive uma surpresa: vi numa notícia que uma delegação de esperantistas portugueses a um congresso internacional fora chefiada por um amigo que há vários anos perdi de vista, o Miguel Faria de Bastos. Não fazia a menor ideia de que o Miguel, que conheci como advogado de renome em Angola e que mais tarde cruzei várias vezes em Lisboa, se dedicasse ao Esperanto, essa língua internacional que existe há bem mais do que um século e que, como conceito, incorpora uma ideia interessante de entendimento e de paz. Por uma qualquer razão ligo-a também sempre ao anarquismo.

O meu primeiro "encontro" com o Esperanto foi na biblioteca dos familiares de um tio que não cheguei a conhecer, onde descobri um manual de Esperanto. Na altura, entusiasmei-me em aprender algumas palavras daquela estranha língua. Conhecendo-me bem, imagino que o entusiasmo deva ter durado escassos dias.

O Esperanto viria a cruzar-se comigo de novo, anos mais tarde, no Porto, quando por ali andei na universidade, na segunda metade dos anos 60. 

Eu tinha alugado, a meias com um amigo, um quarto num apartamento na Rua Miguel Bombarda (alguém acredita que, nessa altura, praticamente não havia nenhuma casa comercial nessa artéria hoje "trendy" do Porto?). A dona da casa era uma senhora que devia ter então os seus 80 anos, muito digna e educada, com os cabelos muito brancos agarrados num puxo, que se percebia, até por alguns objetos restantes na decoração da casa, que tinha tido tempos de uma vida mais "aisée". Por aquela altura, alugava dois quartos para o seu sustento. Por ocasião dos tumultos do maio de 1968, o seu filho, que trabalhava na embaixada ou no consulado em Paris (ou seria na Casa de Portugal, na Cité, então invadida?), por uma qualquer razão que me escapa, mas que se ligava aos acontecimentos, terá regressado apressadamente ao Porto. A pobre senhora, que lembro que era menos bem tratada pelo antipático cavalheiro, teve de ir dormir para um divã na sala de jantar, que eu e o meu amigo éramos obrigados a atravessar, para aceder ao nosso quarto, nas madrugadas de algumas borgas. A penosa situação só durou alguns meses, porque, entretanto, no final desse ano letivo, abandonámos o quarto.

Mas onde é que o Esperanto entra nisto? Um dia, ao pequeno almoço, num conversa com a dona da casa, D. Isabel, ela mencionou, já não sei bem a que propósito, que o seu falecido marido era autor de um importante manual de Esperanto. Nesse instante, lembrei-me do livro que descobrira na biblioteca do meu tio. Vi a velha senhora abrir-se num sorriso de esperança, saindo apressadamente da cozinha, onde a cena se passava, e, um minuto decorrido, surgiu com um livro na mão. Era aquele mesmo! Vi então algumas lágrimas a molharem as rugas de uma cara que devia ter sido bonita. A coincidência fora bem feliz!

A minha memória também não reteve o nome do autor do manual de Esperanto, bem como o da sua viúva, que se fosse viva teria hoje cerca de 130 anos... Será que algum leitor esperantista me pode ajudar a descobrir esse nome e o manual, que deve datar dos anos 30 ou 40 do século passado? Ou talvez eu recorra ao Miguel Faria de Bastos, como belo pretexto para nos revermos.

Por que luas me lembrei do Esperanto hoje? Porque alguém falou nesta língua mítica num dos comentários hoje feitos no blogue, e isto é como as cerejas...

(Alterei ligeiramente este texto depois de uma conversa com o meu antigo companheiro de quarto, um dos meus grandes amigos, que me ajudou a precisar melhor os factos.)

Viva a Europa!


“Acha mesmo que as coisas vão correr mal?”, foi a pergunta de várias pessoas que leram o meu artigo da passada semana, em que, em síntese, eu dizia que Portugal tinha de ter uma estratégia para o caso da sua posição face à integração europeia poder vir a alterar-se. Alguns entenderam mesmo o que escrevi como uma falta de fé no projeto europeu – tanto mais que não me canso de repetir, há muitos anos, que sou tão europeísta quanto os interesses de Portugal assim o justificarem.

Vamos por pontos. A União Europeia, com o seu corpo de polítícas, é, no “mercado” corrente de opções, o melhor “produto” onde poderemos ancorar o nosso futuro. Não tenho a mais leve dúvida disso e, olhando para as últimas três décadas, faço uma avaliação extremamente positiva do nosso percurso europeu. Não posso sequer imaginar o que teria sido do nosso país sem a Europa. Aliás, essa é uma questão meramente teórica: se Portugal não tivesse aderido às instituições europeias em 1986, ter-se-ia juntado mais tarde, em muito piores condições e com muito menos vantagens. Entrámos no momento certo. Obrigado, Mário Soares!

A Europa, o projeto europeu, hoje chamado União Europeia, é, porém, um objeto mutante. O corpo de políticas de 1986 está a anos-luz daquilo que hoje existe, a nossa capacidade para operar o que nos compete na partilha comum de soberanias tem já muito pouco a ver com o dia da adesão. A evolução do projeto europeu fez-se com resultados assimétricos para os “sócios” do clube e, em vários dos seus países, há hoje crescentes questões que comparam as inegáveis sinergias positivas com alguns importantes impactos negativos. E, dessa comparação, no olhar de alguns, o retrato da Europa não a favorece muito.

Quero com isto dizer que há vertentes do projeto europeu que afetam a sua legitimidade política em alguns Estados membros. Mas essa é apenas uma parte da questão: o saber se nos “sentimos bem” nesta Europa que aí está.

O aspeto que o meu texto anterior procurava abordar tinha a ver com a dinâmica da Europa, a sua eventual evolução em termos que possam vir a revelar-se detrimentais para Portugal, seja pela inadequação objetiva de algumas políticas aos nossos interesses, seja – e lamento ter de escrever isto de forma frontal – pela eventual circunstância de virmos a não “ter pedalada” para acompanhar o seu ritmo ou os impactos de certas opções. Estou a falar do euro? Estou.

Continuaremos esta conversa, que, no dia de hoje, me evita Centeno e o livro de Cavaco. Só por isto, viva a Europa!

Sermão

As pessoas acreditam naquilo que querem acreditar. Em particular, acreditam no que lhes prolonga as ideias feitas, no que entendem como sendo "lógico" e no que lhes aparece como podendo desenhar-se como "óbvio". E se o que lhes é servido como verdade tem o condão de adubar sentimentos pré-existentes, então o processo de convicção pode dar-se como adquirido. Essa é a glória do criador da crença, para quem o supremo objetivo era construí-la, dá-la como evidência e vê-la partilhada, difundida e aceite como "a verdade". 

Ingenuamente, pode argumentar-se que, para além da crença, há que ter em conta esse pormenor, quiçá marginal, que são os factos. E que, às vezes, os factos apontam, de forma cristalina, no sentido de infirmar, em absoluto, a crença entretanto estabelecida. Neste caso, "tant pis" para os factos. Se acaso eles não acompanham o rumo da crença, esta dispensa-os, por irrelevantes e incómodos. É dos livros. Pirandello dizia que "a cada um a sua verdade". É verdade, cada um fica na sua. Apesar da verdade, na verdade, ser só uma. E, às vezes, a crença nada ter a ver com ela. Mas que importa? As pessoas acreditam naquilo que querem acreditar.  

(Publiquei este post aqui por duas vezes: em 8 de outubro de 2011 e 8 de junho de 2016. Volto a publicá-lo hoje)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A sala dos embaixadores

Já lá não ia há alguns meses, à Sala dos Embaixadores, uma bela dependência adjacente ao gabinete do Ministro dos Negócios Estrangeiros, com uma excelente vista para a Tapada das Necessidades, onde são recebidos visitantes e delegações.

Dei ontem por mim a pensar nas várias circunstâncias em que por ali estive, de cenas de que fui testemunha à volta daquela bela mesa de mármore.

Fixei bem a primeira vez, creio que em 1976, numa reunião com Melo Antunes, quando uma comissão encarregada das relações com os países árabes, presidida pelo eng° Torres Campos, foi dar conta da sua atividade ao ministro. Torres Campos apresentou cada membro da delegação mas, por lapso, esqueceu-se de mencionar o seu chefe de gabinete. Melo Antunes inquiriu: "E aquele senhor ao fundo, quem é?". Embaraçado, o presidente da comissão explicou que se tratava do eng° António Guterres...

Recordei-me depois, entre inúmeros episódios nessa sala, da estupefação de um ministro de um país dependente da cultura da banana perante um seu homólogo português que cuidava em "explicar-lhe" como funcionava a economia do produto à escala global. Veio-me também à memória uma cena tensa, com uma delegação estrangeira a levantar-se, ofendida, a meio de uma reunião, por uma descuidada frase de um governante português, connosco a persegui-los pelo corredor, convencendo-os a regressar à mesa negocial. Por ali fui testemunha de hábeis conversas que ajudaram a mudar posições de outros Estados que caminhavam em nosso desfavor, bem como de horas de "langue de bois" diplomática, a "encher pneus", com ambas as partes a gastar tempo em conversa "de chacha", para preencher calendário, em visitas formais e sem agenda substantiva. Foi nessa sala que um dirigente africano, a quem um ministro português paternalisticamente recomendava uma maior parcimónia aos governantes do seu país no uso dos dinheiros públicos, perguntou se ele seria capaz de viver se tivesse, como ele, um salário oficial de 25 dólares por mês. E, também por ali, ouvi ou participei em discussões muito interessantes, produtivas, bem como assisti, fascinado, a intervenções de grandes personalidades, figuras que marcaram a história diplomática internacional. Naquela sala aprendi muito, até nos erros que vi cometer.

Vi naquela sala um pouco de tudo, da parte de muitos dos 21 ministros dos Negócios Estrangeiros com quem trabalhei ao longo de quase quatro décadas: uns extraordinariamente competentes, outros embaraçosamente inábeis, embora todos - tenho de reconhecer - cada um à sua maneira, procurando atuar o melhor possível em nome dos interesses do país.

Num recorte de jornal que guardo não sei onde, vejo-me naquela sala, de pé, no final dos anos 70, abrindo a pasta de um acordo a ser assinado por um ministro ou diretor-geral. Ali estou eu, nessa fotografia, fácies grave, com um inapropriado blazer de inenarráveis quadrados, uma bigodaça farfalhuda e um imenso cabelame, típico da época. Belos tempos? Não, apenas outros tempos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

"Sobre a diplomacia de prestígio"

Hoje, numa pesquisa na net, encontrei, por mero acaso, este artigo, intitulado "Sobre a diplomacia de prestígio", escrito há 20 anos na "Folha de S. Paulo" por uma grande figura brasileira, o diplomata e político Roberto Campos. Devo dizer que aprendi bastante ao lê-lo, recomendando-o vivamente a quem por aqui passa:

Na historiografia das relações exteriores costuma-se distinguir a "diplomacia de prestígio" da "diplomacia de resultados". Esta se baseia na análise de custos e benefícios. Aquela privilegia a capacidade de manipulação política, valorizando fatores ideológicos e psicológicos.

O grande mestre da "diplomacia de prestígio" foi o general De Gaulle, que conseguiu projetar uma imagem política do poderio francês muito superior à realidade econômica e militar. Mao Tse-tung fez o mesmo na China utilizando o efeito "massa", aliado a um furor ideológico, para criar uma ilusão de sucesso como modelo socialista. Alguns países adquirem prestígio político negativo pela sua capacidade de usinar problemas: Cuba, na América Latina, e Israel, no Oriente Médio.

O chanceler Helmut Kohl, da Alemanha, exemplifica, ao contrário, a "diplomacia de resultados". Manteve perfil político modesto, com alto desempenho econômico, balanceando custos e benefícios até conseguir a reunificação alemã e posição econômica dominante no continente. Reproduziu, num país derrotado, o desempenho do chanceler Bismarck, unificador da Alemanha no século 19.

O Brasil tem exemplo de ambas as coisas. O acordo nuclear com a Alemanha e a política terceiro-mundista foram ilustrações da "diplomacia de prestígio". A laboriosa construção do Mercosul, de outro lado, tipifica a "diplomacia de resultados". Um dos mais frustrantes exemplos da "diplomacia de prestígio" foi nossa longa campanha para obter reconhecimento como grande potência política nas organizações internacionais.


Desde 1923 o Brasil anunciava a sua pretensão de tornar-se membro permanente do Conselho da Liga das Nações (a qual, sem adesão dos Estados Unidos, se tornara um clube "europeucêntrico"). A oportunidade surgiu em 1926, quando, após o tratado de conciliação de Locarno, a Alemanha obteve o apoio franco-britânico para tornar-se "membro permanente" da liga. Para evitar a candidatura da Polônia, houve um veto a novas inserções no conselho. Ficou prejudicada a candidatura do Brasil, que sofria objeções européias e dos próprios latino-americanos, interessados no sistema de rodízio. O Brasil revidou com um veto ao ingresso da Alemanha e acabou, pouco depois, renunciando à sua cadeira na Liga das Nações.

Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, em reunião com Vargas, o presidente Roosevelt, grato pelo apoio bélico brasileiro por meio da cessão da base aérea de Natal, declarou que proporia para o Brasil uma posição de relevo na futura ONU, a ser criada após o conflito. Na conferência de Ialta, com Stálin e Churchill, em 1943, Roosevelt aventou a idéia dessa participação especial brasileira. Stálin objetou, alegando que a União Soviética não tinha relações diplomáticas com o Brasil (essas só viriam a ser restauradas em 1945). Na realidade, Stálin queria limitar o CS (Conselho de Segurança) a um diretório tripartite dos Estados Unidos, União Soviética e Grã-Bretanha. Apenas relutantemente aceitou o acesso dos chamados "países derrotados" -França e China. O Brasil teve de se contentar em inaugurar o sistema de rodízio no Conselho de Segurança, cabendo-lhe um primeiro mandato de dois anos na instalação desse conselho, em 1946.

O tema continuou por muito tempo como brasa sob cinzas no Itamaraty, sem análise realista dos custos (que são muitos) ou dos benefícios (que são poucos). O custo deriva da responsabilidade maior dos membros permanentes do Conselho de Segurança na montagem das operações de paz, com implícita aceitação de maior participação em seu financiamento.

Suscitar-se-iam também rivalidades regionais (agravadas no caso brasileiro por sermos uma ilha de cultura portuguesa num mar hispânico). A vantagem seria a projeção externa de nossa imagem política. Mas essa projeção melhor seria alcançada como subproduto do desenvolvimento econômico, à guisa do que fizeram Alemanha e Japão. Poucas objeções haveria à nossa pretensão se o Brasil voltasse ao milagre de desenvolvimento da década dos 60, pois combinaríamos o efeito "massa" com o efeito "eficiência".

O assunto ressuscita agora porque os Estados Unidos, desejosos de dar reconhecimento ao peso econômico e militar da Alemanha e Japão, concordaram em acrescentar aos atuais membros permanentes do Conselho de Segurança -Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e China- mais cinco países.

Duas candidaturas, a da Alemanha e do Japão, são consensuais, confirmando o valor da "diplomacia de resultados", pois essa promoção política seria mero registro de sua ascensão econômica e militar. Os outros três lugares caberiam, respectivamente, à América Latina, à Ásia e à África. Abre-se aqui uma "caixa de Pandora". Na Ásia, o candidato natural seria a Índia, que sofre impugnação do Paquistão, despontando, à margem, a candidatura da Indonésia, que alega representar também a cultura islâmica. Na África, competem o Egito, com maior tradição diplomática, a Nigéria, com potencial econômico, e a África do Sul, como democracia multirracial pós-apartheid.

Na América Latina, além do Brasil, o mais antigo pretendente, há que levar em conta a Argentina, que apóia o rodízio, e o México, que preferiria o "status quo" a um reconhecimento explícito da prerrogativa brasileira. Mesmo na Europa, onde a candidatura alemã é consensual, começam a aparecer ambições latentes na Itália e Espanha...

Mesmo transpostas as dificuldades de seleção, surge a questão do direito de veto, hoje menos importante que na época da Guerra Fria, mas ainda de valor cautelar. Os Estados Unidos prefeririam excluir desse direito os novos membros permanentes, o que seria considerado uma "capitis diminutio" pela Alemanha e Japão. Os países em desenvolvimento, que desejariam no futuro ver abolido o direito de veto, entendem que, na transição, os novos membros permanentes não deveriam sofrer discriminação, tendo direito aos três "vês" -voz, voto e veto. O fato de que, no sistema de rodízio, o direito de veto poderia cair em mãos de países inexpressivos é um complicador adicional...

Atentas essas controvérsias, a ampliação do Conselho de Segurança pode tornar-se paradoxalmente um fator de insegurança pelo atiçamento de rivalidades regionais.

Para complicar as coisas, a recente política de Washington em relação à América Latina é uma obra-prima de "confusionismo". Talvez a idéia subjacente seja o princípio de "divide et impera", de que se serviu o Reino Unido para reger o concerto europeu no século passado. Haverá coisas mais divisórias do que abolir a proibição de venda de armas sofisticadas, com o fornecimento de aviões F-16 ao Chile, país que até recentemente teve tensões territoriais com seus vizinhos? Ou a caracterização da Argentina como aliado especial extra-Otan e, portanto, autorizada a comprar armamentos em condições especiais? Os argumentos de que (a) com a redemocratização foi anulado o perigo de corridas armamentistas porque "as democracias não guerreiam entre si"; ou (b) que os Estados Unidos fazem apenas vendas preventivas para ocupar espaço que russos e europeus ocupariam, parece resultar menos de avaliações políticas sóbrias do que de mera racionalização de pressões da indústria bélica ou do Pentágono.

Como conciliar pregações de austeridade fiscal aos latino-americanos com a liberalização de venda de armamentos? Os militares, aqui e alhures, nunca foram fanáticos no cálculo de custos e benefícios. Os F-16 para o Chile são como o submarino nuclear brasileiro. Excelente idéia, desde que primeiro se encontrem inimigos credíveis que justifiquem a despesa...

Se para a "'diplomacia de prestígio" a questão do CS é importante, para a "diplomacia de resultados" ela é secundária. "Paris vale bem uma missa", disse o rei Henrique 6º ao aderir ao catolicismo, em 1593. Mas certamente o CS não merece uma querela entre o Brasil e a Argentina...
Nossas prioridades devem ser outras de tipo mais utilitário. A primeira prioridade é o fortalecimento do Mercosul, até mesmo como pista de treinamento na harmonização de políticas, coisa indispensável para chegarmos a uma negociação competente na formação da Alca, em 2005.

Uma segunda seria o ingresso do Brasil no clube dos países industrializados -a OCDE-, a exemplo do que fizeram México e Coréia do Sul. A troca de experiências nesse conclave aumentaria o grau de racionalidade em nossa política econômica e talvez contribuísse para melhorar o "credit rating" do Brasil, hoje menos favorável que o de vários países de economia mais débil.

A posição política do Brasil é confortável, independentemente de cabalas diplomáticas. Se a América Latina optar pela designação de um membro permanente para o CS, dificilmente o Brasil seria preterido, em vista de seu peso específico econômico e territorial. Se adotado o rodízio, isso não seria uma derrota. Desastroso, sim, seria qualquer esfriamento na cordialidade tardiamente alcançada entre o Brasil e a Argentina. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Notícias da geringonça

É indiscutível que os casos TSU e Caixa/Domingues constituíram dois abalos importantes para o governo. 

No primeiro, houve uma evidente leviandade política na expetativa infantil de uma outra atitude por parte do PSD. No segundo, a inabilidade do governo foi ainda mais clamorosa, com erros crassos na avaliação dos constrangimentos jurídicos pré-existentes, espalhando sinais desastrosos na tentativa de "damage control", que se voltaram contra ele. Depois das notas de ontem do primeiro-ministro e do presidente da República, o ministro das Finanças sai obviamente fragilizado deste episódio, sem sequer pode gozar o crédito dos bons resultados financeiros por que se empenhou.

Do lado da oposição, onde o CDS andou apenas a reboque (o deslumbre da candidatura da líder a Lisboa parece obnubilar o partido), Passos Coelho ganhou uma evidente sobrevida no seio do PSD (o que não é necessariamente uma má notícia para António Costa, porque o antigo líder continua a ser o adversário mais fraco que pode ter). Se, no caso da TSU, o seu ganho público foi limitado (e devastador, em termos de credibilidade como partido com sentido de Estado, para um eleitorado mais elaborado), não é ainda claro o que poderá vir a registar a seu crédito com o episódio de Centeno.

Estas semanas podem ter inaugurado, contudo, um tempo novo na relação entre o presidente e o governo. 

Marcelo tem ido mais longe do que a sua "entourage" lhe recomenda, no seu apoio ao governo. À direita, como se esperava, "saltou a tampa" e as críticas já passaram a fase em surdina para se afirmarem abertamente em público. O presidente não dá ares de grande preocupação, mas, intimamente, deve estar a interrogar-se sobre as consequências futuras desta desafetação da sua base política natural de apoio. É claro que a sua popularidade é por ora elevadíssima, mas ter contra ele PSD e CDS é algo que, a prazo, contribuirá para erodi-la. E ele sabe isso melhor do que ninguém.

No lugar de António Costa, eu estaria um pouco preocupado. Cada "frete" que Marcelo Rebelo de Sousa, com desgaste político, faz ao governo é um ponto a débito deste. O presidente tem assim vindo a ganhar "lastro" para poder, um destes dias, fazer uma ou outra jogada de demarcação, que lhe permita reequilibrar um pouco a balança política. E isso vai provocar alguma "estranheza" no seio dos socialistas, em especial se o "tom" presidencial mudar. Não antevejo como provável que Marcelo, acabadas que sejam as operações de estabilização bancária em que se tem fortemente empenhado, volte a disponibilizar-se, de forma tão flagrante, para "escudar" o executivo da forma que o tem feito. Ele vai achar que já cumpriu a sua missão em prol da estabilidade. Talvez a questão da eutanásia seja o primeiro pretexto.

Uma última nota para a geringonça. O caso TSU terá feito ver ao PC e ao Bloco que os riscos do desalinhamento são muito elevados. Ambos devem ter hoje uma maior consciência de que a sua eventual divisão no apoio ao governo PS só pode vir a ajudar a direita. Mas terão mesmo?

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Mais luz

Para o meu pai, que me deixou há uma década, não muito longe do bater da badalada dos seus cem anos, o dia 21 de dezembro era sempre uma alegria: "A partir de hoje, cada dia traz-nos mais dia". Referia-se aos minutos acrescidos de luminosidade que, a partir dessa data, se iam ganhando. Nessa mesma lógica, para ele, o período mais triste do ano era o outono, quando se notava mais que os dias começavam a encurtar. Se eu lhe falava dos meus invernos noruegueses, em que entrava na embaixada ainda na escuridão e, depois de uma jornada contínua, saía já de novo com noite, ele exclamava: "Eu dava em doido!". A luz do dia, para ele, era fundamental. E irritava-se quando eu lhe gabava a beleza dos fins de tarde de outubro, com uma chuvinha leve e os candeeiros já acesos, naquela hora de pré-recolhimento ao conforto da casa: "A noite é uma chatice!", sentenciava, bem sabedor de que as noitadas até de madrugada eram a minha perdição, desde a adolescência, a ouvir rádio e a ler. Nunca se reconciliou com isso, achando (e bem) que eu passei toda a minha vida a desprezar as manhãs: "A luz natural é tudo". Desde miúdo que me lembro de ouvi-lo contar que, à hora da morte, Goethe tinha pedido "mais luz!" E o meu pai acrescentava sempre: "Há, claro, uma explicação filosófica para essas últimas palavras. Eu acho, contudo, que ele apenas queria que abrissem as cortinas da janela..."

domingo, 12 de fevereiro de 2017

No inverno

Continuando num registo de roupa, ontem brincava com um amigo a propósito do seu magnífico sobretudo bege, coisa "fina", da "Burberry", que devia ter custado uma nota.

E lembrei-me da história que o meu amigo Chico Trindade Lopes costuma contar, sobre uma figura popular de Viana do Castelo, dos anos 60 e 70.

Era o Vilaça, "chofér de praça" que parava na avenida central da cidade, creio que em frente ao "Viana Mar". O que mais distinguia o Vilaça era a sua voz rouca, cava, em que dizia graçolas num tom inconfundível e único. O pessoal mais novo mandava-lhe umas bocas, a que o Vilaça reagia à sua maneira, às vezes um tanto bruta.

Um dia, no tempo frio, o Vilaça surgiu com um longo sobretudo azul, comprido, de grande estilo. A surpresa geral com aquele novo adorno do Vilaça, que contrastava com a modéstia da roupa do resto do ano, foi imensa. O sobretudo era mote para graças, mas o Vilaça não se deixava abater com elas. E, naquela sua rouquidão funda, o Vilaça respondia, forte e desafiante, ao pessoal: "No inverno é que se vê quem tem roupa!". E arrumou a conversa! Grande Vilaça!

A idade da bombazine

Há dias, dei-me conta de que ando, cada vez mais, de calças de bombazine. No passado, a bombazine era, para mim, sinónimo de fim-de-semana. Recordo-me de brincar dizendo que "calças de bombazine, camisolas de losangos e o Expresso na mão" eram o "traje" oficial  de certos cavalheiros frequentadores das Pousadas, nos sábados e domingos "off season". Um amigo costumava gozar com outro, que vivia em Londres, e que era useiro e vezeiro em andar de blazer com calças de bombazine, com ou sem lencinho a pingar do bolso, que "ele se vestia como ele achava que os ingleses se vestiam". 

Agora, mais do que uma vez por semana, vejo-me de calças de bombazine, do Outono ao fim da primavera. Como não tenho um "from-nine-to-five" regular, concluí que as calças de bombazine são como que um traje da reforma, por mais ativa que ela seja. Pronto, entrei na idade da bombazine. E, estranhamente, dou-me muito bem com isso.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Acordo & desacordo

("Por que é que te vais meter, uma vez mais, nesse vespeiro que é a discussão sobre o Acordo Ortográfico?", comentou ontem um amigo a quem disse que ia escrever sobre o assunto. "Porque não quero dar razão a quem acha que tenho vontade de ser consensual", respondi-lhe.)

Concordo com o que Augusto Santos Silva disse sobre o Acordo Ortográfico - um tratado internacional aprovado pelo governo português, aprovado esmagadoramente pela Assembleia da República, ratificado pelo presidente da República e com os instrumentos de ratificação devidamente depositados. Um instrumento jurídico que está, desde há vários anos, em vigor na ordem jurídica portuguesa, adotado no ensino oficial, usado pelos serviços do Estado, por muita comunicação social e por milhões de cidadãos - entre os quais me incluo.

Reconheço que há quem não goste do Acordo. Estão no seu pleno direito e ninguém, aliás, os obriga a orientarem-se pelas suas regras. Mas não admito argumentos de autoridade - por exemplo, atirarem-nos à cara com os escritores que se recusam a adotá-lo. Em democracia não há "assinaturas" qualificadas, vozes que têm mais peso do que as de outros. Era só o que faltava!

É sabido que a história dos anteriores acordos ortográficos passou também pelo seus contestatários, pessoas a quem as mudanças provocaram seguramente dores de cabeça (seguramente curadas com algo comprado nas "pharmácias"....) Os acordos, como sempre se provou, são feitos para as gerações seguintes. Ninguém gosta, naturalmente, de mudar a maneira como aprendeu a escrever. 

Custa-me dizer isto, mas acho que o militantes anti-Acordo se estão progressivamente a assemelhar aos nossos monárquicos, promotores obstinados de uma causa que, embora já perdida, entendem dever continuar a alimentar. Desejo-lhes idêntica sorte.

(Vá! E agora, quem quiser pode desancar-me com paletes de consoantes mudas e de telhas circunflexas de que sentem tantas saudades...)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Obra aberta


Chama-se "Obra Aberta" e é um programa da "Rádio Renascença", gravado com público no Centro Cultural de Belém, transmitido cada segunda-feira, às 23 horas.

Ontem coube-me emparceirar com o professor e escritor Helder Macedo, que coincide ser um bom amigo poessoal.

A conversa, de cerca de uma hora, moderada por Maria João Costa, versou sobre livros. No meu caso, deixei algumas notas da minha ligação umbilical a essas folhas ligadas em forma de volume, de que vivo rodeado. E falei de alguns dos muitos livros (porque são mesmo muitos!) que ando a ler.

Quer o Helder Macedo quer eu coincidimos na recente e excelente biografia de Manuel Teixeira Gomes, de José Alberto Quaresma. Aproveitei para chamar a atenção para um interessante estudo que o Helder faz sobre Teixeira Gomes no seu recente "Camões e outros contemporâneos". E dei a minha impressão sobre as razões que podem ter motivado o relativo apagamento da figura muito interessante de escritor, diplomata e político que Teixeira Gomes foi - mas, sobre isso, direi algo daqui a dias.

Depois, falei do magnífico "O impostor", de Javier Cercas, já publicado há algum tempo, um retrato de uma figura bizarra da pequena história contemporânea espanhola, num recorte trágico-irónico sobre esse tema de difícil tratamento que continua a ser a sua sangrenta Guerra Civil. De Cercas, notei também a recente reedição do "Soldados de Salamina" e lembrei a importância da leitura do "Anatomia de um instante", um livro já com alguns anos, imprescindível para entender o significado profundo da "tejerada" de 23 de fevereiro de 1981.

Finalmente, dei conta do surgimento do "Tenho cinco minutos para contar uma história", de Fernando Assis Pacheco, uma coletânea de histórias lidas pelo próprio na rádio, em 1977/78, que acaba de sair, agarrando temas do quotidiano, numa linguagem ágil, rica, com o humor e a ironia que eram a imagem de marca dessa figura fascinante que nos deixou com menos de 60 anos.

Fiquei com a sensação de que aquela hora foi demasiado curta para o muito que os livros nos trouxeram à ideia. Mas o ótimo é inimigo do bom e foi muito bom ter estado à conversa com o meu querido amigo Helder Macedo.

E se a Europa...


Há dias, alguém notava que, em escassas dezenas de anos, foi possível incutir no sentimento nacional a noção de que não há um futuro para Portugal fora da Europa. O projeto integrador passou a fazer parte do “politicamente correto” português, constituindo uma bizarria insana querer desenhar, for a dele, alternativas para o nosso destino coletivo. De certo modo, a Europa, como alguns já tinham defendido, foi a substituição do projeto imperial, colonial ou ultramarinista – dependendo do arrebatamento histórico de cada um.

Durante muito tempo, o PCP era a única força política que, começando por não acreditar na possibilidade de Portugal entrar nas então Comunidades Europeias, defendeu, a partir da adesão,  uma integração relutante, marcada por um soberanismo que pedia meças à direita mais cética. Não deixa de ser irónico que uma força política tributária de uma cultura histórica internacionalista se tenha acabado por transformar no partido paladino das fronteiras, defensor da preferência nacional, feroz crítico da globalização, oposto à NATO. Ninguém espere, contudo, que eu especule, a partir daqui, com a nova agenda americana que há dias nos saiu em rifa…

Hoje, o país está “colonizado” pela ideia europeia, tida como referente da democracia de que usufruimos, fonte de ajudas das quais Portugal parece não poder prescindir, terreno de partilha de valores que marcam a nossa opção civilizacional. Dos vários patamares de integração – e nós estamos em todos – aquele que oferece  mais dúvidas é o da moeda única, sendo que Schengen também tem os seus detratores. Mas a opção europeia faz parte da nossa paisagem indiscutida como país.
Portugal tem 900 anos, a nossa integração na Europa tem quarto décadas. Portugal existiu, como Estado soberano e independente, muito antes de quaisquer ideias de unir as nações do continente. Vale agora a pena fazer uma pergunta incómoda: e se a União Europeia, tal como a conhecemos vier a diluir-se ou mesmo a acabar como projeto politico? Que Portugal há para além da Europa?

Esta provocação tremendista, que há alguns anos pareceria ridícula, não pode deixar de ser feita. A capacidade de manutenção de Portugal no euro é vista, por muitos, como duvidosa. Os sinais de que uma Europa com regresso das fronteiras pode vir a nascer são muito fortes. Marine Le Pen anuncia, em caso de vitória, um referendo sobre a permanência da França na União Europeia – o que, por si só, significaria um inevitável cisma com a Alemanha. Noutros países acumulam-se dúvidas sobre o projeto comum. Do outro lado do Atlântico, os sinais de uma desafetação face ao nosso projeto integrador são mais do que evidentes – e nós sabemos que a América é um poder europeu. Como cereja no topo do bolo, há que pensar que, em Portugal, o sentimento eurocético só tem condições para prosperar.

Falaremos mais sobre isto.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Da vida

Às vezes, somos tentados a pensar que, por uma análise racional ou racionalizada, somos capazes de superar traumas fortes que ocorreram na nossa vida. Cada vez me convenço mais de que isso é uma ilusão: podemos pôr entre parêntesis esses episódios, mas as cicatrizes lá ficaram e, quando olhamos para elas, a memória surge tão ferida como estava nesse instante.

Vem isto a propósito do 25 de abril. 

As memórias dessa data são muito díspares. Para alguns, como é o meu caso, olho para a data com um sorriso histórico e, pela alegria que ela me proporcionou, chego a absolver com alguma ligeireza alguns erros imperdoáveis que então se (e o "se" aqui também é reflexo) cometeram.

Mas quando me confronto com gente que, por vezes sem culpa própria, sofreu na pele as consequências da Revolução, seja por ter visto interrompida a sua vida nas colónias, seja por eventos traumáticos, disruptores da normalidade do seu quotidiano de então em Portugal, fico com a sensação de que nunca será possível, por maior esforço que essas pessoas façam, conseguir que elas passem uma esponja sobre a memória negativa que transportam consigo. 

Na maioria das vezes, nem sequer estamos perante "fascistas" encapotados, remoendo vinganças e ansiando por um impossível retorno aos dias da ditadura. Estamos face a pessoas conservadoras, que vivem bem o país democrático de hoje, que apenas nunca se reconciliaram com o que um dia lhes aconteceu, afetando o que tinham por normal nesse seu quotidiano. Não vale a pena, com essas pessoas, tentar argumentar, procurar discutir o passado que, entretanto, e em definitivo, mudou. É um exercício desgastante e inútil para os dois lados, conducente mesmo a potenciais momentos desagradáveis, que a nada conduzem. 

Para voltar ao princípio deste texto, o sentimento que vive dentro dessas pessoas não muda, não mudará nunca através de uma discussão, morrerá com elas.

Lembrei-me disto numa conversa que hoje tive.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Labirinto

Ainda a propósito das "secretas", que já hoje aqui referi, lembrei-me de um amigo com quem falo muito raramente. Quase sempre, é ele quem me liga. 

Desde os anos 80, altura em que o conheci, as suas conversas telefónicas são sempre tidas sob o implícito pressuposto de que estamos a ser escutados. O que até pode ser verdade, mas é totalmente irrelevante, porque os temas de que falamos são de lana crapina e, não tendo nós qualquer informação privilegiada no domínio político (o que dá imenso sossego), os nossos diálogos acabam por ter a profundidade de meros comentários de jornal - sobre o governo, figuras políticas, diplomatas que ele conheceu, etc.

Mas ele insiste sempre: "Então o seu amigo de lá de cima sempre aceitou o cargo?". Confuso, arrisco um nome e, do outro lado, quase que pressinto o desagrado com o escusado "outing". Por vezes, o tom envolve gente assim "desenhada" de forma críptica que aquilo se torna para mim num labirinto, uma espécie de batalha naval oral. 

E a conversa prolonga-se, sempre, sem exceção, no mesmo registo: "Disseram-me que, há dias, esteve a almoçar junto ao rio com o homem do banco?". 

Se a interlocução estivesse, de facto, a ser gravada, e com os bancos pelas ruas da amargura como andam, podia deduzir-se grossa marosca. Com que então "com o homem do banco"?! Negócios? "Inside trading"? Crédito suspeito? Mas não, tratava-se simplesmente de um amigo meu que trabalha num banco (atividade, até ver, ainda não punível por lei), que já não via há muito tempo e com quem fui comer um peixe a um restaurante, junto ao Tejo, com imensa gente conhecida à volta. Chato, confirmei: "Sim, é verdade, estive com Fulano a a almoçar há dias". O silêncio reprovador do outro lado da linha deu a entender que eu tinha feito mais um escusado "leak". E tudo continua nesse registo, tornando a conversa num labirinto complicado.

É assim este meu amigo. Há dois ou três anos, organizámos - eu e um grupo de pessoas de quem ele gosta - um almoço num restaurante. Aí, a coreografia foi diferente. Quando pronunciava o nome de alguém mais importante, via-o a olhar para os lados, porque, sabe-se lá, "as paredes têm ouvidos"... 

Aquele meu amigo é que deveria ter ido para as "secretas".

Memória pessoal dos tratados europeus


Fez ontem 25 anos que foi assinado o Tratado de Maastrich. Dei por mim a pensar onde estava ao tempo dos grandes documentos estruturantes da integração europeia.

Imagino que, em 1957, quando foi assinado o Tratado de Roma, eu me dedicasse laboriosamente a completar a minha "terceira classe", em Vila Real, na "escola do trem", sob a orientação do professor Pena. A única Europa que me interessava estava toda no "Cavaleiro Andante", cuja coleção completa (ora pois!) está agora ali à minha frente, bem encadernada.

Nos tempos do Tratado de Maastricht, em 1992, eu andava por terras já então bem relutantes ao exercício, isto é, vivia em Londres. Lembro-me bem do primeiro-ministro John Major, qual Chamberlain a agitar o papel da paz, a chegar, exultante, ao reino, proclamando "game, set and match!". Está-se agora a ver melhor o resultado real da partida.

Três anos depois, ao tempo em que eu era subdiretor-geral dos Assuntos Europeus, André Gonçalves Pereira convidou-me para ser o seu "deputy" no "Reflexion Group" que a União Europeia tinha entretanto criado para preparar a revisão do Tratado de Maastricht. A meio desse processo, tornei-me secretário de Estado dos Assuntos Europeus. No ano seguinte, seria o "chief negotiator", por Portugal, do novo tratado que resultou da Conferência Intergovernamental que, entre 1996 e 1997, fixou o Tratado de Amesterdão.

Passaram três anos. A União Europeia, decidiu lançar uma nova revisão dos tratados. Portugal, na sua presidência em 2000, dirigiu o lançamento e o primeiro semestre de trabalhos da nova Conferência Intergovernamental (CIG). Presidi à CIG nos primeiros seis meses e voltei a ser o "chief negotiator" daquele que viria a chamar-se o Tratado de Nice, concluído em dezembro desse ano.

Mais três anos passaram. Eu era embaixador na OSCE, em Viena. Aceitei o convite que o governo de então me formulou para integrar uma "task force" para o "aconselhar" nas negociações do malogrado Tratado Constitucional. Já estava embaixador em Brasília quando os referendos negativos na Holanda e em França fizeram naufragar esse projeto.

E no Brasil continuava quando, sob presidência portuguesa, em 2007, foi adotado o Tratado de Lisboa, uma visão reciclada e disfarçada do Tratado Constitucional. Tenho o gosto de constatar que não fiz parte dos "tratantes" desse que é o mais funesto documento da história da integração europeia, que não tenho o menor orgulho que leve o nome da nossa capital.

Esta é a minha memória pessoal dos tratados europeus. Ela aqui ficou.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Secretas


O Conselho de Fiscalização dos Serviços de Informação pronunciou-se a favor da fusão entre o SIS e o SIED.

Tenho a maior das dúvidas sobre a autoridade dos pareceres desta entidade  que, ao longo dos tempos, mostrou uma eficácia mais do que duvidosa, sendo "toureada" sistematicamente por aqueles a quem competia vigiar.

Se o Conselho de Fiscalização fizesse melhor aquilo que realmente lhe compete, talvez pudesse ter evitado escândalos que mancharam a imagem interna e externa desses serviços. E de Portugal, por tabela - e sei do que falo, porque senti isso lá por fora.

Leio na imprensa de hoje que os partidos mais à esquerda não deixarão passar esta fusão. "Deus os guarde" nesta atitude que, como se sabe, desagrada a alguns seguidores do "grande arquiteto universal". E mais não digo, porque isto de secretas tem muito que se lhe diga. 

Cavaco


Aníbal Cavaco Silva anuncia um livro de memórias. A editora arranjou-lhe um título modernaço, que sugere as conversas semanais com os primeiros-ministros, tidas às quintas-feiras. Vou ler, claro, não porque espere grande coisa deste volume - a julgar pelo anterior - mas porque sou um incorrigível leitor das coisas políticas. Quero com isto dizer que, à parte os não-livros (coletâneas de discursos), leio dessa área quase tudo o que sai. Confesso mesmo que li as memórias de Américo Tomás... 

Este tipo de livros destina-se sempre a controlar o débito da História a respeito de quem ela trata. A menos que Cavaco Silva nos reserve alguma surpresa, não creio que este volume tenha condições de o salvar daquela que foi uma saída muito triste da política. E, curiosamente, tivesse tido ele outro comportamento como presidente (mas, nesse caso, talvez não se chamasse Aníbal Cavaco Silva) e o saldo poderia ter sido outro. Mas isso é uma longa conversa.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"One point up..."

Lembrei-me dele hoje, ao ler, na imprensa americana, um perfil de Trump. Nele se diz que, com convicção ou por mera posição tática, o novo presidente americano, naquela sua arrogância sem limites, quer estar sempre numa posição de força, nunca revelar a menor fraqueza.

Foi aí que me lembrei dele, desse amigo bizarro que tive (e que já morreu há muito). Um dia, vi-o chegar muito pálido e perguntei-lhe se se sentia bem. Não obstante ser por demais evidente que estava com problemas de saúde, disse-me: "Estou lindamente, sinto-me mesmo muito bem", caindo depois, numa evidente exaustão, sobre um sofá. Calei-me. A diferença de idades e a falta de confiança não me permitiam desmontar aquele teatro. 

Passaram uns tempos e os papéis inverteram-se. Eu estava com uma imensa dor de cabeça, talvez mesmo febril, e referi, em frente a ele, que me me sentia pessimamente. Com um sorriso, num argumentário que casava bem com a sua atitude anterior, ele então sentenciou: "Nunca diga isso! Nunca deixe transparecer perante outra pessoa que tem uma fragilidade, em especial de saúde. É que essa pessoa, muito provavelmente, sente-se normal, está sem padecimentos, o que imediatamente o inferioriza a si. Porque, ao pressentir que você tem um problema, ele sente-se logo superior. E nós, nas nossas relações humanas, temos de fazer um esforço para estar sempre acima dos outros". E concluiu com uma máxima em inglês que, embora profundamente pateta, nunca mais esqueci: "If you are not one point up, you are one point down". Este meu amigo, cujas "teorias" (e tinha outras) o não levaram muito longe na vida, nem sequer era má pessoa. 

Foi preciso viver a experiência de Trump para me lembrar desta máxima. É que há mesmo gente assim...

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Artur Barrio


Leio que a Artur Barrio foi atribuído o Grande Prémio Arte da Fundação EDP.

Logo nos primeiros dias da minha chegada a Brasília, em 2005, dei-me conta de que a embaixada, na chancelaria e na residência, dispunha de um acervo muito interessante de pintura e gravura, de autores contemporâneos portugueses, muito maior do que em qualquer outra nossa missão diplomática no mundo. E julgo que assim continua a ser.

Ao visitar, por esses tempos, algumas casas de portugueses residentes em Brasília, ou de brasileiros com ligações ao nosso país, constatei que por lá havia também muitas outras obras bem interessantes. 

Surgiu-me então uma ideia: e se organizássemos, na área de exposições da embaixada, uma mostra selecionada dessas obras? Lembrava-me de que, há muitos anos, em Maputo, o embaixador Paulouro das Neves tinha tido uma iniciativa similar, baseada nas obras na posse dos diplomatas da nossa embaixada. Ora, ali em Brasília, havia condições para fazer algo parecido, mas com muito maior dimensão e representatividade.

De há muitos anos que sou um adepto da "sopa-da-pedra", isto é, procurar organizar coisas sem ou com muito pouco dinheiro. O orçamento do Instituto Camões em Brasília era ínfimo e o que havia estava maioritariamente consignado. Havia, assim, que trabalhar "no osso". As obras seriam cedidas sem custos - e isso era já um bom ponto de partida. O nosso conselheiro cultural, Adriano Jordão, meteu mãos à obra. A diretora de uma importante galeria de arte de Brasília, Karla Osório, encarregou-se da curadoria e obtivemos, para as inevitáveis despesas de estrutura e para o excelente catálogo, da ajuda da Vivo, a operadora telefónica controlada pela então pujante PT (onde isso vai...).

Quando a Karla me trouxe a lista das obras selecionadas, deparei com o nome de Artur Barrio. Confessei-lhe - faço sempre gala de ser muito franco sobre aquilo que não sei - que nunca tinha visto nenhuma obra de Barrio, embora soubesse que ele tinha feito uma exposição em Serralves. Barrio, aprendi então, era um português que tinha ido viver para o Brasil com 10 anos. Esteve depois algum tempo em França, mas manteve sempre a nacionalidade portuguesa.

A escultura de Barrio que a Karla havia desencantado era, de facto, uma bela peça. E integrou as cerca de 70 obras com que, no dia 10 de junho de 2005, inaugurámos a exposição "Arte Portuguesa em Brasília".

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Lula e FHC


Ao ver, ontem, o abraço sentido que Fernando Henrique foi dar a Lula da Silva, por ocasião da morte da mulher deste, Marisa Letícia, não pude deixar de recordar uma ocasião similar, a que assisti, quando Ruth Cardoso faleceu. Impressionou-me então a emoção transmitida no encontro entre os dois, nessa noite de junho de 2008, na Sala S. Paulo.

Ruth Cardoso era uma figura excecional que eu havia tido o privilégio de conhecer e encontrar, por mais de uma vez, em Nova Iorque, por ocasião de reuniões do "executive board" do United Nations Fund for International Partnerships, de que ela fazia parte e cujo "advisory board" integrei durante dois anos, a convite de Kofi Annan. Era uma mulher respeitadíssima e a sua súbita desaparição foi um forte abalo para o marido.

Fernando Henrique Cardoso contou-me um dia que Ruth e ele haviam convidado Marisa e Lula a passarem com eles, creio que um fim de semana, na sua "chácara" perto de S. Paulo, semanas antes de Lula da Silva lhe suceder. "Eu gosto do Lula", disse-me Fernando Henrique, que estava convencido de que um sentimento idêntico existia por parte do novo presidente. Ao que me contou, Lula havia-lhe dito que, por todo o tempo em que permanecesse na presidência, ele teria "um amigo no Alvorada". E teria dito mais: que nunca se referiria negativamente sobre o passado. Nessa conversa, num almoço a dois para que o convidei, no "Carlota", em S. Paulo, creio que em 2006, Fernando Henrique Cardoso disse-me da desilusão que tinha tido com as constantes críticas que Lula passara a fazer ao seu período presidencial. Era verdade. Lula, para exaltar os feitos da sua presidência, passava o tempo a usar uma expressão que ficou nos anais políticos: "Nunca, antes, na História deste país..." "E o Lula sabe que o presidente tem essa queixa dele?", perguntei-lhe. "Claro que sim, mas não se emenda..." E riu-se. E foram muitas as vezes em que Fernando Henrique se viu obrigado a pôr os pontos nos "ii", em declarações ou artigos de imprensa, para refutar argumentos do seu sucessor. Sempre, diga-se, com firmeza nas também imensa elegância, que é o seu excecional timbre.

E Lula sabia. Um dia, numa conversa, referi-lhe isso. Lula "chutou" para o lado: "O Fernando, na realidade, sofre é com o facto dos seus amigos políticos não virem à praça defender a sua herança política". Mas não contestou as razōes de queixa do antigo presidente, de quem, no entanto, se dizia amigo: "Tenho grande estima por ele", ouvi-o dizer por mais de uma vez. Mas nem por isso deixava de criticá-lo, porque, nisto da política, vale quase tudo...

Quero com isto dizer que acho que no recente abraço entre Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso há uma sinceridade que passa muito para além das divergências políticas que, imagino, se devem ter agravado muito nos últimos anos. São dois homens que lutaram muito por um lugar na História do Brasil contemporâneo. A História, porém, ao que tudo indica, não os deve vir a tratar da mesma forma.