sábado, 9 de setembro de 2017

Factor de primeira


Há dias, entrei numa estação de caminho de ferro de uma cidade de província, daquelas onde o comboio passa "quando o rei faz anos". Não se via vivalma. Fui andando pela plataforma até encontrar uma porta aberta. Estava um tipo lá dentro, de t-shirt e jeans, a quem perguntei: "Sabe dizer-me onde posso encontrar o chefe da estação?". (Por razão que não vem ao caso, eu tinha necessidade de falar com o chefe da estação). O homem respondeu-me: "Sou eu". 

Ele deve ter percebido que eu estava à espera de "outra coisa". Claro que já não aguardava um cavalheiro de fato escuro, gola vermelha, com um pau de bandeira enrolado na mão (e apito pendurado do bolso). Mas esperava que fosse alguém vestido de forma identificável para aquele lugar. Mas, se calhar, as coisas hoje são mesmo assim.

O formalismo dos caminhos de ferro é lendário. Um chefe de estação, no passado, era uma figura com algum destaque nas localidades. E a hierarquia da carreira ferroviária era algo de relevante à escala nacional.

O meu pai costumava contar uma história da sua infância, passada em 1918 ou 1919 Perto da casa da minha avó, em Viana do Castelo, vivia um casal. O cavalheiro era funcionário dos caminhos de ferro. Tratava-se de um homem "grave", de fortes bigodaças, que se passeava com a esposa aos finais de tarde, em passo pausado, pelas ruas da cidade. O meu pai ouvira dizer que o homem o homem era "Factor de primeira", um lugar da hierarquia ferroviária. E a designação do cargo impressionava-o. 

Um dia, numa conversa lá por casa, veio à baila uma figura importante da cidade, o governador civil. O seu poder terá sido mencionado, em contraste com o de outro cargo qualquer. O miúdo de oito ou nove anos que era o meu pai, colocou então à minha avó uma questão que, para sempre, ficou para o anedotário sentimental da família: "Um Governador civil manda mais ou menos que um Factor de primeira?"

6 comentários:

Anónimo disse...

A proposito da t-shirt e dos jeans

Em França nao é assim. Alias em Espanha também não. Desde o atavio dos funcionarios, aos funcionarios fora de serviço com um comportamento completamente taberneiro (nao devem saber o que significa Exemplo), até aos gestores que rodam entre as emefes, as referes e afins, tudo é magnifico na CP. Leia-se alias a missao a que se propuseram

"Ser a melhor empresa de serviços de transporte, orientada para o Cliente e amiga das pessoas e do ambiente, capaz de satisfazer as expectativas de qualidade e de segurança dos seus Clientes, pautando a sua atuação por critérios e objetivos de eficácia e de competitividade."

...

obrigado pela simpatica historieta

Isabel Seixas disse...

É curioso o impacto que determina uma farda ou um hábito, sem dúvida há algo de diferenciador,
e há um determinante incontestável, a acessibilidade de saber de quem é quem e de quem faz o quê...

Anónimo disse...

Ainda recentemente, no Minho, reparei que, embora nem um só comboio andasse a horas, os funcionários eram praticamente todos simpáticos e claramente identificáveis pelo "uniforme".

Mas há quem goste logo de generalizar. Quanto mais não seja para imediatamente dizer que lá fora é melhor.

Anónimo disse...



E não devemos esquecer que, em matemática, a ordem dos factores é arbitrária...

Anónimo disse...

Caro anonimo das 11:39

desde que pelos idos de 2011 ou assim, vi um revisor da CP, realmente bêbado, com o emblema do Benfica, numa noite de campeonato encarnado ( e a equipa pouco conta), deixei de ter paciência.

Generalizar é o que acontece quando se é um grupo. O comportamento de um so funcionario poe em causa o de todos, como em qualquer equipa. Mas infelizmente vexa parece interessado em calar a critica que em melhorar os erros. Mas ha de facto um problema com o comportamento taberneiro por parte de funcionarios da CP, que nao me lembro de ter visto nunca em funcionarios da Renfe, da SNCF, ou da DB. Basta ver como os funcionarios da Renfe olham em geral para os nossos.
(Este tipo de comportamento esta alias presente mais umas quantas profissoes portuguesas, infelizmente. E é um dos sintomas de muitas outras coisas)

Quanto a dizer que é melhor la fora, sugiro a vexa que passe umas férias em frança e vexa como sao tratados os clientes quando ha um atraso, um problema, etc. Que veja os preços das viagens, dos passes, etc. Que veja a qualidade e conforto dos comboios, etc.

Eu geralmente aprendo com os que sao melhores, vejo que vexa tem alguma dificuldade com isso...



Anónimo disse...

O relogio da imagem é uma preciosidade. Pelo menos historica.

http://www.la-croix.com/Culture/Expositions/A-decouverte-horloges-Gare-Lyon-2016-02-04-1200737577
http://cl.lz.over-blog.com/article-paul-garnier-l-horloger-biographie-85819740.html

Seguramente a CP ja os deve ter valorizado...