segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Açoreana


Ontem, numa vilória dos Açores, senti qualquer coisa de íntimo ao olhar esta placa de companhia de seguros. É que a "Açoreana" diz alguma coisa à minha juventude.

Em Viana do Castelo, no início dos anos 60 do século passado, tinha um tio que era correspondente da "Açoreana". No seu escritório de solicitador encartado, entre outras atividades, fazia-se, nos primeiros dias do mês, a coleta dos pagamentos desses seguros. 

Havia para tal um funcionário que, atrás de um balcão, recolhia o dinheiro e emitia os recibos. Era o "Pêssego", nome posto pelo meu tio e por que ficou conhecido na intimidade jocosa da família, dado que era oriundo da localidade de Pessegueiro, na margem esquerda da Ribeira Lima.

O "Pêssego" era, ao que me lembro, um "senhorito" aperaltado, com uma "gravitas" um tanto irritante, para os seus 18 ou 19 anos. Nunca engraçámos muito um com o outro, mas imagino que algumas culpas possam ter cabido à minha atitude pouco respeitadora do seu esforço para se mostrar precocemente "grave". É que o "Pêssego" falava de forma pausada, afetada mesmo. Mas era muito bem tratado: ao final da sua função diária, ao bater das cinco e meia, subia para a casa da nossa família e tomava um valente lanche preparado pela nossa tia Zé. Sobre se o "Pêssego" mantinha ou não uma paixão secreta pela minha bela prima, filha do seu patrão, a doutrina da memória familiar continua a dividir-se.

Um dia, soube-se que o "Pêssego" adoeceu. Foi coisa sem gravidade e por pouco tempo. Eu estava ali por Viana no meu mês de férias, tinha 13 ou 14 anos, e ao ver o impasse criado pela súbita ausência do empregado, disse da minha disponibilidade para o substituir durante as tardes, nessa "magna" tarefa. Recordo-me da leve hesitação do meu tio em atribuir-me o encargo. Mas, para minha surpresa, talvez para testar o meu sentido juvenil de responsabilidade, lá me foi passada a tarefa de recolher o dinheiro da "Açoreana" e entregar os recibos recebidos da companhia. Ainda hoje lembro o "peso" com que aceitei a tarefa - porque implicava dinheiro vivo e isso era coisa séria - e o zelo com que, por esses escassos dias, me dediquei à função, no escritório do meu tio. Nunca soube se o "Pêssego" apreciou a valorosa substituição.

Há pouco, ao olhar a placa na imagem, senti que a "Açoreana" ainda hoje pode dizer de mim a clássica expressão da senhora Thatcher quando designava um amigo político mais fiel: "He is one of us"! 

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