sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A vizinhança coreana


Em 2003, fui a Seul, a convite da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), co-presidir e intervir numa conferência sobre a possibilidade das chamadas “medidas geradoras de confiança e segurança”, um conceito muito em voga desde a “détente”, virem a ser aplicadas às tensões político-militares que, desde os anos 50, afetam a península coreana.

Logo no primeiro dia, fui convidado para almoçar por um amigo que era assessor diplomático do presidente da Coreia do Sul. Tínhamo-nos conhecido em Nova Iorque, quando ele era chefe de gabinete do presidente da Assembleia Geral da ONU e eu dirigia a respetiva Comissão de Economia e Finanças. Chama-se Ban Ki Moon e foi depois o secretário-geral da ONU que antecedeu António Guterres.

Eu estava longe de ser um especialista naquela área geopolítica, pelo que a interessante conversa com Ban Ki Moon, além de muitas outras coisas, teve a virtualidade de me alertar para a importância de uma realidade que nem sempre é tida em devida conta no conflito coreano: as posições da República da Coreia e dos Estados Unidos não devem ser dadas necessariamente como homólogas. Há fortes divergências táticas e o facto de Seul contar com os EUA como “escudo protetor” face a Pyongyang não garante uma atitude comum nos passos a dar face ao Norte.

Vivia-se, por essa época, o tempo, para alguns esperançoso, dos chamados “Six-Party talks”, um processo de diálogo político envolvendo as duas Coreias, os EUA, a China, a Rússia e o Japão. O futuro viria a revelar que o processo não iria ter qualquer sucesso. 

Ao observar a pressão que a América exerce hoje sobre a China, não pude deixar de lembrar-me também daquilo que um dia, numa outra conferência, dessa vez em Tóquio, ouvi ao presidente de um poderoso “think tank” chinês. Dizia-me ele que o Ocidente era “demasiado simpático” ao considerar que Pequim tinha um forte poder de influência sobre a Coreia do Norte: “A nossa capacidade de influência acaba onde o orgulho dos nossos vizinhos pode ficar ferido. A partir daí é ingerência e isso tem um preço”. É claro que esta não é toda a verdade: a China detestaria ver a peninsula sob um regime hostil e na esfera americana.

Para tornar tudo mais complexo, há também que contar que o Japão não tem as posições americanas face à Coreia do Norte como sacrossantas. Tóquio sabe, da História, que é trágico ficar preso a uma estratégia alheia na relação com a sua periferia. É a única certeza é que os vizinhos estarão sempre nos caminhos do seu futuro.

A Coreia do Norte sabe tudo isto. E sabe bem o que quer: ser um poder nuclear, ter essa arma que equipara, pelo terror que infunde, quem a possui. Não quer ter o destino do Irão, que, por ora, ficou na soleira do poder nuclear. Quer passar a ter acesso a esse “patamar” estratégico (onde estão Israel, a Índia ou o Paquistão), por forma obter um argumento negocial definitivo.

16 comentários:

Anónimo disse...

Falta sal. Eu gostava era de saber a sua opinião sobre o comuna-mor e a sua acusação de que a culpa do que se passa é dos EUA. E do facto de ter emendado parcialmente a mão no dia seguinte.

Anónimo disse...

8 de setembro de 2017 às 09:01, Qual é a relevância para o mundo e o país do ponto de vista do PCP acerca de meia-dúzia de países? Qual é a relevância disso para a leitura que o embaixador fez? Fala-se do mundo, e vem esta mentalidade de capoeira de quintalinho de remediado de província.

Depois, dá a impressão que PSD, PS e CDS-PP nunca receberam nem visitaram fraternalmente o mais variado tipo de ditadores e tiranos. Dá a impressão que foram esses partidos que nunca tiveram quaisquer responsabilidades na condução da política externa do país. Dá a impressão que nunca nenhum internamente acobertou ou deu respaldo institucional a violações dos direitos humanos.

Por fim, vê-se que o anónimo é outra das cabeças brilhantes, grandes cérebros da nossa era, que conseguem deduzir um apoio do PCP à Coreia do Norte neste discurso? https://otempodascerejas2.blogspot.pt/2017/09/coisas-de-facebook.html

E a expressão emendar a mão é bem curiosa, dado que o discurso da Festa não dizia o que dizem que diz, por mais espremido que seja. Mas nem perante o que dizem que Jerónimo disse (uma caricatura) a posição do dia seguinte seria um emendar de mão parcial.É bastante claro.

Quando é para perceber a Soeiro Pereira Gomes parecem muitos velhos Kremlinólogos, uma gente que parece saída das personagens de Enviado Especial de Evelyn Waugh. Imaginativos, mas com teorias pouco coladas aos factos. E até bem pouco coladas aos factos do PCP em Portugal. O livro recente do jornalista Miguel Carvalho acerca do ano em que Portugal ardeu explica muita coisa. Mais uma Leyenda Negra.

Anónimo disse...

O texto tem apenas um senão.

Quando o embaixador diz que a Coreia do Norte "não quer ter o destino do Irão",devia antes dizer que a Coreia do Norte não quer ter o destino do Iraque.

Alguns europeístas nacionais insistem em ignorar que um bom motivo para o lunatismo nuclear de Kim é Kim não querer que lhe aconteça o mesmo que a Saddam Hussein e a Khadaffi, cujas tendas chegaram a estar montadas no forte de São Julião da Barra.

Joaquim de Freitas disse...

Os norte-coreanos registaram nos anos 50 a experiência da Jugoslávia, do Iraque e da Líbia, foram completamente destruídos, e chegaram à conclusão de que uma pequena nação que confia apenas em armas convencionais não tem chance de impedir o ataque dos Estados Unidos
A Coreia do Norte diz que o seu programa nuclear “é uma medida legítima e justa de autodefesa, para proteger a soberania e o direito à existência” da nação.
Para os Estados Unidos, é um princípio fundamental da sua política externa ter a possibilidade de atacar qualquer nação à sua escolha e que nenhum país possa ter meios de se defender.
Se a Coreia do Norte conseguir estabelecer um dissuasor nuclear efectivo, então isso poderia ter sérias implicações geopolíticas para a política dos EUA, já que outras nações -alvo podem seguir o exemplo da Coreia do Norte para garantir a sua sobrevivência.

O Senhor Embaixador escreve: - “É claro que esta não é toda a verdade: a China detestaria ver a península sob um regime hostil e na esfera americana.”
E o contrario não seria também verdade? Isto é os EUA não detestariam ver a Coreia unificada na esfera chinesa?
A Coréia era parte do Japão e com a derrota deste, foi divida administrativamente pelo paralelo 38º, ao norte comunista pela URSS, ao sul capitalista pelos EU.

A Historia não perdoa aos Americanos. Desde 1972, uma primeira declaraçao coreana comum fala duma “reunificaçao” possivel.
Em 21 de Setembro 1991, aqs duas Coreias inregram oficialmente a ONU. Três meses mais tarde assinam um “accordo de reconciiliaçao, de não agressao, de trocas e de cooperaçao”.Mesmo se nao era jà a paz, era, pelo menos o fim do estado de guerra.
Os dirigentes coreanos do norte querem regularisar a situaçao com os EUA, tanto mais que a ajuda dos Soviéticos se tinha evaporado.
Em 1992, Kim Il-sung , pai do presidente actual, envia o seu próprio secretário à sede da ONU para encontrar secretamente um emissário americano.
A mensagem coreana é:- Renunciamos a exigir a retirada das tropas americanas da Coreia do Sul, e em contrapartida vocês garantem que não põem em causa a existência do nosso país”.
George Bush pai, respondeu à mensagem pelo silêncio. A partir deste momento, Kim IL Sung lançou a sua politica nuclear, convencido que Washington queria riscar do mapa a RPDC. O que não era certamente falso, conhecendo um pouco os americanos…
Na realidade, os americanos e os lacaios do Sul estavam convencidos que o regime coreano ia cair, como a Alemanha de Leste. Depois veio o embargo.
As privações foram grandes: um milhão de mortos, com sequelas que ainda existem hoje. Mas a repressão e os reflexos nacionalistas impediram a queda.
A legenda diz que foi Chung Ju-yung, fundador da Hyunday, um dos poderosos chaebol (conglomerado) sul coreano que atravessou a fronteira à cabeça do rebanho de 1000 vacas, símbolo da ajuda humanitária, antes de encontrar o presidente norte coreano. Foi o início da Sunshine Policy”.
Trabalhei bastante com Coreanos. Não existe uma aversão profunda entre eles, como aquela que suscitam os americanos.

Anónimo disse...

Ó "8 de setembro de 2017 às 10:25", passamos a vida aqui a debater as capelinhase não se pode debater a do PC?

Anónimo disse...

E fique sabendo "8 de setembro de 2017 às 10:25", que eu estava - ao vivo! -, a ouvir todo o discurso o Jerónimo (dele e dos que o ouviam)

Anónimo disse...

"os americanos e os lacaios do Sul" - caramba que quase imagino o homem em apoteose vermelha por entre rapariguinhas de olhos em bico cantando hinos à paz e mísseis desfilando cobertos de flores!

Joaquim de Freitas disse...

Anonimo das 16:37 : Creio que precisa de ler a Historia da Coreia para compreender o que foram os primeiros governos sul coreanos, às ordens do governo militar americano. Quando se governa sob a protecção de militares estrangeiros, não existe outro nome para aqueles que colaboram.

A Coreia do Sul continua sob ocupação americana, enquanto que os Russos e os Chineses se retiraram há meio século da Coreia do Norte.

Esta ocupação só é possível graças a esses lacaios que citei.

Certos políticos americanos como Pat Buchanan questionam a razão desta permanência militar americana na Coreia do Sul.

Anónimo disse...

Um norte-coreano que cá viesse assistir à nossa campanha "autárquica" ficaria convencido de que Portugal está transformado num conjunto de Cidades-Estado-Socialistas.

Cada Estado acha que pode ser mais socialista que os outros:

AlMe*dina quer taxar o ar que se respira em Lisbogrado.

O Comitern da Guardinova pretende criar "rublos" próprios.

Coimbrado e Leirigrado, reclamam plataformas lança misseis para defesa do povo.

Assim a gloriosa Republica Socialista de Portugal, irá desonrar a memória do nosso adorado farol do passado: o comandante Barreirinhas

Anónimo disse...

8 de setembro de 2017 às 14:26,

Deixe lá, que não está sozinho. Anda aí muito mais gente que não percebe o que ouve, nem entende o que lê. Chama-se iliteracia funcional, salvo erro.

Anónimo disse...

Ó 8 de setembro de 2017 às 14:25, Julgo que sim.

O Embaixador Seixas da Costa tem sido suficientemente democrático para nos deixar a caixa de comentários aberta por maior que seja a distância daquilo de que falou no postado e por maiores que sejam os disparates.

Mas também me parece algo esdrúxulo querer convencê-lo a falar das políticas do sector de relações institucionais do PCP num artigo de opinião sobre geopolítica escrito para o Jornal de Notícias. Eu faria o pedido de outro modo.

Algo do estilo. Senhor Embaixador, Agora que lemos no JN o seu ponto de vista acerca de uma questão geopolítica será que na próxima semana poderia escrever antes acerca da opinião que o PCP [comuna-mor é capaz de ser um bocado excessivo se se quiser que nos levem os pedidos a sério, digo eu] tem sobre o papel dos EUA na situação coreana? Muto gostaria de o ver perorar sobre isso no Jornal de Notícias.

Anónimo disse...

@Anónimo 8 de setembro de 2017 às 14:26

Voce e realmente prodigioso, fenomenal nao so ouviu todo o discurso do Jeronimo como tambem ouviu o discurso dos que o ouviam. Anda a ouvir muitas vozes... trate-se


@Anónim 8 de setembro de 2017 às 16:37

Sim claro...pois entao... se veem os eua a espalhar bombas com as sementes da democracia e direitos humanos por este mundo fora ja a tantas decadas porque razao nao hao-de querer contribuir ?

Anónimo disse...

Isto para um não-politizado como eu só posso dizer: "No comments".

[Mas até parece um exorcismo do antigamente para salvar o último baluarte de uma utopia]

Retornado disse...

Com os americanos fizeram-se duas europas, Leste e Ocidente, com os américas fizeram-se duas coreias, norte e sul, com o Vietnam ia sendo o do norte e o do sul.

E com Angola ia sendo a mesma coisa se o Salazar tem feito a vontade ao Kennedy com o apoio aos turras da Upa, e depois com a guerra do Cuito ao lado da Unita.

Os américas não têm habilidade nenhuma, estúpidos!

A única coisa que conseguiram, foi empatar com os os soviéticos.

Raios os partam!

Anónimo disse...

@Retornado 8 de setembro de 2017 às 23:52

Excelente comentario o seu e bem lembrada a organização terrorista de nome Upa.

Ao contrario dos pseudo-nao-politizados como o freguez anonimo de 8 de setembro de 2017 às 22:37 que tenta passar por entre os pingos da chuva, mas nao passa de um lambe botas que tao depressa é eua como rapidamente se alistara no partido comunista chines quando for conveniente, tal como o seu querido lider pedro oassos coelho vendeu a edp e a ren aos comunistas chineses aos terroristas arabes e aos do mpla angolano.
E a esse tipo de gente a quem a naçao Portuguesa esteve entregue nos ultimos anos

Anónimo disse...

Parece que ainda ninguém falou da longa rivalidade entre a Coreia e o Japão. É até uma questão racial e é importante para se conhecer a História daquela região.