domingo, 13 de agosto de 2017

O embaixador "marchista"


A medalha de ouro ganha esta manhã por Inês Henriques, no campeonato do mundo de atletismo, nos 50 km marcha, trouxe-me à memória um embaixador muito peculiar. 

Esse embaixador tinha chegado, uma semana antes, a um determinado posto, uma cidade muito fria da Europa. Nessa manhã, havia pedido ao seu único colaborador diplomático uma indicação sobre o melhor restaurante da cidade, para o qual o convidou para almoçar.

Foram de carro. Quando o restaurante estava já à vista, do outro lado de uma imensa praça, o jovem diplomata informou: "O restaurante é naquele edifício lá ao fundo!". Foi então que o seu novo chefe, inopinadamente, deu ordem ao motorista para parar o carro.

"Será que o homem quer ir a pé?", disse, de si para si, o diplomata. Estavam alguns graus negativos, bastante vento, o caminho tinha muita neve e, na realidade, não havia nenhuma justificação para que a viatura os não deixasse, confortavelmente, à porta do restaurante. É que seriam quase 500 metros! Porquê ficar àquela distância? Atendendo, porém, ao facto do seu recém-chegado chefe estar a ser pródigo, nesses primeiros dias, em atitudes algo bizarras, o nosso jovem não reagiu. 

"Vamos a pé!", comandou o embaixador, levantando a gola e arrancando, sob o vento e a neve, para o distante hotel. O colaborador seguiu-o, naturalmente. A passada do embaixador não era, contudo, normal: começou a acelerar imenso, assumindo um ritmo e até uma atitude física idêntica ao dos corredores da marcha no atletismo.

O jovem diplomata ainda o procurou acompanhar por uma dezena de metros mas, a certo ponto - o que é demais é erro! -, desistiu, decidiu ir ao seu próprio ritmo, sem seguir aquela passada sem sentido, cansativa, desnecessária, despropositada. Quando, por fim, chegou à porta do restaurante, o embaixador esperava-o, há quase um minuto, com um sorriso leve. Nada disse, e foram almoçar.

Passou um ano. Numa conversa, a propósito de qualquer coisa, o embaixador perguntou: "Lembra-se, quando eu cheguei, de um dia ter acelerado muito o passo, numa ida a um restaurante, tendo você ficado para trás?". Claro que o secretário se lembrava desse episódio, nunca tento tido a ousadia de o referir. 

"Você marcou pontos nessa ocasião", disse o embaixador. "É que aquilo foi um teste. Eu tinha acabado de chegar, não o conhecia bem. Tomei essa atitude para o experimentar. Se você me tivesse seguido, no ritmo exagerado de passada que eu utilizei, isso significava que você era uma pessoa fraca. Como não me acompanhou, mantendo o seu próprio ritmo, percebi que você tinha personalidade e vontade própria. Passou no teste".

As pequenas embaixadas, como aquela era, são microcosmos onde se potenciam as idiossincrasias, onde vêm ao de cima traços insuspeitados de caráter. São "caixas de Pandora" da personalidade de cada um. E onde até se descobrem embaixadores "marchistas"...

1 comentário:

Anónimo disse...

Cabrita Matias?