sábado, 5 de agosto de 2017

Fernando Reino


O meu primeiro embaixador, quando no final dos anos 70 fui colocado em posto na Noruega, foi Fernando Reino. No Ministério dos Negócios Estrangeiros desse tempo, o transmontano Fernando Reino fazia parte de um escasso grupo de diplomatas europeístas (coisa que, à época, eu estava muito longe de ser). Culto, inteligente e cheio de iniciativa, era claramente um "highflyer", como o futuro haveria de confirmar, em postos com a importância de Madrid ou da ONU. Democrata assumido, foi um dos rostos mais proeminentes da geração diplomática que viria a fazer a transição dos regimes separados pelo dia 25 de abril de 1974.

Eu só conhecia Fernando Reino pela sua fama profissional. Por pouco nos não cruzámos na Comissão Nacional de Descolonização, de onde ele saíra antes de eu ser por lá ter sido colocado. Mas sabia que era um "workoolic" impenitente, que tinha transformado um posto periférico como era a capital norueguesa numa "agitada" unidade diplomática, bastante visível em Lisboa. 

Verdade seja que, por esse tempo, entre Portugal e a Noruega havia fortes programas bilaterais de cooperação. Fruto da simpatia dos trabalhistas noruegueses pela Revolução portuguesa, os governos daquele país tinham, entre muitas outras iniciativas para favorecer o nosso país, dado forte ajuda à instalação habitacional dos "retornados", haviam oferecido um navio hidrográfico a Portugal e vieram a ser responsáveis pela criação no novo hospital da minha terra, Vila Real (mas nada tive a ver com isso, que fique muito claro). A embaixada em Oslo vivia então um "corropio" de agitação, numa certa "competição" com a embaixada norueguesa em Lisboa, a qual, com alguma naturalidade, procurava ser protagonista dos programas de cooperação. Essa tensão criativa passou a fazer parte do meu quotidiano.

A fragilidade de quem ia para primeiro posto, somada à impulsividade de Fernando Reino, conduziu-me, inicialmente, a uma dependência inusitada face ao meu futuro embaixador: à chegada a Oslo eu já tinha casa destinada e até um berrante Golf encarnado estava já à minha espera. Esta "tutela" era fruto de um simpático e generoso sentido protetor, de que custou a libertar-me...

Trabalhar com Fernando Reino não era fácil. Numa embaixada (chancelaria na imagem) tão pequena como aquela - éramos os dois únicos diplomatas, com cinco unidades administrativas -, o seu "génio" tornava frequentemente os dias um tanto tensos. Olhando em perspetiva, posso compreender que um profissional da sua qualidade se sentisse frustrado por estar a operar num posto que, decididamente, não estava ao nível das suas capacidades e legítimas ambições. Só que quem com ele colaborava era, não raramente, uma "colateral casualty" desse seu evidente mal-estar. E eu, claro, na primeira linha. Alguns conflitos tivémos, mas nenhum que tivesse afetado a amizade que entre nós se estabeleceu e a profunda admiração, pessoal e profissional, que por ele passei a ter.

Fernando Reino ficou menos de um ano na Noruega, depois da minha chegada a Oslo. Viria a ser convidado a ser chefe da casa civil do presidente Ramalho Eanes. Os nossos destinos nunca mais se voltaram a encontrar profissionalmente. Mais recentemente, por iniciativa de amigos comuns, temos-nos visto em simpáticas almoçaradas.

No dia de hoje, Fernando Reino completa 88 anos. Deixo aqui um forte abraço de parabéns, com votos de muita saúde, a um amigo que foi o meu primeiro embaixador.

9 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Conheci Fernando Reino em Madrid por razões que me eram alheias. Achei-o uma pessoa encantadora e de uma gentileza enorme. Dá gosto recordar diplomatas assim!

Anónimo disse...

O que sempre ouvi e de fontes diversas, foi que era na carreira, um homem muito dificil a todos os níveis, sejam eles de trabalho ou de convivência.
Cada um pode ter a sua opinião no entanto.

Retornado disse...

Querem ver que até a noruegueses tenho que ficar eternamente grato?

Mas como se nem conheço tal gente?

Nunca tão poucos 500 mil (?)retornados ficaram a dever tanto a tanta gente.

Mas que estirpe a minha!

Mas a quem é que eu pedi socorro para outros ir por mim pedir «esmola»?

E eu a julgar-me vítima, incompreendido, quando afinal toda a gente ficou com pena de mim!

Rui C. Marques disse...

Foi o meu primeiro chefe nas Necessidades e tenho por ele uma simpatia grata.

Anónimo disse...

@Retornado

Ninguem lhe pediu gratidao, deve ter algum tipo de defice de compreensão.

Partiu para Angola ou Mocambique ou Guine em busca de riqueza e de uma vida melhor , é legitimo mas quando se vai para um pais colonizado em que os nativos nao gostam da colonização ja se deveria saber que a coisa pode correr mal.
O 2o ponto é que voçe me parece daquela especie de Portugueses que ate queriam a independencia (independencia branca) desses paises africanos mas foram os militares da metropele que la os foram ajudar, muitos morreram, outros ficaram mutilados e mais ainda traumatizados, mas disso a sua especie se esquece.

Bem me lembro de ouvir familiares meus retornados dizerem que haveriam de por os Portugueses a trabalhar como os pretos.

Para terminar nao conheço vossa excelencia mas aposto um tomate em como voce e seguidor do querido lider pregador de Massama

Retornado disse...

Os noruegueses gostavam mais de mim do que este "maria vai com as outras" das 23:22

Portugalredecouvertes disse...


"entre Portugal e a Noruega havia fortes programas bilaterais de cooperação. "

espero que a cooperação entre os 2 países não tenha desaparecido !
bom domingo
Angela

Anónimo disse...


Concordo com o escrito (abaixo) e acrescento:

"Anónimo Anónimo disse... 5 de agosto de 2017 às 23:22"
@Retornado

O mau de Portugal e dos portugueses que não foram para as colónias, não foi o regresso dos idos... .Foi a sua chegada ao PODER.

Bernardo B.


Anónimo disse...

Bertolucci?