terça-feira, 8 de agosto de 2017

Diplomacia do croquete


Naqueles tempos dos anos 80, de guerra civil em Angola, era muito difícil encontrar produtos alimentares. Os vegetais iam aparecendo nas "quitandeiras" dos mercados, algum peixe conseguia-se junto dos pescadores da ilha, mas o mais difícil era a carne. Nas idas a Portugal, traziamo-la em caixas frigoríficas, a espaços o frango ia aparecendo na chamada "loja diplomática", algumas vezes conseguimos importar alguns quilos do Zimbabwe. Mas para o quotidiano, isso continuava a ser insuficiente.

Um dia, um dos contínuos da embaixada, o simpático e avantajado Bia, surpreendeu-me com uma pergunta: "O senhor doutor quer comprar uma vaca?" Explicou-me que tinha um primo que tinha vacas e que estava disposto a vender-nos uma. "Viva?", perguntei. Sim, viva, mas o vendedor poderia mandar cortar o animal em grandes peças. Além disso, aceitava receber em Kuanzas, a moeda local.

Esta questão da moeda não era indiferente. Por esse tempo, surgiam-nos algumas propostas, de angolanos e portugueses residentes, para aquisição de produtos alimentares. A sua liquidação, no entanto, deveria ser feita em contas no estrangeiro ou por troca com whisky, que só os funcionários da embaixada tinham facilidade em importar. Cair nessa "esparrela" seria infringir a lei local, num tempo muito delicado nas relações bilaterais.

Lá se fez o negócio e, uma tarde, fui com o meu Golf a uma determinada casa na zona da Corimba, a sul de Luanda, buscar as peças da vaca. Olhando hoje para trás, puno-me pela inconsciência do gesto: que carne era aquela? Em que condições sanitárias estava? Mas isso deve-me ter parecido despiciendo, nesse tempo de escassez.

Para poder cortar as peças de carne, era necessário recorrer a um talho. Mas, se em Luanda não havia carne à venda, onde diabo poderíamos encontrar um talho? Descobriu-se que um funcionário do consulado tinha sido talhante e ele facilitou-nos um espaço. Um amigo português, com experiência no "ramo", prontificou-se para a operação de corte. E lá fui eu levar as peças pelas traseiras de um antigo talho. 

Só que, quando as peças começaram a ser transportadas, do meu carro para o interior do talho, a miudagem dos apartamentos da vizinhança, convencida de que se tratava de um fornecimento normal, dasatou numa gritaria ("Há carne! Há carne!") que trouxe uma multidão para as imediações do talho. Vi-me em dificuldades em concluir a "operação" e sair dali...

Ao final da tarde, em convenientes pedaços, a carne chegou-nos a casa. Era péssima! Rija e nervosa, criou-se mesmo, nos amigos com quem a partilhámos, o dito de que era carne "importada" e que essa famosa vaca, para ser tão "musculada", devia ter vindo a pé desde o Zaire... Por meses, houve lá por casa tantos croquetes em jantares que, finalmente, fizémos juz prático ao conceito da "diplomacia do croquete"'!

4 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Sabia que a diplomacia podia levar a muitas coisas, mas de lá a pensar que um diplomata podia transformar-se num “especulador” como os “especialistas” do mercado negro em França, durante a guerra…. Não pude deixar de pensar em Bourvil e Jean Gabin no filme “ La Traversée de Paris”…quando transportavam “la bidoche” de l’abbatage clandestin… para os clientes! Senhor Embaixador!!!!

Que “sinécure” ….

Anónimo disse...

O Freitas vê um "especulador" onde apenas havia um grupo de pessoas a tentarem escapar à fome imposta por um regime de comunas. Fome essa que continua, muito depois do fim da guerra (que o Freitas imediatamente mencionaria como forma de culpar os americanos pelas aventuras do embaixador).

Curiosamente, os mesmos comunas continuam no poder, agora convertidos em capitalistas selvagens e nunca deixando de contar com o apoio dos "nossos" comunas. Ironias...

Joaquim de Freitas disse...

Ho homem : você vê o mal onde há uma tentativa de fazer um pouco de humor. O humor é relativo a uma atitude benevolente que realça o grotesco de um comportamento, que as circunstâncias por vezes impôem. Compreendê--lo supoe uma certa inteligência. Aparentemente não é o seu caso. Mas tenho a certeza que o Senhor Embaixador, conhece o filme ao qual me referi. Jean Gabin, um gentleman, que vive circunstâncias grotescas numa sociedade instàvel e mesmo perigosa.Que você não o compreenda é normal.

Mas lançou, como de costume, o seu anatema contra os comunas de cà e de là, que vê por toda a parte, como o sei idolo Trump, neste momento, o que é também normal para alguém , como você, cuja cultura não vai além dos filmes de cowboys, onde são sempre os mesmos que ganham, dos hamburgers, dos saloons, dos gangsters, e dos sonhos de Holywood.

Mas olhe que os “parceiros” de negocios dos “comunas” que cita ,” agora convertidos em capitalistas selvagens” como escreve, são os seus amigos capitalistas portugueses, quando leio a lista dos seus investimentos: em Portugal, a partir de 2008, nas , telecomunicações, nos médias, no comércio e na industria da energia.
E nos bancos: -

19/05/2014 - La femme la plus riche d'Afrique va monter à 50% au capital de la banque portugaise Banco BIC
03/03/2015 - Isabel dos Santos veut fusionner les banques portugaises Banco BPI et Millenium BCP
Por isso me faz sorrir a sua frase , cito:- “nunca deixando de contar com o apoio dos "nossos" comunas””
São ricos os comunas portugueses, corajoso anónimo habitual. IRONIAS….

Anónimo disse...

Ricos tempos para a esquerda caviar dos "amigos do PREC os novos colonialistas, responsáveis pelos retornados.....o inferno será o seu fim....!