segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Dez anos depois

Passam hoje dez anos sobre a data do falecimento do meu pai. Quis estar em Vila Real neste dia. Sinto uma imensa serenidade ao lembrar a morte, aos 97 anos, de um homem que teve um casamento muito feliz, de mais de meio século, uma carreira profissional plenamente realizada, uma vida quase sem maleitas, em que fez grandes amigos sem criar um único inimigo, em que viajou por quase todos os lugares que quis conhecer, sem grande fortuna mas também sem problemas financeiros. Quantos me leem, pela presença frequente do meu pai em histórias que por aqui conto, já devem ter percebido a importância que ele teve na minha vida, uma vida em que tantas vezes discutimos sem nos zangarmos, em que confrontámos temperamentos que eram muito diferentes. Às vezes, ao citá-lo tanto, temo estar a cometer uma grande injustiça para com a memória da minha mãe, que desapareceu uns anos antes dele, a quem devo muito do que sou como pessoa, nos valores e até na atitude perante a vida, que muito mais se aproximava da minha. Este não é, contudo, um post nostálgico: não tenho ilusões, tenho plena consciência de que os meus pais não poderiam estar hoje comigo, em condições de eu os poder fruir. Pode parecer estranho, mas é uma grande alegria o sentimento que hoje sinto por ter tido o privilégio, como seu filho único que fui, de os ter tido como pais e de poder recordá-los assim, de uma forma serena e feliz. Para sempre.

8 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Lindíssimo texto, Francisco.
Muito do que somos vem da educação que os nossos pais nos deram. Quanto mais velhos ficamos, mais nos lembramos disso.
Oxalá todos os filhos fossem capazes desse reconhecimento tranquilo. Diria algo semelhante relativamente aos meus pais.
E ainda tive a sorte de ter como padrasto alguém que nunca tendo querido substituir o nosso Pai foi o meu melhor amigo. Há pessoas que passam na vida dos outros para lhes dar mais sentido. Foi o meu caso e o dos meus irmãos!

Francisco Seixas da Costa disse...

Muito obrigado, Helena. Um beijo para si

Maria Mercês Moreira disse...

Gostei muito do seu texto

Rui C. Marques disse...

Caríssimo Francisco,posso subscrever este lindo texto? Um grande e forte abraço.

Joaquim de Freitas disse...

Sim,sim, é a nostalgia desses tempos que nos permite de "rever" em permanência esses seres únicos , elo imortal que nos liga à eternidade.

Ana Vasconcelos disse...

É um texto muito bonito. Se o meu filho se vier a lembrar dos seus pais assim, sentir-me-ia muito feliz.

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

É maravilhoso celebrar a vida daqueles que nos "ensinaram" a ser Humanos em pleno - só o somos quando há condições para abandonarmos a omnipotência e interiorizarmos a reciprocidade e a feliz imperfeição, resumindo, quando há amor.
A serenidade que o Sr. Embaixador transmite é aquela que traduz a harmonia das relações e não tenho a mínima dúvida de que cada palavra desta bela homenangem está subordinada à mais pura Verdade.

Anónimo disse...


Cada um nasceu e passou a sua infância gerido por uma família que o vai marcar para o resto da vida.

A revista "Philosophie Magazine" de Junho de 2017 publicou um "dossier" com o título "Quelle part d'enfance gardons-nous". [Desculpe lá oh leitor que reclamou das linguas estrangeiras que se leem aqui.]

Recomendo a quem souber ler e queira saber um pouco mais sobre este assunto fracturante.

Porque isto de se abordar a família e a sua influência no meio de maxista-leninistas pode sempre resultar em continuar na mesma.
Desculpem mais uma precisão da minha parte mas ainda estou de "férias grandes".