terça-feira, 29 de agosto de 2017

De Angola à contracosta política


O antigo primeiro-ministro angolano, Marcolino Moco, não gostou de declarações que proferi sobre Angola e disse-o numa entrevista a "O Sol", em que cita o que eu referi à Lusa, à TSF e ao Jornal de Notícias.

Eu havia notado, à Lusa e TSF, que não me parece correto procurar comparar Angola com modelos políticos europeus ou latino-americanos, dado que o país deve ser avaliado à luz do resto de África. Repetindo o argumento ao JN, fui de opinião que o regime angolano não deve ser posto em paralelo crítico com sólidas democracias existentes noutras geografias, como a Noruega ou a Suíça, mas que, posto lado-a-lado com outros regimes africanos, como a Guiné-Equatorial ou a República Centro-Africana, é uma evidência que a Angola atual compara positivamente.

Marcelino Moco entende que o que eu escrevi me coloca "a falar sempre a favor do regime angolano" e que isso são "bitolas para baixo", tratando os angolanos como "seres inferiores" que "têm de se contentar com qualquer coisa".

Estamos aqui perante perspetivas diferentes. 

Desde logo, eu discordo de Marcolino Moco quando ele fala de "seres inferiores" a propósito de comparar Angola com outros Estados africanos. Há aqui, parece-me, alguma sobranceria assumida face a vizinhos, que não são "qualquer coisa", atitude que não fica bem a alguém que já teve fortes responsabilidades em Angola.

Além disso, eu entendo, errado ou certo, que o regime angolano, saído há 15 anos de uma sangrenta guerra civil, que se sucedeu a uma das mais traumáticas transições coloniais de toda a África, fez uma evolução importante, desde o regime de partido único de inspiração marxista-leninista para um modelo democrático, seguramente ainda muito imperfeito, mas que representa, em si mesmo, um indiscutível avanço. 

Sem ironias, esse foi um "salto" similar ao que o próprio Marcelino Moco efetuou, desde os tempos em que foi primeiro-ministro dessa República Popular de Angola. Recordo-me de como defendia então um regime assumidamente totalitário, tendo evoluído até às posições democráticas em que hoje se revê, que legitimamente assume e que o coloca em oposição aos seus antigos camaradas de ideologia. E os Estados, como Marcolino Moco deve reconhecer, são como as pessoas.

Angola é, goste-se ou não, um regime politicamente em transição, como há muitos pelo mundo - um regime que partiu do totalitarismo para uma abertura democrática. A única questão é saber se essa abertura se fez ou está a fazer de modo correto e a um ritmo razoável, ou se há uma excessiva lentidão e deficiências graves nesse processo. 

Podemos discutir isso, mas, repito, é insensato tentar aplicar a Angola uma matriz de exigência como a que se aplicaria a sólidas democracias, com muitas décadas de cultura democrática. Mais: nem só é insensato pedir isso, como é uma óbvia realidade que Angola está, infelizmente, ainda longe desses países com essa solidez democrática.

Esta minha constatação não absolve ninguém em Angola, ao contrário do que Marcelino Moco e alguns "futungólugos" lusitanos parecem julgar. É que, gostem eles ou não, ainda há em Portugal vozes independentes a olhar para a situação política angolana, que não são nem seguidistas do regime nem estão conquistados pela bondade das oposições.

17 comentários:

Anónimo disse...

Sr. Embaixador
Acha mesmo que o seu artigo sobre Angola é imparcial? Pensa realmente que o regime politico, que pelo menos vigorou até agora, é uma democracia? Francamente, não acredito.
Cumprimentos

Francisco Seixas da Costa disse...

O comentador das 2:11 leu bem o que eu escrevi?

Anónimo disse...

O proprietário do blogue já devia estar habituado a que parte dos comentadores só leia as gordas. A sua caixa de comentários é tão elucidativa.

Anónimo disse...

Este “ser” português, (eu diria insensatez), de tudo criticar com uma argumentação elaborada, apontando “teorias” mais que “exatas” para a resolução dos assuntos de outros, sem se importar com os seus próprios fundilhos rotos, deve ser, para quem nos observa, e conhece, uma surrealidade hilariante!

Por exemplo, em teorias para corrigir a corrupção, tachos, favores e falta de democracia (governo do e para o Povo), realmente somos “catedráticos”!

Anónimo disse...

Ou muito me engano, ou o filósofo de Grenoble já deve de estar a alinhar 350 linhas para lhe provar que é tudo culpa dos EUA.

Anónimo disse...

Ora daqui pode nascer uma boa polémica.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

A matriz do regime angolano é inteligente: é democrática até ao ponto em que a democracia não ponha em causa o regime (como se viu no caso Luaty)...

Há quem se contente com isto (género: "para quem é bacalhau basta") e é contra esta postura que, julgo, Moco (tardiamente e porque se viu arredado do poder) se insurge.

A exigência em política é um dever e a tolerância uma cumplicidade.

coalvorecer disse...

Caro Sr. Embaixador, Francisco Seixas da Costa
Exprimo aqui o meu sentimento de gratidão, pela sua dádiva de todos os dias em partilhar connosco um pouco do muito conhecimento que adquiriu ao longo de uma vida digna e sábia. Bem-Haja!

Não poderia estar mais de acordo com o que aqui escreve, em resposta à crítica sobre o que escreveu sobre Angola. Uma visão lúcida.

Abraço.



Isaura disse...

É óbvio que não se pode exigir a Angola instituições democráticas tão sólidas como as da Suécia ou Inglaterra. Mas ainda assim é possível comparar com outros países a
fricanos: cabo Verde; Namibia;Zambia...

Anónimo disse...

Comparar a "democracia" imperfeita, de Angola com a de Cabo Verde não dá para acreditar. Só para quem vive noutro planeta.

Anónimo disse...

..."que se sucedeu a uma das mais traumáticas transições coloniais de toda a África"...

De quem foi a culpa, sabe muito bem de quem:

Comunistas, PCP; MDP/CDE; MFA estalinista e os eternos surfistas das políticas, betinhos provincianos de esquerda sem mundo, olhando para o respectivo umbigo...não há pachorra para tanta nulidade e do mal que fizeram a Portugal e Angola !

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das 19:29: se não fossem esses "traidores", Angola ainda era nossa, Portugal era do Minho a Timor e lá íamos "cantando e rindo", não era? Já agora: o Tarrafal mantinha-se, não?

Anónimo disse...

"Olhe que não", não tape o sol com a peneira !!!!

Joaquim de Freitas disse...

As "democracias" africanas existem segundo os moldes dos colonizadores, que formaram as suas "elites" , nas suas universidades, e procuraram conservar os laços que preservam os seus interesses económicos. A guerra civil de Angola mais não foi que a prova que quando altos interesses das grandes potências entram em jogo, os povos são as vitimas e não contam. No caso de Angola, o antigo colonizador não tinha o "peso" necessário para fazer inclinar a balança para o seu lado. Limitou-se a um "salve-se quem puder" e a carregar as malas nos barcos ...Os franceses não puderam fazer melhor na Argélia, e os Belgas , se fizeram melhor foi porque puseram no poder, muito a tempo, um Tshombé, que tomou contava realmente do que tinha valor, o Katanga, ao preço do assassinato de Lumumba. Mobutu, um obscuro sargento, consolidou os interesses das grandes potências . Dos Santos gera bem os seus interesses . Os "amigos" visitam-no quando existe um problema, como Sarkozy e Holande. A "democracia em curso " em Angola satisfaz melhor os "mestres" que a democracia participativa de Maduro, ou a da Bolívia.

Joaquim de Freitas disse...

O anónimo das 19:19 não sabe que apos a conferência de Bandung o sonho do Portugal maior acabou, como acabou para os outros países colonialistas. Mas talvez sonhasse duma transição género Congo ou Iraque, que como se sabe foi exemplar e democrática.

Anónimo disse...

Para o sabe-tudo das 10:39, a BD de Milo Manara, explica a história da humanidade...o resto são trocos....para "intelectuais"....

Retornado disse...

A democracia em Angola funciona sim.

Os grandes objectivos e "sonhos" dos angolanos mais lúcidos e mais destribalizados estão todos a ser atingidos.

Claro que essas minorias , mais lúcidos e destribalizados está em maioria no MPLA, que é o caso paradigmático de José Eduardo dos Santos.
Uma das provas em que a democracia funciona é a votação no partido tribalista que despoletou o terrorismo/independentista wm 1961, a FNLA/UPA com apenas 1%.

Outra prova que a democracia e sonhos dessa minoria lúcida funcionam é que sempre imaginaram que um dia iam mandar e ensinar a Metrópole, (pois há gente muito atrazada a governar "o rectângulo") pensava e dizia e diz essa minoria.

Cumprimentos