sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Agora, Angola


A propósito de um artigo no “The New York Times”, que há dias sublinhava o facto de capitais angolanos serem hoje muito relevantes na economia portuguesa, vi por aí algumas indignações, de sentidos opostos: dos que entendiam ser tão legítimo como qualquer outro esse investimento, independentemente da origem do capital, e de quantos se escandalizavam com a condicionalidade e a dependência que esses influxos financeiros estariam a provocar na livre vontade de Portugal. 

De há muito que o tema Angola faz parte da política interna portuguesa. De um lado, estão os hagiógrafos lusos do regime angolano, os defensores da exemplaridade absoluta do modelo politico dominante nas últimas quatro décadas, os que, no final, jurarão que estas eleições em Angola, foram, como diria o outro, “tão livres como na livre Inglaterra”. Do outro, estão os tremendistas, os viúvos de Savimbi (esse conhecido “farol” da democracia), os acusadores dos desmandos da corrupção, do patrimonialismo, os que, ainda as urnas não tinham aberto, já denunciavam a falsidade do sufrágio que aí vinha.

Somos um país que, por virtude da sua constante fragilidade económica e consequente dependência externa, tem sempre uma parte importante de si e dos seus presa ao exterior. Isso faz com que Angola, com a naturalidade de comportamento de qualquer poder financeiro, tenha encontrado por cá ajudantes à representação dos respetivos interesses. No outro lado do espetro, se já não temos “pieds noirs”, temos no entanto por aí uma massa residual de enraivecidos da descolonização, com um tropismo anti-angolano que lhes embota a racionalidade. E, claro, também temos alguns neo-colonialistas de esquerda, sempre prontos a dar lições. 

Angola é um país com uma democracia mais do que imperfeita, se comparada com a Suíça ou a Noruega, mas é um “benchmark” político, se pensarmos na Guiné-Equatorial ou na República Centro-Africana. Por lá, os “maus” estão no poder e os “bons” na oposição? Essa visão maniqueísta pode sossegar consciências mas não ajuda a resolver os problemas, tanto mais que embate na realidade dos equilíbrios politicos de facto. Estar sempre a tentar colocar o Rossio no seio da Mutamba, a levantar o dedo para “ensinar” política, é um gesto revelador, à esquerda e à direita, de que Portugal ainda tem de fazer um longo caminho para se “descolonizar”.

Esperemos que, depois destas eleições, possamos vir a encontrar um novo, mais sereno e mais maduro terreno para um diálogo político entre Angola e Portugal, que respeite as instituições e salvaguarde os interesses legítimos, de parte a parte, tentando colocar as acrimónias do passado recente entre parêntesis. Já se perdeu demasiado tempo nas relações entre Portugal e Angola.

(Artigo publicado hoje no "Jornal de Notícias")

3 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador : Não me recordo do nome desse livro que li há muito tempo, sobre Plutarco; que dizia: “

“Concebo a politica como um poço sem fundo no qual aqueles que ai se lançam por acaso e sem calculo são importunados e se arrependem, enquanto que aqueles que lá descem , tendo-se preparado e após reflexão, passo a passo, conduzem os negócios com ponderação e não se irritam de nada, porque no fundo é o seu próprio bem e nada de outro que consideram como fim das suas acções”.

Se nos inscrevemos neste pensamento de Plutarco, existem duas categorias de indivíduos que governam as repúblicas :- dum lado os incapazes, isto é aqueles que vêm para o poder por acaso, sem convicção e que são a maioria, (em França chamam-se os “maquignons”), e aqueles que fazem da politica a sua “vocação”, o seu “métier” no sentido de Max Weber, isto é os profissionais que vivem da politica, e para a politica.

Hoje é evidente que na África, os indivíduos que se consagram ao poder visam exclusivamente os seus interesses. Não são todos Mandela! Os assuntos do Estado são transformados em negócios de corrupção: - os desvios do dinheiro do Estado, a res publica transforma-se na res publica duma minoria, isto é a república daqueles que estão no poder. (E talvez aqui possamos extrapolar a certas republicas europeias!).
Dito doutra maneira, a politica não é um negócio de toda a gente, mas o negócio daqueles que governam. O que dá como resultado que há sempre luta entre a oposição e aqueles que usurparam o Estado e as suas riquezas.

E na África, é claro que estar na oposição é morrer politicamente, isto é, não poder mais beneficiar dos privilégios do poder.
Este sentimento não está longe de ser o mesmo por cá, entre os nossos políticos.

A actividade politica sendo uma luta permanente, o homem politico no poder dá-se sempre os meios de o conservar, mesmo se deve violar frequentemente a Constituição, ou modificá-la, com a ajuda das milícias ou das forças armadas, cujos chefes também fazem parte da festa.

Quando o Senhor Embaixador escreve:- “Angola é um país com uma democracia mais do que imperfeita, se comparada com a Suíça ou a Noruega, mas é um “benchmark” político, se pensarmos na Guiné-Equatorial ou na República Centro-Africana. Por lá, os “maus” estão no poder e os “bons” na oposição?”

Na África, a existência quotidiana é difícil para as populações. Cada dia que Deus faz, as pessoas lutam para sobreviver por todos os meios, por vias honestas ou desonestas (corrupção e criminalidade). Como em tais condições, um indivíduo que tem fome, pode interiorizar as ideias de democracia? A sua miséria e a sua pobreza não vêm dos deuses, mas daqueles que governam o Estado.

Cuidado que, ao abandonar uma parte da população na miséria, o Estado não deixe um espaço demasiado aos religiosos (ou os barbudos) que são psicologicamente e materialmente os seus apoios.
Mais grave nos países do Sahel, eu sei, mas o mal pode desbordar.

Luís Lavoura disse...

um artigo no “The New York Times”, que há dias sublinhava o facto de capitais angolanos serem hoje muito relevantes na economia portuguesa

1) O artigo do New York Times vem algo atrasado, os capitais angolanos já foram bem mais importantes, creio eu, do que são hoje. O New York Times deveria antes falar dos capitais chineses, cuja importância está a crescer (a dos angolanos está a decrescer) e que, o que é muito interessante, são acolhidos com muito menor suspeição e precaução em Portugal do que nos EUA e do que noutros países europeus.

2) Os capitais angolanos só são importantes na estrutura financeira das empresas portuguesas, não propriamente na economia.

Anónimo disse...

Ora aqui temos lenha para a fogueira do preconceito.

Um país miserável (esqueçam lá os recursos - o que interessa é como é que o povo vive), que tem mais anos de guerra do que de paz, em cuja capital as pessoas são obrigadas a lavar os mortos na rua, onde tudo falta, onde o crime é galopante, onde a corrupção é a regra. Este país tem sido "governado" por um partido de comunas - antes pró-soviéticos, hoje pró-qualquer coisa que dê dinheiro -, apoiado - claro -, pelo nosso PCP e seus lacaios e, o que faz a população quando pode votar? Vota nos mesmos criminosos de sempre.

Eu até me rio porque, por cá, o argumento dos comunas é que as pessoas queixam-se mas votam sempre nos mesmos. E estamos a falar de um país civilizado do primeiro mundo. Em Angola, parece que a história do "quanto mais me bates" é válida.

Tenho aqui um tipo ao lado a dizer que "os pretos são assim". Sinto-me incapaz de lhe dar réplica, confesso.