domingo, 27 de agosto de 2017

A pasta "vermelha"


Na realidade, a pasta não era vermelha. Era preta, de couro fraco. Mas, no fundo, era "vermelha". Eu já explico.

Há escassas horas, ao sair de um jantar no Gerês, passei em frente ao edifício da GNR e veio-me à memória um episódio por ali ocorrido, há cerca de três décadas.

Estava de férias na região. Numa manhã, fazia o percurso de carro do Gerês para Vilar da Veiga quando, à minha frente, na estrada, vi caída uma pasta. Ainda pensei tratar-se de um "truque" qualquer, mas não era nada disso. A pasta devia ter saltado de uma moto ou motorizada. Eu estava cheio de pressa, não me era possível retornar ao Gerês, onde sabia que havia um posto da GNR, mas achei que tinha obrigação de guardar a pasta. Logo que pude, telefonei à GNR do Gerês, disse estar de posse da pasta e informei que, daí a umas quatro ou cinco horas, depositaria por lá o objeto.

O guarda com quem falei perguntou-me se a pasta tinha alguma coisa, se havia nela algum nome que pudesse ser referenciado. Foi então que, pela primeira vez, a abri. Devo confessar que fiquei surpreendido. Eram documentos do Partido Comunista Português, com listas de nomes por localidade e alguns textos e documentos. Decididamente, eu devia ter encontrado a pasta de algum "controleiro" couminista da região. Não referi isso ao guarda, limitando-me a indicar o nome de uma pessoa que, num documento, me pareceu ser o do dono da pasta. E fui à minha vida.

Essa vida não se processou como eu esperava e fez com que, em lugar de quatro ou cinco horas, eu tivesse demorado quase o dobro do tempo que havia previsto para entregar a pasta no posto da GNR. Só o fiz já depois do jantar.

O que eu não esperava era o ambiente hostil que me aguardava. Quando compareci com a pasta, o guarda que me atendeu quase que me insultou: "Então o senhor não tem vergonha de só agora devolver a pasta! Esteve aí um homem horas à sua espera! A pasta tem documentação da mais alta importância! Isto não fica assim! Vou chamar o meu chefe e vá-se preparando para mostrar os seus documentos!" E, sem me dar tempo para reagir, saiu, disparado, para dentro, à cata do seu graduado. 

Que estranho! Que diabo de cumplicidade teriam os GNR com o "pc" descuidado? Eu, que estava convencido de que, qual escuteiro, estava a praticar "a minha boa ação do dia", que tinha perdido o meu tempo e andado quilómetros para entregar a pasta encontrada, ia agora passar a "réu" pelo meu atraso? Era o que mais faltava! 

Pensei meio segundo. Mal o guarda virou as costas, deixei a pasta sobre o balcão e zarpei para fora do edifício. Entrei no meu carro, onde tinha ficado, à minha espera um diplomata espanhol amigo. Disse: "Vamos embora já! Temos de nos apressar!" Olhei para trás e, à porta da GNR, afloravam já duas figuras fardadas, claramente no meu encalço. Quando, com o carro em aceleração rápida, sintetizei ao amigo espanhol o que me ocorrera no posto da GNR, e tendo ele já sabido vagamente do conteúdo da pasta, deu uma gargalhada e concluiu: "Hombre! La derecha portuguesa está vengada! Ahora vas a saber lo que es ser perseguido por los rojos!"

4 comentários:

Anónimo disse...

Esta mania que as pessoas têm de escrever frases em estrangeiro, confiando que todos são obrigados a entendê-las...

Anónimo disse...

@ Anónimo de 27 de Agosto 08:07

Mas... estamos num mundo globalizado ou estamos ainda para cá dos Pirinéus?

Anónimo disse...

oh anonimo das 8h da manha, deus lhe tenha a alma em descanso, que vexa parece atormentado!...

Cícero Catilinária disse...

A Porto Editora tem uns belos dicionários, e tal ...