domingo, 30 de julho de 2017

Marcelo, hoje

Marcelo Rebelo de Sousa é hoje entrevistado pelo DN.

Fazer uma exegese do texto é uma tentação natural: é sempre curioso interpretar Marcelo à luz do que vai dizendo, porque isso faz obviamente parte do "auto-retrato" que ele quer fixar de si próprio.

Com a sua experiência de constitucionalista, Marcelo está a desenhar, muito em função da conjuntura que lhe aconteceu, o esquiço daquilo que pretende vir a protagonizar, como modelo para o exercício do cargo presidencial. Porque também é professor, tende a teorizar bastante essa sua interpretação, procurando que ela componha um todo coerente que seja facilmente percetível pelo país. Ou, pelo menos, por quem faz a opinião no país.

Nota-se nesta entrevista uma específica preocupação (um tanto excessiva?) em fazer perceber o seu comportamento à família política de onde é originário, por forma a não deixar que a sua imagem no seu seio fique conquistada pelo rótulo de "traidor" que, de forma mais ou menos explícita, exsuda de algumas "opiniões" do "Observador" ou da bílis nas redes sociais. Isso é muito evidente no modo como aborda questões como os incêndios ou o roubo do material militar.

Em alguns temas, o presidente é mais "redondo", prudente, como é bem evidente na política externa. Noutras áreas, refugia-se no futuro, no resultado de apuramentos ou avaliações que vierem a ser feitos. Faz bem, porque isso o reforça institucionalmente e o liberta da pulsão interior que deverá ter para agir como o "professor Marcelo" dominical nas televisões.

Com tudo isto, Marcelo está a transformar-se. De certo modo, começa a atar as mãos a si próprio. A personagem institucional que está a construir, e que notoriamente quer fixar na História, é cada vez menos compatível com a figura irrequieta, com laivos de volúvel, que marcou muita da sua imagem ao longo de décadas. A confirmar-se esta evolução, isso é uma excelente notícia: perdemos um comentador genial mas o país pode vir a ganhar um estadista.

5 comentários:

Anónimo disse...

Gosto sobretudo do "pode vir a ser..."

Cícero Catilinária disse...

E se conseguisse ser um bocadinho menos Marselfie Rebelo de Sousa também não lhe ficava mal.

Anónimo disse...

Comentário que peca por tardio: há muito que o comentador se travestiu de estadista, para bem de todos nós.

JS disse...

Alguma evolução seria de esperar, nomeadamente em alguém -que se saiba- não pertence ao clube dos que nunca se enganam. (A não ser que Cristo já ande por aí, incógnito...).

Evolução para melhor, deseja-se. A modos que, mal comparado, evoluir de "cata-vento", útil mas errático, um instrumento sem precisão ... para manga de vento: útil, instrumento com maior precisão e mesmo imprescindível para tráfego (aéreo) local. Capaz de indicar a força do vento e, importante, de onde ele predominantemente sopra.

Anónimo disse...

É isso mesmo Embaixador.
Marcelo ficará na História como um estadista.

Mas mesmo em início de mandato já era claro que a sua leitura dos poderes presidenciais apontava para essa postura, o que em Portugal ninguém consegue dissociar do estilo Marcelo
( beijos e abraços, "selfies" e fotos comuns, sorrisos e risos porque, para os portugueses, um estadista que age em função do superior interesse nacional, tem de apresentar "cara de caso", postura rígida e semblante carregado.

Não, não é assim.

Os maiores estadistas de todos os tempos tinham, como é sabido, um enorme sentido de humor ( e recordo apenas Sir W. Churchill ), estadista notável, considerado o maior cidadão britânico de todos os tempos pelos seus concidadãos.