domingo, 16 de julho de 2017

Do ódio

Há momentos em que o ódio é legítimo? Há situações em que o sentimento de estarmos a ser atingidos, de forma arbitrária, nos leva a ser possuídos por uma imparável vontade de vingança. Toda a tolerância que ao longo de uma vida ensaiamos, com racionalidade, é, num segundo, ultrapassada por um estado de revolta profunda contra aquilo que nos rompe a linearidade da vida, o nosso bem-estar, que nos subverte os sonhos, tornados pesadelos. Sei que não devia, talvez, estar a partilhar aqui a intimidade de um sobressalto exclusivamente pessoal, de uma animosidade como aquela que me tomou, que violentou decisivamente a minha calma. Ontem, fora de Lisboa, na escuridão silenciosa de uma noite de verão, tomei uma atitude que hoje posso reconhecer ter tido o seu quê de violenta. Estou arrependido? Não estou. Quem por aqui me acompanha, creio que compreenderá. Sou uma pessoa pacífica, julgo que equilibrada, não extremista. Mas o que é demais, a partir de certo ponto, não se pode aceitar, a legítima defesa perante a agressão é, a meu ver, uma resposta adequada. Teve algo de sangrento? Teve. Acesa a luz, lá estava ela, expectante, quase provocatória, a melga. Na fúria, no ódio com que a esparramei na parede branca descobri uma outra face de mim. Foi bonito? Não, não foi. Mas se tivessem sido objeto por quase uma hora de mordidelas, eu queria vê-los no meu lugar!

15 comentários:

Cícero Catilinária disse...

Por uma vez, não posso estar de acordo consigo, caro embaixador.
Ele há lá coisa que nos dê mais gozo e alegria, que esparramar na parede uma malvada melga que nos atasana os ouvidos, nos morde e não nos deixa dormir e nos dá autênticos bailes quando a tentamos matar?
Qual fúria, qual ódio, quando nos deixa descansar e nos faz bem ao ego.

Anónimo disse...

Nunca vi uma melga com dentes.

patricio branco disse...

são vorazes, escolhem as melhores partes do corpo para chupar sangue, melhor para eles, pior para nós, são as zonas mais sensíveis e vulneráveis, a comichão instala-se, mas há os repelentes que se aplicam na pele, não é garantido 100% mas ajudam, e há as pomadas que acalmam a irritação, foram feitos progressos nesse campo da farmacologia.
pois um escritor francês publicou agora um livro que está a ser um êxito, géopolitique du moustique, fayard, pois diz muita coisa, mas diz também que o animal faz falta, muitos pássaros e peixes e rãs e repteis alimentam-se de mosquitos, que seria se os exterminássemos?
mas é bom conseguir caçar um, sim, vê-lo esmagado, a poça de sangue estampada, limpa-se bem se limpamos imediatamente a parede, aí ficamos tranquilos, podemos dormir, mas não, nunca vem um sozinho, há sempre outro, e a história recomeça...

Anónimo disse...

Se isso é assim com uma melga imagino com o seu Sporting!...

Cícero Catilinária disse...

"Nunca vi uma melga com dentes." A sério, caro anónimo?
E se for "um" melga com dentes?

avelino leite araujo disse...

Gostei. Remete-me para o "Poema Erótico do Carlos Drummond de Andrade"
Os meus cumprimentos

Anónimo disse...

Bem o escritor frances pode ter muita razao mas....

Imagine a cena: No seu quarto a bicharada toda. O batraquio come o mosquito. O passaro, se for um martinho pescador ou aparentado, come o peixe, a cobra engole o passaro e fica logo ali a lamber-se... uma festa, vai fazer a digestao- desliza que desliza para debaixo da cama. O Senhor Embaixador acorda do pesadelo, ve a melga esparramada na parede, pensa "Marca do Zorro" e dorme beatificamente ate de manha sonhando com as varias versoes da fita.

Bom Verao sem melgas

F.Crabtree

Anónimo disse...


Será o caso de se dizer quanto aos mosquitos: Ou eles ou nós.


Será este também o factor que determina as guerras, as revoluções etc etc. Ainda não sei.

O que há a fazer: Não frequentar locais infestados por mosquitaria, mesmo que estejam muito na moda.

Helena Sacadura Cabral disse...

Pois eu depois de uma picadela de melga ter virado um quisto que foi necessário operar e me levou 500€, foras dores que tive, confesso-lhe que as mato cheia de prazer. E borrifo-as de produtos que as tornam inertes, com idêntico gosto. Sou malvada, intolerante? Serei. Mas não me preocupa nada o facto. O que, sim, me preocupa é que me voltem a sugar o sangue e o dinheiro...

Isabel Seixas disse...

Credo que "biolência"...Tão tão boa que nos vinga e faz regozijar pelos motivos referidos...
Às vezes equaciono-me se as melgas sabem que são melgas, algumas acho que não, outras as sadomasoquistas sabem e adoram ser bipolares melgam nos dois polos.

Eu não sei se sou, mas consigo.

Anónimo disse...

De que cor era a melga? A que etnia pertencia? Qual era a sua orientação sexual? Gostava de melgos ou melgas? Sentia atração por melguinhas? Tapava as antenas? Veja lá no que se mete!

APS disse...

Para boa informação da Sra.(?) F. Crabtree, conviria esclarecer que, apesar de Drummond, Carlos Drummond de Andrade é um dos grandes poetas brasileiros do século XX.

Anónimo disse...

Eu nem mencionei Drumond. Referia-me apenas aos biologos...por 1 vez estou inocente.GOSTO de Drumond,acredite.

F. Crabtree

APS disse...

Em tempo:
o Drummond brasileiro - que o biólogo (?), não sei - tem 2 emes. Não convém apoucar-lhe o nome.

Manuel disse...

Esta história está muito mal contada. As melgas e os mosquitos não têm dentes, como tal não dão mordidelas. Ou não houve mordidelas ou alguém pagou pelo crime de outrém.