segunda-feira, 10 de julho de 2017

A Oeste nada de novo

Já tinha havido uns ensaios, mas o comportamento da personagem não ajudava. Dizer bem de Trump ainda era complicado, simplesmente porque ia contra o bom senso mais razoável. Aqui ou ali, em especial nas redes sociais, ia havendo alguns corajosos que se atreviam a notar que, afinal, o homem dissera qualquer coisa que tinham por sensata (ou, o que era mais vulgar, que exprimira alto aquilo que alguns pensavam baixo). Mas o pendor ciclotímico da figura, que consegue desdizer num tweet o que antes deixou entender numa daquelas frases com um vocabulário de dezenas de palavras, "traduzido" pressurosamente pelos exegetas criativos da Casa Branca, logo tirava o tapete aos prestimosos "trumpetistas" lusos. Que, por essa via, permaneciam órfãos. Mas atentos e veneradores. 

Trump leu agora, na Polónia, uma proclamação maniqueísta, do género da linguagem "nós ou eles" que, não há muito tempo, facilitou confrontações trágicas. Com um texto que está a anos-luz daquilo que ele alguma vez conseguiria articular por si próprio (mesmo os seus maiores fãs coincidem nisto), Trump provou saber ler o que lhe colocaram à frente. A nossa direita atlantista radical rejubilou. Um texto onde se nota o dedo do par de Steve (Miller e Bannon), com uns floreados estilísticos desenhados pelos "speechwriters" do ultra-conservadorismo americano. Um discurso formalmente escorreito, tanto quanto se pode chamar "escorreita" a uma peça proclamatória de nova Guerra Fria, num tempo em que o mundo decente julgava ter definitivamente ultrapassado essa fronteira. Trump, apanhado na ratoeira em que o seu anterior tropismo para uma acomodação com Putin o havia acantonado, foi claramente forçado pelo "establishment" republicano, fortemente anti-russo, a debitar um "mantra" jingoísta, de defesa do "ocidente", que agrada à "nova Europa", dando, de caminho, pasto discursivo à retórica confrontacional que tem vindo a tomar conta da NATO. 

Por cá, os atlantistas radicais de serviço, que são quase exatamente os mesmos que já haviam visto "armas de destruição maciça" no Iraque, cavalgaram esta preciosa oportunidade e já se disponibilizam a dar (finalmente!) um aval de confiança ao mais primário líder que a América algum dia produziu. E, claro, julgando ser isso um elogio, comparam-no a Ronald Reagan, essa espécie de "benchmark" da "direita intuitiva", que alguma "esquerda" que aí anda tende também a apreciar.

Estão assim abertas as inscrições para a "Associação de Amizade Portugal-Trump". A lista dos fundadores pode ser observada numa certa plataforma informática. Quase se pode dizer que "a Oeste nada de novo", ou melhor, que, neste Ocidente sem imaginação, é tudo tão velho como os trapos. Ou como a guerra.

11 comentários:

Anónimo disse...

Eu amigo de Trump não sou... mas de Clinton tão-pouco... não conhecera vexa alguma figura mais meritoria para motivar as hostes?

Joaquim de Freitas disse...

Exactamente, Senhor Embaixador.

Nos Estados Unidos, o « Morning Star » é um dos « talk-shows » matinais mais populares, que o Senhor certamente conhece, e recentemente Mika Brzezinski disse que Trump lhe confiou algo deste género:
“Se um dia houver uma corrida ao armamento, pois bem, que assim seja! Nós ultrapassaremos todos os nossos oponentes, e estaremos ainda cá quando eles tiverem desaparecido todos”.

E num dos seus “tweets” Trump declarou que desejava desenvolver as suas capacidades nucleares até “que o resto mundo acabe por ser razoável no que respeita este tipo de armas”.

Esta Mika Brzezinski é a filha do célebre Zbigniew Brzezinski, antigo conselheiro de Cárter, que tinha recebido em 1979 uma chamada telefónica terrível, na qual alguém o informava que a União Soviética tinha lançado mais de 2 000 mísseis nucleares em direcção dos EUA.

Os militares do NORAD informaram-no que tinham posto os Minutemen americanos em stand by , à espera da decisão do presidente.

Felizmente que se tratava dum bug informático digno de Hollywood e dum filme de fim do mundo.

Zbigniew Brzezinski tinha pensado acordar a esposa e a filha, mas finalmente deixou-as dormir, dizendo-se que era preferível que elas morressem durante o sono.
Imaginemos o mesmo “bug” com Trump no poder…
Como o Senhor Embaixador muito bem escreve, Trump tem os seus adeptos no mundo, como Hitler, no passado. E os políticos ocidentais, particularmente nos países de leste, que o apreciam, procuram retirar benefícios da sua politica, na confrontação com a Rússia.
Outros, como Macron, afim de assentar a sua imagem no mundo ocidental, pretende içar-se com a ajuda de Trump. E é a razão pela qual o convidou ao desfile do 14 de Julho nos Campos Elísios, sob o pretexto de homenagem à entrada dos USA na guerra de 14/18, há um século. Mas também é verdade que Sarkozy tinha convidado Bachar El Assad, Pai, e Hollande o Emir do Catar, financeiro do terrorismo internacional.

A hipocrisia internacional no seu melhor, com um desequilibrado no comando da maior potência mundial.

Joaquim de Freitas disse...

Gostaria de acrescentar estas palavras de Einstein : Não sei que armas serão utilizadas na Terceira Guerra Mundial, mas sei que para a Quarta, será com pedras e paus”.



JS disse...

Terá este "post" um tom razoavelmente diplomático ?.
Afinal Trump é o Presidente dos EUA.

Sim, não é político de carreira. Na prática isso explica tantos políticos de carreira contra ele. O que decidiamente lhe agrada. Mau seria ser ignorado. Difícil.

-O Acordo de Paris (clima) assinado em nome dos EUA pelo PR Obama "entre duas tacadas de golf" colocaria o País, agora de Trump, a cortar nas fontes de energia "baratas" e a China a continuar a utilizá-las durante (pelo menos) mais 13 anos.
Colocaria os contribuintes dos EUA a pagar o desenvolvimento de País africanos !...
O actual PR dos EUA, paciência, nem argumentou. Apenas resolutamente mudou de assunto. É que Obama assinava, de cruz, tudo que os seus mandantes lhe colocassem á frente. Trump é "o comandante do seu destino", tal como Mandela.

Claramente desfeitiada, a Chanceler da dita e penhorada União Europeia, D. Merkel -que aliás teve a mesma formação política pró-socialista (para ser moderado) de Obama- contava com a Clinton para a festa em Hamburgo. Azar. As Chancelarias, por essa União Europeia fora, continuarão a acertar o passo.
Merkel, pelo menos teve, o elegante mérito de destinguir entre um membro qualificado da comitiva dos EUA e a filha do PR.

-Quanto aos acordos comerciais, Trump não disse que não. Vão ser re-analizados. Óbvio.
-Putin ... gostou. Que remédio.
-May recebeu, de novo, um balão de oxigénio. Não será o último.
-Juncker, auto ungido Sr. Europa(!?), obviamente ignorado, mais uma vez.
-Resta Macron, que saltitou, saltitou, beijou ... mas aparentemente o desajeitado aperto de mão foi consumado e consumido. Vai tentar arrepiar caminho lá prós vindos do 14d'Julho. Boa sorte.

Julguemos Trump como os pudins e os vinhos. De preferência com uma prova cega.


Anónimo disse...



Já há alguns meses que tenho escrito que tudo a que estamos a assitir, seja em
Portugal ou naquilo que chamamos o Ocidente, é fruto de um corte epistemológico o qual comparado com o assalto ao Palácio de Inverno é muito msis grave.
O Palácio de Inverno ou mesmo a tomada da Bastilha, foram efectuados por uma "mob" descontrolada que se lançou para a frente sem estratégia alguma para apenas destruir símbolos, prevendo implantar uma "mobocracy".

O que se passa hoje é muito mais grave até porque se passa nas "nossas barbas" com "nuances" diferentes todos os dias e sem notarmos vão-nos fazendo as nossas cabeças neste caos que ninguém quer apontar para não assustar as hostes.
E assim passam-se os meses com as populações adormecidas ou mesmo em coma induzido e todas as questões se avolumam e quando a trovoada seca se der vai ser uma séca. Às vezes parece que se está em Portugal em 1973.
Ele é o Trumpas mais este e mais aquele, mais os Secretários de Estado metidos na "pildra" como se fossem criminosos de um dia para o outro....Acho que ainda tiveram tempo de pedirem a exoneração dos cargos.....
Isto não cheira a esturro?? E não são cheiros ainda de Pedrógão.

Eu sei que sou não-politizado e por isso não sei talvez descodificar a política pública a que temos assistido mas....

Anónimo disse...

@Joaquim de Freitas
Eu diria mais a pedras e crâneos de animais e de humanos porque as árvores e os paus vão ficar imutilizados.

Anónimo disse...

JS é obviamente lunático. Escreve que Obama teve uma educação pró-socialista, na linha dos mais instruídos red necks georgianos. E não se ri.

Conclui que a prova das qualidades de Trump está no prová-lo, que só depois se pode dizer mal. Este tempo todo e ainda acha cedo para tirar conclusões

Há gente assim. JS pode comer Trump às colheradas, até aos baldes, que o norte-americano e as suas políticas sempre lhe parecerão frescas e perfumadas.

Joaquim de Freitas disse...

Sim, sei que por esse vasto mundo existem muitos adeptos de Trump e da sua politica que não ousam dizê-lo. Mas compará-lo a Mandela….

Nos EUA é normal que a indústria da morte, próspera como nunca, o defenda. (Viram a bela “encomenda” de 300 000 milhões de dólares que o “aliado”, “amigo” e muito respeitável “democrata”( protegido pelos EUA e pelo Ocidente), da Arábia Saudita lhe deu aquando da sua recente visita?

E ficamos na espectativa. Resignados. Vemos bem chegar, esta guerra, e cada dia que passa nos aproxima mais. Trump não engana mais ninguém, ele é exactamente a imagem da América de guerra, imperialista desde o primeiro dia da sua criação. País do genocídio Ameríndio, das reservas (este goulag autóctone consanguíneo com os campos hitlerianos), da escravatura negra e das guerras longínquas e continuas. Trump comparado a Mandela …pelo anónimo das 15:25...

Os EUA são o III Reich racista, expansionista, uma variante do arianismo: - os protestantes brancos que reiteram a ordem do mundo evangelista submetido ao capitalismo explorador, oprimente e violento. Nada mais que o após Yalta e a continuidade do esclavagismo do resto do mundo.

Não, os EUA não vieram libertar a Europa, vieram simplesmente para bloquear os “Sovietes”, em Berlim.(Como, através da NATO, os bloqueiam agora na fronteira da Polónia, com os seus mísseis.)

Depois aplicaram-se a estender a sua dominação através da “democracia”: um pouco de Coca, um ar de “rock”, muitas telenovelas intermináveis e westerns a gogo… Disney tinha o seu papel e um objectivo: deixar vir a eles as crianças. Bambi, Branca de Neve e o complexo militaro-industrial.

Bombardeia-se em grande e em cor a Síria, ameaça-se a Coreia depois de ter conseguido pôr de lado a Rússia. Quase um século de anti comunismo e de anti sovietismo com os trajos da democracia multimilionária.
Mas o que é estes cegos vêm no céu?

Nos EUA é preciso crer num deus para obter um ticket de entrada – “In God We Trust”. Obrigatório!

Resultado? Uma base de credulidade e de irracionalidade para toda uma população. A religião basta para legitimar uma pessoa, mesmo se trata de evangelista ou de criacionista. O resultado? A possibilidade de eleger um louco perigoso ao cimo da nação.

Anónimo disse...

@Joaquim de Freitas


Felizmente que os americanos impediram os soviets de continuarem na sua caminhada pela Europa fora em 1945. Quem seríamos nós hoje se isso não tivesse sido feito.Ao observar a sociadade russa fora das cidades mais mediáticas podemos imaginar.

Desculpem-me mas sou anticomunista primário.

Quanto à América de hoje estamos todos no mesmo barco a ver se escapamos entre os pingos da chuva nuclear que se aproxima, esperando que alguém nos salve.
Os USA são muito dificeis de compreender por ser um país muito diversificado e onde se pode encontrar o muito bom e o muito mau. Tem de se saber em que Estado convém a cada um viver e optar constantemente ao longo da vida.Será isso a liberdade primária do ser humano?

Joaquim de Freitas disse...

Até é possível que o anónimo das 14 :43 tenha razão : quem sabe o que seriamos hoje se a Europa sonhada por De Gaulle,( que não era comunista, mas era uma homem visionário), de Brest a Vladivostok, ou pelo menos até ao Oural, se tivesse concretizado, no lugar daquela fabricada pelos Americanos – a que conhecemos hoje, nem construída nem por construir, na qual o espectro da guerra plana mais uma vez, e onde os interesses geo estratégicos e económicos da América acabam por pôr em perigo as nossas existências, através duma confrontação permanente nas portas da Rússia.

Não é comunista? E tem razão. O comunismo é uma utopia. Não existe nem nunca existiu. Por isso não posso falar de experiência comunista. Mas posso falar de uma experiência fascista, no que foi o meu país, que é o seu; onde vivi até aos 20 anos.

E se é apesar de tudo um anti comunista, “primário”, como escreve, pergunto como pode ser anti comunista se ele não existe… Mas pode crer que já há muito que optei por ser anti fascista, não primário, mas visceralmente anti fascista.

Não sei se lê francês. Leu o que se passou em Varsóvia a semana passada, aquando da visita de Trump?

La Pologne, assure la Maison Blanche, est un « fidèle allié Otan et un des plus proches amis de l’Amérique ». En effet elle est le fer de lance de la stratégie USA/Otan qui a entraîné l’Europe dans une nouvelle guerre froide contre la Russie. En Pologne, où a été transférée en janvier la 3ème Brigade blindée USA, est basé en fonction anti-Russie, sous commandement étasunien, un des quatre groupes de bataille Otan « à présence avancée renforcée ».
La Pologne a aussi le mérite d’être un des quatre pays européens de l’Otan qui ont réalisé l’objectif, requis par les USA en 2014, de dépenser pour le militaire plus de 2% du PIB. En compensation, annonce Varsovie, la Pologne ne contribuera pas au « Fonds pour la défense » lancé par l’Union européenne le 22 juin.
La Pologne du président Duda a ainsi aux yeux de Washington tous les papiers en règle pour assumer une autre charge importante, celle de lancer et conduire l’ « Initiative des trois mers », un nouveau projet qui réunit 12 pays compris en ter Baltique, Mer Noire et Adriatique : Pologne, Lituanie, Lettonie, Estonie, Hongrie, Tchéquie, Autriche, Bulgarie, Roumanie, Croatie, Slovaquie et Slovénie. Tous membres de l’Ue, raison pour quoi le président Duda définit l’Initiative comme « un nouveau concept pour promouvoir l’unité européenne ».
Mais ces pays sont en même temps, tous sauf l’Autriche, membres de l’Otan sous commandement USA, plus liés à Washington qu’à Bruxelles.
sécurité énergétique, en mettant en évidence notamment les premières expéditions de Lng (gaz naturel liquéfié) américain à la Pologne rapidement dans le mois qui vient ». Un terminal dans le port baltique de Swinoujscie, qui a coûté environ un milliard de dollars, permettra à la Pologne d’importer du Lng étasunien pour une quantité de l’ordre de 5 milliards de mètres cubes annuels, expansibles à 7,5.
Par ce terminal et quelques autres, dont un programmé en Croatie, le gaz provenant des USA, ou d’autres pays par l’intermédiaire de compagnies étasuniennes, sera distribué par des gazoducs ad hoc à toute la « région des Trois mers ».
L’objectif du plan est clair : frapper la Russie en faisant tomber son export de gaz en Europe (objectif réalisable seulement si l’export de gaz USA, plus cher que le russe, est stimulé par de fortes subventions d’état) ; lier encore plus aux USA l’Europe centrale et orientale non seulement militairement mais économiquement, dans une concurrence avec l’Allemagne et d’autres puissances européennes ; créer à l’intérieur de l’Europe une macro-région (celle des Trois mers) à souveraineté limitée, directement sous influence étasunienne, qui casserait de fait l’Union européenne et s’élargirait à l’Ukraine et au-delà.
La carte politique de l’Europe est sur le point de changer, mais la bannière étoilée y reste plantée.
Espero tenha compreendido até onde vai a « diversificaçao » dos USA

Anónimo disse...


@ Joaquim de Freitas

O Sr. tem as suas razões com certeza.

Não vi a fonte do texto mas gostei. É uma certa visão do mundo apenas.

Não sei se viveu em Portugal nos anos 75 a 82.

Durante esses anos vivi em Portugal, de uma forma tão dura que em 84 tornei-me emigrado [como se dizia no século XIX] até 1991 quando tive de regressar a este país.
A mudança de regime em 74, se até 75 foi uma festa, tornou-se um pesadelo com as presseguições aos supostos fascistas e tornou a vida dos comuns dos mortais num inferno. Ou se tinha uma linguagem marxista ou então era-se condenado como fascista. Ou tinha-se de procurar ter antecedentes de proletário, até à terceira geração, para se ter socego. Enfim... foram outros tempos..... mas marcaram a minha geração como os tempos antes de 1974 marcaram a sua.
Todo o ser humano é constituido pelos seus traumas e pelos seus sucessos e disso não poderemos escapar se não conseguirmos sublimar esses dois factores ao longo da nossa existência.

A sua visão do mundo não é a minha mas nem por isso o entendo como um adversário.

Hoje em dia já nada do que houve me preocupa e a dicotomia entre a Europa e os USA e hoje a Rússia, já não conta como anteriormente pois temos nesta altura muito mais em que pensar e entender para conseguirmos seguir em frente.

Com os meus respeitos