sexta-feira, 28 de julho de 2017

A América e nós


Um dia, em perspetiva, vai ser possível olharmos com alguma calma para o furacão que nos dias de hoje atravessa a América política, por virtude das consequências da eleição de Donald Trump. Espero que, evitada que tenha sido alguma tragédia, possamos divertir-nos com as histórias, então já conhecidas, dos bastidores dessa peça política que esteve em cena em Washington. Por ora, limitamo-nos a abrir as televisões ou os jornais com a garantia de um permanente “happening”, uma sucessão endémica de eventos que, por virtude do comportamento errático do homem mais poderoso do mundo, abalam as instituições do seu país, com efeitos colaterais nos restantes. E não sabemos onde e como parará.

É uma evidência que uma imensa perturbação afeta a América, pela existência deste inusitado presidente. A queda abissal da sua popularidade não é casual. Mas há algo importante que convém não esquecer. Os EUA podem estar internamente aturdidos com Trump, mas não vivem minimamente preocupados com a imagem que o seu presidente projeta no exterior, nos aliados ou no próprio imaginário popular à escala internacional. A América vive, essencialmente, para si própria e, podendo Trump ser um problema para o mundo, é apenas no quadro de um eventual embaraço que ele possa constituir para os americanos que o fenómeno pode ter alguma evolução. O “America first” não é um mote exclusivo de Trump, é uma expressão sentida como uma uma obviedade por todos os seus compatriotas.

Por isso, o modo como a Europa olha Trump, tal como os humores sobre ele dos líderes mundiais, é coisa completamente indiferente ao cidadão do Ohio ou da Califórnia, que apenas quer saber se a sua vida vai piorar ou melhorar por virtude das políticas do governo federal. Por isso, desiluda-se quem pense que o mundo tem alguma palavra a dizer no futuro da novela presidencial em curso.

Mas, pelo contrário, Trump tornou-se relevante para nós. Durante meses, entretivemo-nos a especular por que é que ele conseguiu ser eleito. Aprendemos alguma coisa com isso e olhámos com uma atenção mais especiosa para o Brexit, para o extremismo holandês ou francês, nas eleições seguintes, já à luz desse fenómeno. Trump ensinou-nos igualmente que o populismo pode manipular a verdade e sobreviver à sua margem, sem consequências de escândalo. Soubemos com ele que já ganhou foros de alguma legitimidade aquilo que põe em causa alguns referenciais de decência pública e da ética de relacionamento social. Também acordámos para o fim dos “adquiridos” do progresso global, como as questões ambientais ou o respeito pelas minorias ou culturas fora do “mainstream”. O racismo do proto-autarca de Loures é, no fundo, apenas uma forma saloia de trumpismo. Desprezível mas não desprezável para o ambiente político do nosso país.

2 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Mosul, Iraque "Nós matámo-los todos ", diz calmamente o soldado iraquiano
: homens, mulheres e crianças.

O que resta desta parte da velha cidade de Mosul, onde os islamistas travaram a sua última batalha, é um lugar terrível.

Centenas de corpos meio enterradas em alvenaria que desabou e os escombros do que uma vez foi um bairro histórico. O cheiro dos corpos em decomposição, o que acontece rapidamente com os 50 ° C de calor do verão, domina os sentidos.
Os pés são os restos que se vê primeiro. E são muitos, que passam através dos escombros.

'Aqui, a lei não existe, diz o Capitão. "Todos os dias, fazemos a mesma coisa que ISIS. As pessoas vão ao rio buscar água, porque morrem de sede, e matámo-los. »

Na semana passada, escavadoras blindadas rolaram, para a frente e para trás, durante horas, sobre os escombros das casas, comprimindo centenas de corpos nos escombros.
Mas os mortos não desaparecem. A cor castanha dos pedaços de corpos apodrecendo contrasta com a cinza pálido desta paisagem irregular de entulho, poeira e edifícios destruídos.
"Há um monte de civis entre os corpos," disse um comandante do exército "Após o anúncio a ordem de matar tudo o que mexe, a porte paira por todo o lado. Testemunhando, anonimamente, o comandante admitiu que as ordens não eram boas, mas os militares foram obrigados executá-las sem discussão.
"De facto detemos muito poucas pessoas".

Os corpos amontoam-se nas margens do rio Tigre. Alguns foram mortos por ataques aéreos, ou execuções, outros morreram de fome ou sede e foram trazidos para as margens do rio pela corrente, enquanto outros ainda estão flutuando nas águas azuis. Alguns dos corpos são muito pequenos. São crianças.

A maneira como as escavadoras rolaram sobre os escombros e corpos, indica claramente que as perdas reais, o massacre final do conflito em Mosul, nunca será conhecido. A velha cidade de Mossul, outrora elegante, é hoje um vasto cemitério, um monumento reduzido em migalhas por um dos conflitos mais terríveis do XXI0 século.

Permita, Senhor Embaixador, que dedique este texto ao Donald Trump, e através dele aos seus predecessores, e, finalmente, à América. Porque se a família Bush e os sucessores não tivessem feito o que fizeram, este drama não teria existido.

Bons métodos US antigos no tratamento das guerras assimétricas. Não existirá mais ninguém para contar realmente o que se passou e nao haveriam migrantes na Europa.

E a boa hipocrisia habitual, que esquece que aqueles que os US e o Ocidente combateram, foram armados por eles mesmos.

Fallujah, a cidade destruída e seus habitantes tratados ao fósforo branco...
E não falemos das Filipinas, o Vietname ou as guerras contra os Índios.

Finalmente, os soldados iraquianos, depois do que sofreram de Daesh, ninguém pode dizer o que outros teriam feito no seu lugar.

Mas o exército dos EUA e os seus líderes, na pesquisa das Armas de Destruição Maciça, desde 2002,que escondia a cupidez e o controlo da energia mundial, a venalidade crassa, são a imagem do mundo americano de Donald Trump, com a mesma brutalidade. E pensar que foram os valores da democracia que o Ocidente foi defender nas margens dos rios biblicos Tigre e Eufrates...

JS disse...

A America e nós. Os outros. É verdade.
Ouvimos calmamente a expressão "ROW" (Rest Of the World) em várias situações em que estavam presentes os donos da bola, os (Norte)-americanos, alguns europeus de vários Países, e alguns asiáticos também de diferentes origens.
Sorrimos, discretamente, claro. E tudo funcionou perfeitamente. Até porque é verdade.
...
Como muito bem sabemos por um lado Trump é o PR eleito -mal ou bem(?)- dos EUA. Como não é um político de carreira, óbviamente não se vai comportar como tal. Não é, não será mais do mesmo. O que e como será?. Veremos.

Complicado para o senso comum, Trump é um independente genuíno, políticamente um neófito empenhado em política, inicialmente apenas com um Acordo com o Partido Republicano. Por isso mesmo, herdou staff (do partido republicano) que, como se viu, manteve a sua fidelidade às cores de origem, torpedeando ridiculamente o "outsider". Eram os donos daquela bola.
...

Seis (6) meses decorridos e, enfim, com o General Kelly na Casa Branca, o Partido Republicano vai finalmente abandonar um posto para o qual não foi eleito de todo. O que esse partido fará com as suas maiorias, nas duas casas, será também interessante. Republican-care ?. :-)
Trump sorri.


A partir de agora será certamente mais límpido avaliar o desempenho do Presidente dos EUA, enquanto tal.

Claro que haverá quem continue a acreditar na CNN, no WashtPost, no NYtimes, e nos (maus) tradutores de esse material na RTP, na SIC e na TVI.