sexta-feira, 9 de junho de 2017

Os limites de Trump

Ontem, a democracia americana revelou a sua pujança: ver o antigo director do FBI testemunhar, em sessão pública, sobre as práticas de gestão de dossiês politicos altamente sensíveis por parte do presidente do país, ouvindo da sua boca que teve receio de que ele “mentisse”, não pode senão reforçar a confiança em que os famosos “checks and balances” ainda são, nos Estados Unidos, uma coisa séria.

Desde há uns meses, o mundo vive traumatizado com a figura que os americanos elegeram para chefiar o país, sendo poucas as dúvidas de que essa pessoa está muito longe de ter as qualificações exigíveis para o exercício das funções. O sistema americano deu mostras de ter “falhado” no escrutínio seletivo que as máquinas partidárias costumam empreender, a montante do voto popular. É claro que a América já tinha produzido figuras do jaez de um George W. Bush, ou, nas vice-presidências, Spiro Agnew ou Dan Quayle, mas Donald Trump parece oferecer a perspetiva de, por contraponto, os vir arvorar em “estadistas” na memória história futura.

O que ontem se passou não deverá ter consequências de maior, para além de acentuar o aumento do desgaste politico do presidente. Quem conhece a máquina política americana sabe que é imensa a legitimidade de quem consegue o acesso à Casa Branca, particularmente se tiver em relativa consonância um Congresso apressado em fazer passar uma agenda política de reversões. A menos que Trump venha a cruzar uma gravosa “red line”, as hipóteses de vir a ser afastado no meio do mandato continuam muito remotas.

Ficou ontem muito claro que o “dossiê Rússia” está em cima da mesa da política americana, embora por razões bem diferentes daquelas que existiam há escassos meses. Por essa altura, Trump havia dado estranhos sinais do seu interesse em trabalhar num apaziguamento com Moscovo, indiciando mesmo um conluio de contornos pouco claros com Putin. As versões mais benévolas inclinavam-se para isso fazer parte de uma estratégia de isolamento da China (vista como o inimigo comercial, face a uma Rússia economicamente sufocada). Moscovo poderia ser também um possível parceiro numa acomodação no Médio Oriente, de onde os Estados Unidos (desde George W. Bush e Obama, note-se) davam sinais de estar a recuar.

Ontem, olhando o tom dos congressistas sobre as interferências cibernéticas russas, fica clara a razão pela qual Donald Trump mudou já de agulha perante Moscovo: a acrimónia pré Guerra Fria continua bem enraizada nos EUA e desvalorizá-la foi um erro crasso (entre outros) do novo presidente. E o Congresso, por mais enviezado politicamente que esteja, como está, tem sempre uma dimensão de sentinela crítica que convém não desvalorizar. Ontem fui dormir mais descansado, confesso.

5 comentários:

Augie Cardoso, Plymouth, Conn. disse...

A verdade, a nao verdade e o contexto.
O presidente , como chefe do executivo unitario, pode a qualquer altura demitir o chefe do Fbi. James Comey. As praticas do departamento de JUSTICA nao aconslham. O pres. Donald Trump como ele disse, QUER ver a Russia e Putin evaporate da cena politica e a sua base atras dele. A cassa as BRUXAS.
O comite inteligencia do Senado e tambem na Casa dos rep. Convocaram para investigarem a interferencia russa nas eleicoes 2016. OS republicanos QUER ver quem fez "leaks e fake news", OS democratas falem de impeachment e bota fora e ninguem se preocupa com a missao, como evitar espionagem no futuro.
Para demitir o presidente SO E PRECISO, a maioria da CASA DOS REPRESENTANTES votar por maioria e o SENADO por 3 quintos estar de acordo. 2) Por incapacidade e determinacao da maioria do cabinet de secretarios e consentimento do vice-presidente.
Se pres.D. Trump nao lutar pelo programa que 35 por cento dos americanos elegeram com vasta maioria do colegio eleitoral,

Cortar impostos, cortar despesas, cortar regras, cortar deficit, cortar burocracias, cortar deep state, cortar tropas espanhados pelo mundo, .... Tudo o que o atrasado mental Obama tentou e fez.
Mr Trump tem o lugar assegorado ate 2018 e ate ate 2020 se aumentar ou manter a maioria da casa dos representantes, onde cada dois anos o povo concentra a maior parte do seu poder, distrito por distrito, sem interferencia de PARTIDO NENHUM.

Valdemar Iglésias disse...

EEEHAAAWWWW!!!

(creio que no comentário acima, faltou apenas isto)

Anónimo disse...

"...ouvindo da sua boca que teve receio de que ele mentisse..."
Uma coisa e afirmar que mentiu outra é dizer tinha o receio que mentisse (embora isso possa ser mentira).
Mas os eua ja nos habituaram a muitas voltas e reviravoltas de linguagem para induzirem em erro, a arte de mentir sem mentir (foi voce que interpretou mal).

"...O sistema americano deu mostras de ter “falhado” no escrutínio seletivo que as máquinas partidárias costumam empreender..."
Refere-se a Bernie Samples? Candidato com grande simpatia nos eua e e.u. que se nao fosse afastado pela mafia Clinton (da maneira que se soube, ou sera que ja se esqueceu ?) poderia muito bem ter sido o vencedor.

"... montante do voto popular..."
essa foi fantastica. As pseudo elites escolhem de todos os sabores 2 a dar a provar ao povo. A isso chamam liberdade de escolha do povo. Viva a democracia (nao e sr embaixador) desde que escolham um dos escolhidos por nos.

"...sabe que é imensa a legitimidade de quem consegue o acesso à Casa Branca..." "...democracia americana revelou a sua pujança..."
Sim ... claro... uma democracia em que pode vencer quele que teve menos votos.... dddahhhhhh


"...Trump havia dado estranhos sinais do seu interesse em trabalhar num apaziguamento com Moscovo..."
Apaziguamento com a Russia ??? A malta quer é uma guerra bem quente, daquelas a serio com muitos mortos, feridos e mutilados. que coisa estranha querer apaziguamento.
A nao ser que seja um daqueles que se vai esconder para um braco bem cavado (chamam-lhe bunker sr embaixador) e tenha accoes numa empresa de material belico.

"...Rússia economicamente sufocada..."
Essa então foi avassaladora

Rank Country DEBT EXTERNAL Date of Information
1 United States $17,910,000,000,000 31 March 2016 est.
2 European Union $13,050,000,000,000 31 December 2014 est.
22 Russia $514,800,000,000 31 December 2016 est.
28 Portugal $449,000,000,000 31 March 2016 est.

Dados tirados da fonte: https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2079rank.html

"...Ontem, olhando o tom dos congressistas sobre as interferências cibernéticas russas..."
Sobre as interferências cibernéticas russas ou sera que queria dizer sobre as alegadas interferências cibernéticas Russas com R (maiúsculo).
É que ainda não li, ouvi ou soube de nada concreto. Apenas diz que disse e como nao gosto de emprenhar pelas orelhas vou pelos factos.
Então os todo poderosos eua com a mais alta tecnologia do mundo com a qual espiolham tudo e todos (inclusive aliados) deixaram-se ser hakeados pela pobre e arcaica Russia????

Ao Sr embaixador ficar-lhe-ia bem na sua escrita nao dar tantas voltas, reviravoltas, mortais encarpados a retaguarda e ser mais directo e objectivo nas suas ideias e opinioes.
Ja por varias vezes me fez lembrar as velhotas la da terrinha que nunca dizem nada, so dizem que ouviram dizer ou disse que disse ou que flano tal era de ideia de isto ou aquilo. Mas elas nunca dizem nada disso.

Ou sera que este blog serve apenas para um levantamento e medição de opiniões? ;)

Anónimo disse...

Sr embaixador... ficu sem piu ???

Joaquim de Freitas disse...

Ah TRUMP …. Este louco quer agora rentabilizar o « seu » muro do México, instalando painéis solares sobre 1500 km.

Os imbecis só conhecem uma palavra: “MAIS”. Mais riqueza, mais poder, acumulando sempre, até que os pobres que trabalham não possam mais e as infra-estruturas se desfaçam em ruínas.
Vivem em residências privilegiadas donde comandam o lançamento de mísseis, enquanto comem bolos de chocolate…
Vêm o Estado como a projecção da sua vaidade.

Donald Trump é o rosto da decadência americana: um megalómano titubeante, narcísico e sanguinário. Manipula exércitos e esquadras contra s danados da Terra, ignora alegremente a miséria catastrófica causada pelo aquecimento climático e os saques das oligarquias mundiais.
E à noite, assenta-se em frente dum televisor, e abre a sua “bonita” conta Twitter para dizer enormidades.

Este indivíduo é a versão americana de Neron, que investiu somas colossais do Estado para obter poderes mágicos; do imperador chinês Qin Shi Huang, que financiou expedições à ilha mítica dos imortais para lhe trazer a poção mágica que daria a vida eterna ; e duma realeza russa em decomposição que se assentava à volta duma mesa para ler as cartas, enquanto que a nação dizimada pela guerra e que a revolução fermentava nas ruas.

Creio que aproximamos o momento da História que marca o fim duma longa e triste narrativa de avidez e assassinato pela raça branca. Era inevitável que para o espectáculo final a América vomitasse uma figura grotesca como Trump.

Os Europeus e os Americanos passaram cinco séculos a conquistar, saquear e poluir a Terra em nome do progresso humano.

Utilizaram a sua superioridade técnica para criar as máquinas de destruição mais eficazes do planeta, dirigidas contra não importa quê e não importa quem, em particular as culturas indígenas que se encontravam no seu caminho de exploradores.
Roubaram e acumularam a riqueza e os recursos do planeta.
Criam que esta orgia de sangue e de ouro nunca acabaria, e crêem ainda agora.
Não compreendem que a incessante expansão capitalista e imperialista, e a sua ética sinistra, condena os exploradores da mesma maneira que os explorados.
Mas enquanto que nos encontramos mesmo na via de extinção, falta-nos a inteligência e a imaginação para nos libertar do nosso passado evolutivo.

Enquanto que os sinais precursores são palpáveis – subida da temperatura, caos financeiros mundiais, migrações de massa, guerras sem fim, ecossistemas envenenados, corrupção crescente das classes dirigentes – mais nos voltamos para aqueles que cantam por imbecilidade ou cinismo, a velha canção do progresso inelutável, que o que funcionou no passado também funcionará no futuro, etc., etc.

Enquanto que na Europa se procura tapar os buracos da desintegração europeia galopante, com votos maciços de desconfiança dos povos contra a classe politica, na América procura-se tapar os buracos gigantes da desindustrialização, obra da mundialização, que transformou cidades industriais em campos de ruínas, e que está na origem directa da subida ao poder de Trump.

Uma desgraça nunca vem sozinha. E o que é grave é que a actividade principal deste grande país, tão poderoso e tão rico, é a guerra, que o transformou num Estado kleptocràtico.