sábado, 10 de junho de 2017

O jornalismo e o resto

José Gomes Ferreira escreveu um texto em que responde a algumas críticas sobre o modo como entrevistou, há dias, o primeiro-ministro. Nesse texto, procurou revelar a sua "independência", alinhando um conjunto de críticas que dirigiu ao anterior governo. O seu exercício saiu frustrado, como não podia deixar de ser. 

O país tem boa memória e não esquece que, ao longo de muitos anos, JGF se tem deixado resvalar para uma postura analítica (aliás, bem expressa no género de convidados que privilegia) em que se cola a soluções que agradam, esmagadoramente, a um único setor do espetro político. E que desagradam ao outro. Devo dizer que, contrariamente a muitos dos meus amigos, não me custa aceitar que JGF vá por esse caminho. Não admito, contudo, é que JGF e a SIC apresentem isso como "jornalismo". O que ele faz, à sua maneira, é apenas "crítica económica", legítima mas enviezada, como é sempre qualquer crítica (como, por exemplo, é este texto que estão a ler).

Para o jornalismo económico, que praticamente desapareceu dos "media" em Portugal, é indiferente o que o profissional pensa sobre o tema que aborda. O que ele "acha" é, em absoluto, irrelevante para o seu trabalho. O uso do "eu" é a marca que diferencia o analista do jornalista. A função deste último é explicar-nos o que está em causa, é apresentar, de forma equilibrada e neutra, a racionalidade dos argumentos que estruturam cada uma das várias perspetivas com que os agentes políticos e económicos (patronais ou sindicais) olham para o problema. Nesse inventário de leituras até pode apresentar a visão dos analistas mais relevantes, mas não lhe compete opinar, não está ali para isso. A sua missão é ajudar-nos a entender o problema, dando-nos utensílios para depois formarmos a nossa própria opinião. Só isso.

Normalmente, irrito-me ao ver os comentários de JGF e, às vezes, faço um imenso esforço para assistir, até ao fim, aos seus programas. Porém, gosto muito do contraditório e tenho sempre interesse em conhecer as opiniões da direita. Um dia, num dos seus programas, JGF descaiu-se e disse mais ou menos isto: para resolver os problemas da economia só funcionam as políticas de direita. Ouvi, tomei nota e percebi que o jornalista José Gomes Ferreira tinha acabado ali. Ele, porém, ainda não tomou conhecimento desse óbito.

16 comentários:

Anónimo disse...

Ler o Country National Reform/Portugal da Comissão Europeia talvez ajudasse o entrevistador a perceber se este ou qualquer outro Governo tem alguma margem de manobra. Mas há um estilo diferente de Costa entre o consensual e o falar directo que é diferente do predecessor que mentia sem pudor e nos tomava por parvos.

Joaquim de Freitas disse...

Pois é, esse jornalista deve ter no espirito, em permanência, as palavras dos dois mousquetaires do liberalismo, Reagan e Thatcher : " There is no alternative".

patricio branco disse...

pois claro, é a voz oficiosa de certos sectores, e uma peça importante para a sic, emendo, da sic, para mim e outros figura difícil de digerir, exposições encapotadas num ar pedagógico, talvez desse para consultor financeiro de sucateiro, ou de stand de carros usados com garantia de 6 meses, ou para investidores que pretendem comprar lixo de bancos destruidos, não sei se tem alguma coisa a ver com o jgf escritor, etc etc

Anónimo disse...

Só se pode ouvir os comentários de José Gomes Ferreira e ler os artigos e comentários do embaixador Seixas da Costa se se gosta de saber o que pensa o nosso lado e o seu contrário. Aliás basta ler um deles para se saber o que o outro pensa. Os jornalistas económicos devem ser isentos,? não opinam no quadro da sua própria formação? e os embaixadores devem ser apartidários, mesmo na reforma, ou são militantes empenhados mesmo que não o sejam propriamente na facção que esteja no poleiro?
Por mim, desde que não haja disfarce de posições, tudo bem mas sem insultos e desclassificações dos autores das ideias contrárias, como frequentemente se vê no blog do embaixador na pena do próprio e na dos seus leitores militantes. Isso sim, é profundamente irritante e muito desclassificador dos próprios.
João Vieira

Anónimo disse...

Nem nunca vai tomar. Há pessoas que não percebem que deixaram de interessar aos outros, irremediavelmente. Por culpa delas.

Anónimo disse...

Preferirá o Senhor Embaixador, sem ponta de dúvida, a clarividência e a sólida preparação técnica, a que aliás se alia uma impoluta independência, do enlaçado Nicolau Santos.

JOM disse...

.O senhor JGF é aquele pequeno senhor que aqui ha uns anos num programa dedicado as "vantagens" de arrendar casa sobre a compra de casa propria ao fugir lhe a boca para a verdade e ao dizer que era melhor viver em casa propria fez um imediato mea culpa por ferir as suas fidelidades ao poder financeiro escorregou para tras na cadeira e comentou e num modo envergonhadoomentou " ai o que vao dizer os senhoes do capital financeiro ". Outrs pessoas que nao estavam ao pe de mim e que ouviram tamnem nao se esqueceram

José Alberto disse...

Os pequenotes José Gomes Ferreira e Marques Mendes, fazem um lindo par de jarras...

Carlos Fonseca disse...

Quando li o comentário do "Anónimo" das 16:29 na parte em que escreve "... a clarividência e a sólida preparação técnica (...) do enlaçado Nicolau Santos, ocorreu-me recorrer aos textos evangélicos e citar Cristo: "Tu o disseste!"

Anónimo disse...

Plenamente de acordo. O que é grave é que canais de TV dêem abrigo a quem os usa para fazer política e não para transmitir informação ou servir de pivô com a independência que os jornalistas devem ter. Ou pelo menos, como sucede em muitos países serem obrigados a declarar a sua posição política e passarem a argumentadores. Claro que mesmo assim a ignorância econômica do JGF o desaconselha para esta área compará-lo com o Nicolau é de rir.

Anónimo disse...

Aquela entrevista foi absolutamente vergonhosa. Tanto que esse pseudo jornalista sentiu necessidade de fazer contenção de danos quando se aprecebeu da borrada que fez e que o tiro lhe saiu pela colatra.
Falar daquela maneira com um ministro (neste caso o 1º ministro) so revela que nao respeita nada nem ninguem

ao anonimo 11 de junho de 2017 às 11:23
"Os jornalistas económicos devem ser isentos,? não opinam no quadro da sua própria formação?"

Sim, todos os jornalistas devem ser isentos. Apartir do momento que passam a emitir opinioes pessoais isso deixa de ser jornalisto e quando passa a ter conotacoes politicas comeca a ser propaganda.

O que se viu naquele triste espetaculo de José Gomes Ferreira e sic (so nao foi mais pq o Sr 1º Ministro muito soube levar a coisa muito bem) utilizando perguntas para fazer afirmações e criticas e depois tentar impedir a resposta quando nao lhe convinha foi absolutamente rafeiro e rasteiro. O objectivo de uma entrevista num canal noticioso deveria ser informar e esclarecer as pessoas e nao fazer propaganda.
Mas para a seita seguidora do querido lider pregador de Massama que nos ultimos anos saiu do armario tudo vale. Pode ser que surja num quadrante patriotico alguem que tambem ache que tudo vale para erradicar essa raça de mentirosos e aldraboes.

Vejam aqui essa entidade de jgf a fazer publicidade ao BES que esta protegido e é fiavel e robusto e confiavel num momento em que ja muita gente suspeitava

https://www.youtube.com/watch?v=jzjtv5tsLK0

Ou é um completo ignorante ou um vendilhao

Anónimo disse...

Em França, que acabou de eleger o governo do Erdogan de Amiens, o jornalismo também esta em altas...
Veja-se o que nao contribui o jornalismo francês para a abstenção das legislativas.
400 deputados, hiper maioria absoluta, com 30% dos votos para o sultão de Somme. Os LR, que nao sao do meu gosto, tiveram 100 com 20% dos votos, o bloco la do sitio, FdG, teve 20 deputados com 10% dos votos. E no final ainda lhe chamam democracia!... 3 vezes mais votos, 20 vezes mais deputados... Olé

O que é que pensa caro de Freitas?

Anónimo disse...

O sistema eleitoral francês, britânico e norte-americano têm tudo menos de democrático. É inaceitável que não se defenda a proporcionalidade, um sistema que permite a representatividade dos eleitores e em quem é votado por eles. No caso francês e inglês é de facto uma falha democrática bastante grande. Macron, que não deverá ter mais do que 30% acaba com 2/3 na Assembleia Nacional, o que é escandaloso. E no caso do R.U ver partidos a obterem uma percentagem que lhes permitiria uma determinada representatividade no Parlamento ser afastada, com zero deputados, ou um número diminuto é revoltante. No caso americano é o que sabem com um sistema já ultrapassado que permite que um candidato que perde as eleições seja vencedor, para além de não ser uma votação directa, mas através de um colégio eleitoral. Em resumo, ainda há muito a fazer no que respeita à chamadas Democracias. E recorde-se um outro exemplo patético que é o sistema Grego (que Montenegro e passos recentemente defenderam!) de que o Partido vencedor deveria ainda vir a ter uma determinada percentagem de deputados não eleitos com vista a possibilitar a formação de maiorias! O mal disto, como sucede em França, RU, EUA, etc, é esses sistemas eleitorais visarem apenas a existência de 2 Partidos e obrigarem os eleitores a terem de optar por aí. É terrível para as opções políticas e para a Democracia. no fim de contas, o que se pretende é limitar as opções políticas e impedir que nasçam outras que vão contra o sistema vigente. Felizmente que por cá isso não tem futuro, embora haja muitos simpatizantes (sobretudo no PSD e, não há muito tempo, no PS).

dor em baixa disse...

Gosto de o ver e ouvir, basicamente digo logo: "Olha o Zé do BES". Também podia designá-lo "cabeçudo" e não me refiro ao tamanho da cabeça, não tenho nada com isso.
Obs (se me permite): enviesado deriva de viés, escreve-se com um s.

Joaquim de Freitas disse...

Ah o pobre Guaino, o homem de « mão » de Sarkozy, quando estava no poleiro, o autor do famoso infame discurso de Sarkozy sobre o “Homem Africano”, Guaino que, derrotado ontem, acusa os seus eleitores de direita, que seriam “ a vomitar” pela sua indigência!

Pensei muitas vezes na maneira como o Império Romano se desmoronou face aos bárbaros germânicos.: Nesses derradeiros dias do Império, os generais indigentes tinham tomado o poder. Mas na realidade o mal vinha de antes muito antes.

O mal progrediu lentamente.

Quando num sistema eleitoral injusto e anti democrático, os mesmos “generais” da política se perpetuaram em guerras sem fim e impossíveis de ganhar que puseram pouco a pouco a Nação em frangalhos.

Quando alguns do topo dos indigentes apelavam a reduzir os impostos dos ricos e a reduzir os programas sociais dos pobres, tudo isto baseado num crescimento económico mítico, que traria os empregos para todos.

Quando se envenena alegremente o ambiente, a água, o solo e o ar, suprimindo ou precarisando os empregos e reduzindo os salários.

Quando os homens da finança indigentes jogavam no casino das bolhas financeiras, que eles mesmos criaram e reduziam os cidadãos à escravatura por causa duma dívida que os esmaga.

Quando jornalistas e intelectuais indigentes pretendiam que o despotismo, semeado de corrupção e “affaires” de todos os géneros é a democracia.

Quando os “espertos” e “especialistas” económicos indigentes insistiam numa linguagem hermética e ininteligível para o comum dos mortais, e teorias obscuras, a apoiar a política dos dirigentes, ao mesmo tempo que os pobres eram cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos.
E tudo isto é desesperante, sobretudo de ver nestes homens políticos sinais evidentes que testemunham da indigência da nossa época, e que a historia confirma a indigência para todos.
Porque, entre Sarkozy ,Fillon e Hollande , e mesmo no estrangeiro, Trump, Hillary e Erdogan, esta época vê emergir perfis políticos cada vez mais duvidosos para servir um sistema agonizante.
Porque entre eles só existem diferenças de formação económica, académica e social dos seus países respectivos, mas todos representam sob o nome dos partidos políticos que lideram, a mesma “Associação de Crápulas Internacional. ”
E dum país ao outro só existem “nuances” de indigência entre as elites políticas, porque no seu comportamento reconhece-se a mesma carga de indigência.

E creio profundamente que, apesar destas “nuances”, o projecto politico apresentado por estes “perfis” está ao serviço dos mesmos interesses financeiros e/ou mafiosos que alienam o homem em nome do “lucro”, ao mesmo tempo que reivindicam um profundo desprezo pelos pequeninos, a dignidade e a vida.

Quanto a Macron, fio-me nas palavras de Mark Twain: “« Le danger, ce n’est pas ce qu’on ignore, c’est ce que l’on tient pour certain et qui ne l’est pas. »

Joaquim de Freitas disse...

Ao anónimo de 11 de Junho, das 19:29, quero deixar aqui a minha resposta :


A seguir às eleições Primárias, das presidenciais e desta primeira volta das legislativas, observa-se o desaparecimento de nocivos, de mastodontes de direita e da “esquerda”, com a implosão do PS, que previ aqui mesmo há alguns meses, quando verifiquei a nulidade de Hollande e sobretudo a traição do discurso do Bourget, o esfrangalhamento da direita, que se transformará em dois partidos, um de colaboração com Macron e o outro de oposição, o fracasso do FN, que só terá um deputado, Marine, ela mesma, o que é absolutamente antidemocrático, e o aparecimento do En Marche e da França Insubmissa.

En Marche, aparece com centenas de braços, para ir vasculhar nos nossos bolsos. De France Insubmissa, de Mélenchon, virão algumas sementes das quais gemará um dia uma verdadeira esquerda, sobre as ruínas do PS roído pela direita e dum PCF perdido na luta de lugares.

Vamos ver entrar na Assembleia Nacional alguns deputados realmente depositários dum futuro em comum, d’eco-socialismo e capazes de afrontar o maremoto macronista.

E muitos oportunistas sem princípios, agentes do MEDEF, submarinos do CAC 40, loucos de Jesus, lobyistas, traidores de ontem e de amanhã, futuros inculpados.
E alguns sob desenvolvidos do bulbo espinal, investidos porque o reduto das cabras estava vazio, e que são incapazes de dizer sobre qual programa foram eleitos.