quarta-feira, 14 de junho de 2017

Lisbon


Há uns tempos, deu-me para ir jantar a um clássico restaurante de bacalhau, na Baixa lisboeta (esse mesmo!). Quando quis saber um pormenor sobre um certo prato, o empregado, muito sorridente, hesitou, atrapalhado, por não perceber a minha pergunta. Quis saber de onde era: do Nepal. O seu inglês não era famoso e, visivelmente, só estava fadado para servir aquele tipo de turistas que apontam para uma fotografia com preço à frente, no menu plastificado. 

Porque o impasse continuava, porque eu (já em inglês) continuava a querer saber algo que ele não compreendia, chamou um colega para falar comigo: esse era do Sri Lanka. O inglês era melhor, mas, tendo-me já entendido, não tinha a informação que eu queria. Ainda pensei que pudesse vir por ali alguém do Butão...

E lá chegou um português (ficou satisfeito quando lhe disse que era parecido com o Ricardo Araújo Pereira, mas logo esclareceu que tinha um irmão lá em casa, esse sim!, quase sósia do ator). E tudo se resolveu, mais ou menos. (Para o que aqui não importa, comemos "bem malzinho", como a minha mãe piedosamente dizia, quando se saía de uma péssima refeição num restaurante).

Há dias, na noite de Santo António, já depois da meia-noite, abancámos numa esplanada da Rua Augusta. Os empregados eram maioritariamente do Sri Lanka. Simpáticos, sorridentes, disponíveis, não falavam peva de português. Entendemo-nos naquele "inglês de aeroporto" em que é difícil discutir se uma água é das Pedras, do Vidago (quem é de lá perto diz "do Vidago", quem não é diz "de Vidago"), de Campilho ou de Cavalhelhos. Pronto, a noite era de festa!

Lisboa está transformada numa cidade para turistas, para gente "de fora". Tudo bem, mas não exagerem! Não me apetece sentir estrangeiro na Baixa, como, por outras razões, me sentia em Albufeira, no século passado! 

Faço parte de quantos gostam muito de ver Portugal um país de acolhimento para trabalhadores estrangeiros. Tenho orgułho quando os ouço dizer que gostam de viver por cá, que se sentem aqui bem. E espero sinceramente que fiquem, porque o nosso destino de porto de chegada sempre ajudou a abrirmo-nos ao mundo. O mesmo mundo que também continua acolher-nos, não o esqueçamos.

No entanto, é importante que quem, no setor turístico, deve andar nos dias de hoje nas suas "sete quintas", com as enxurradas de "camones" (recupero aqui a expressão elegante dos taxistas), perceba que há um país de gente que vive por cá e que tem o direito a ser servida na sua língua (original ou aprendida).

9 comentários:

Anónimo disse...

também fui turista em Lisboa. Claro que os anos eram outros. Foi lá pelos 60 que me estreei nos restaurantes de Lisboa. E também acho que se comia bem malzinho!
Parece que nada mudou, porque no mês passado andei por lá, e a cozinha era a mesma!
Nada que chega às cozinhas dos Xaxoilas da nossa universidade

Valdemar Iglésias disse...

Aparentemente, eu e a minha namorada passamos por espanhóis na mesma rua.

Apresentaram-nos "la carta!"

Anónimo disse...


Senhor Embaixador

Tem tôda a razão.
Curiosamente, há uns 20 anos atrás, havia no Porto uma importante presença de Ucranianos nos bares e restaurantes, particularmente na Ribeira. Mas muitos deles, para não dizer a maioria, falavam razovelmente a língua de Camões e quase que sem sotaque. Não sei se a situação se modificou.
Atenciosamente

Anónimo disse...

É curioso como tendo nascido em Lisboa de familia quase que inteiramente lisboeta de gema há muito tempo e com muito poucos contactos com a província, hoje em dia circulo muito bem sem esbarrar em turistas.

Penso que se o turismo é uma das melhores indústrias neste momento em Portugal, evito em Lisboa os locais mais poluídos por essa mesma indústria como anteriormente o fiz com o Algarve primeiro e depois com a Linha.

Aqui há uns 35 anos era impensável ir passear ao Barreiro quando hoje até é interessante pela vista que se tem sobre Lisboa à noite.
Será tudo uma questão de boa adaptação às circunstâncias?

Anónimo disse...

Os tipos do turismo nao querem saber do portugues para nada, nao é o portugues que lhes da o dinheiro...



Luís Lavoura disse...

O que me preocupa nesta situação descrita pelo Francisco é a possível má impressão com que os turistas ficarão de Lisboa: cidade onde se come bem malzinho e se é servido por asiáticos que mesmo inglês pouco sabem. Acho que a indústria turística se está, desta forma, a abandalhar.
Quanto ao resto, a Baixa lisboeta é um fun park para turistas; não é para os lisboetas se sentirem "em casa". Se o Francisco lá vai e quer sentir-se "em casa", erro dele; eu também não espero sentir-me "em casa" num daqueles centros comerciais em que tantos portugueses passam o fim de semana.
Lisboa é muito grande e continua a ter muitos sítios lisboetas. A Baixa não é, evidentemente, um deles.

Anónimo disse...

Também assisti a situação semelhante no famoso parque de distrações de Paris há uns anos!
muita juventude servia os visitantes, sem entender ou quase não entender a língua do país ! Relembro que eram de muita ajuda as fotos das especialidades e refeições que se espalhavam pelas estantes e pelas paredes dos estabelecimentos, e assim era só apontar com o dedo o que se queria !
bom feriado :)

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor Embaixador, acordou recordações tristes, ao publicar a foto do restaurante : há um ano e meio, tinha programado um cruzeiro no « Poesia », da SMC, porque ancorava durante um dia em Santa Apolónia, que descobri então. E tinha convidado um irmão e família a almoçar nesse restaurante. E recordo a má cozinha deste restaurante. E recordo o pessoal vindo dos mares “nunca dantes navegados”, … Foi a ultima vez que vi o meu irmão, que entretanto faleceu. Ainda bem que fiz escala em “Lisbon”…

Compreendo o espírito do texto do post. Finalmente, se noutros tempos levamos aos países longínquos a nossa língua, as nossas tradições, pensando também levar a esses povos uma “civilização”, receio que agora sejam eles que nos tragam a sua língua, as suas tradições mas não creio que nos tragam uma civilização, se não são “islamistas”. Porque estes bem queriam que vivêssemos um dia sob a Charia !

Mas os nossos países são já tão pouco …nossos, Senhor Embaixador. Por toda a parte, a nova “civilização” nos impõe uma quantidade de coisas. Os “camones” dos taxistas não é nada, comparado a todo o resto.

O Senhor que é diplomata deve recordar-se que foi em 1919, no Tratado de Viena, que o presidente dos USA exigiu que o tratado também fosse impresso em inglês…Até essa data havia no Oeste uma civilização europeia com a sua variante americana. Cinquenta anos mais tarde, haveria uma civilização americana com variáveis de ajustamento europeias.

Mas que raio de “civilização”, Senhor Embaixador. Mesmo em” Sciences Po”, 60% dos cursos são em inglês! E o curso das politicas culturais em França, chamam-se agora “ Cultural Policy and Management”.

As antigas categorias “marxisantes” (burguesia, classe, capitalismo) desaparecem. Não se diz “proletários” mas “classes desfavorecidas”, não se diz “clochards” mas SDF… que é mais indolor.

Enervo-me sempre quando vejo as crianças celebrar Halloween, que pertence ao paganismo celta, importado dos países anglo-saxões.

Por toda a parte se descobrem “espaços” que se chamavam antes sala de espera, provas ou degustação de vinhos, zonas pedestres. Agora são “open spaces” por todo o lado, sem esquecer os “open bars” !

Influência esmagadora dos Yankees… A tal ponto que no seu blogue aparecem os americaníssimos intérpretes da História, que afirmam que os USA foram aqueles que mais contribuíram para a derrota da Alemanha, enquanto que sempre pensei que foi a União Soviética.
Aliás, se Putine assistiu ao 70° aniversário do desembarque da Normandia, o Young Leader Hollande não foi a Moscovo. Maneira de fazer crer a todos os povos da terra que foi Rambo que ganhou a guerra.

Depois do Brexit, a EU vai comunicar numa língua dum pais que não faz parte da EU….Miséria.
E agora, miséria das misérias, vamos ter de gramar um presidente dos USA para quem “Belgium” é uma cidade e que pensa que enviou 59 mísseis para o Iraque enquanto se tratava da Síria…

Anónimo disse...

Há nepaleses a trabalhar em pt sem falarem português? A culpa é dos americanos! Ridiculo!