sexta-feira, 30 de junho de 2017

Do senso comum ao inimigo imaginário



Começo por um “disclaimer”: não percebo rigorosamente nada de prevenção florestal, nem de combate a incêndios, não sei se se deve favorecer ou rejeitar o eucalipto, não tenho a menor ideia sobre o que será mais correto fazer para o futuro – salvo o óbvio, que é achar que há interesse em encontrar uma maneira de ter as matas mais limpas e organizadas (mas também não sei como e por que meios), haja em vista os Verões cada vez mais quentes que aí virão. Neste tipo de questões, entrego-me confiadamente nas mãos de quem sabe, de quem estuda estes temas, de quem trabalha no terreno, de quem gere o país. E, perante os factos ocorridos, aguardo serenamente as conclusões que deles devem ser extraídas.

Não posso, assim, deixar de ficar espantado por ver surgir, em especial na nossa classe jornalística, imensos e inusitados “especialistas” no tema, rapaziada que escreve em tom grave, imagino que com o mesmo saber com que se pronunciará sobre a cultura de caracóis na ilha do Corvo. E então nas redes sociais - que estão para os opinadores de hoje como os “cafés centrais” estavam para as tertúlias do antanho - é um fartar de indignados “tudólogos”. Feliz país que tais e tão sapientes filhos tem!

Responder-me-ão: mas um cidadão, a começar pela comunicação social, não tem o direito de se interrogar sobre a razão de dezenas de mortes, sobre o que seguramente falhou, sobre o que de tão incontrolável possa ter ocorrido? Claro que sim! Deve perguntar, tentar perceber, obrigar à responsabilização de quem gere a coisa pública. Mas também deve fazê-lo sem partir do princípio de que o senso comum lhe dá alguma particular autoridade, sem presumir respostas que ainda ninguém tem e que apenas resultarão dos inquéritos, que infelizmente demorarão tempo. Deve agir com serenidade e seriedade, não deixando a impressão de que os poderes públicos são afinal o “adversário”, o “inimigo” que está ali para esconder coisas inconfessáveis, para proteger interesses suspeitos, enfim, para nos enganar a todos. 

Esta visão da democracia como um palco onde só há incompetentes, corruptos e mentirosos é uma perspetiva doentia da política, uma pandemia cívico-mediática que dá pasto às mais alucinadas teorias conspirativas. E quem, no seio da classe política, cavalgar oportunisticamente estas ondas (hoje fá-lo alguma direita, como no passado o fez alguma esquerda, porque aqui não há inocentes), não está a perceber que, face aos seus ganhos imediatos, há um preço político muito maior que irá pagar – que é a descredibilização geral da máquina pública, que só vai aproveitar aos demagogos.

7 comentários:

Anónimo disse...

Tens razão, é azar, dez milhões de peritos em prevenção e extinção de incêndios e aparentemente nem um nos serviços de bombeiros e proteção civil! Que raio (salvo seja)
Fernando Neves

Anónimo disse...

Totalmente de acordo!

Anónimo disse...

Realmente é de ter muita confiança nos nossos políticos!? O seu comentário é muito politicamente correcto, o que é normal em quem está dentro de um grupo, neste momento no governo. Mas seria importante saber o que foi e é neste momento o siresp, responsabilizar os serviços que não funcionaram e sempre os responsáveis superiores (não o operacional que sem meios e diretivas escolheu a opção errada no momento ou fez declarações menos felizes).

Anónimo disse...

Está muito bem posto, mas quando afirma «...haja em vista os Verões cada vez mais quentes que aí virão.», não está a fazer exactamente aquilo que critica ?

JRodrigues

patricio branco disse...

morreram 67 pessoas e estão outras feridas, talvez em estado grave algumas, talvez fiquem inutilizadas, e o ministério publico não abre um processo crime por 67 homicidios, ou 67 processos crime, contra criminosos, pessoas ou instituições, não identificadas por agora? isso é o mais grave, a carnificina. e o mp tem de começar a interrogar as centenas de pessoas que podem com os seus testemunhos dar pistas, cronologias, sobre o sucedido.
e as empresas agrícolas ou industriais pequenas ou medias que foram destruidas?
o eucalipto vamos lá a ver é uma árvore economicamente importante, celulose para pasta de papel, carvão vegetal, medicamentos dos componentes das folhas, etc, etc, vamos agora banir o eucalipto e importar pasta de papel, etc? é plantá-los ordenadamente, cada cultura tem as suas regras, é segui-la, as empresas grandes e responsaveis até o fazem.
downburst, ao fim de décadas ficamos a saber de fenómenos atmosféricos maldosos de que nunca tinhamos ouvido falar, vconheciamos os ciclones, os tufões, os ventos, o granizo, a neve, a chuvva, os raios, relampagos, coriscos e trovões, os nevoeiros, mas o down não sei quê é novidade, tentam impigir-nos esses ventos para baixo e para o lado que trazem fogo e destruição, tudo em segundos, e foi bem aceite, foi o down, ali naquele ponto, e instantaneamene tudo ardeu até longe.
pois foi um fenómeno ultra-terrestre disseram ontem na quadratura do O esse fogo ventoso vingador vindo dos ceus...
pois é muito triste os 67 mortos, as familias orfãs, e pronto, foi a natureza, passemos a outro ponto.
e tantas outras povoações nas mesmas circunstancias, eucaliptos ou outros bosques até à porta das casas ou até ao começo do alcatrão das estradas, o governo não monta já equipas com maquinas para cortar arvores e fazer uma zona de segurança, assim como existe entre as 2 coreias ou osv 2 chipres, pois uma zona isolante, as arvores são um dos lados, os povoados ou estradas são o outro lado, imagem internacional, pois quem é o kim juongh ou como se chama ele dos incendios?
e venham os kamov que parece são do melhor que há e os sirespes baseados nas telecomunicadoras comerciais, pois, façam relatórios e inqueritos, sempre entretem...

Anónimo disse...

A ler, "Como o Estado Gasta o Nosso Dinheiro - Carlos Moreno" , Outubro de 2010.

Ex-Juiz Conselheiro do Tribunal Constitucional.

Está lá tudo o que devia conhecer ou que "não convém conhecer"......

josé ricardo disse...

Também eu não percebo nada de florestas e incêndios. Também eu não gosto dos populismos necessariamente demagógico e assim aproveitados de que isto é tudo uma choldra. Mas sei pelo menos uma coisa: um incêndio como este, carregado com o inusitado número de mortes, não devia ter existido num país com a dimensão do nosso. E é somente aqui que me desvio do que me é usual: a culpa disto tem nome, ou melhor, vários nomes, por sinal todos coletivos: são os vários governos que, durante décadas, não conseguiram implementar uma coerente e lúcida política florestal, de acordo com a dimensão do país, dos solos, do clima e de tudo o resto que os variadíssimos estudos científicos exaram.
Adenda: pode parecer da minha parte injusto e até cruel, mas estou um bocadinho cansado deste endeusamento dos bombeiros. Eles estão a fazer o trabalho que lhes compete. Umas vezes fazem-no bem; outras, não muito bem.