terça-feira, 2 de maio de 2017

Uma história do Nuno


Era àquela hora despovoada em que o Procópio tem escassas almas, imediatamente antes do jantar. Às vezes, há por lá uns canastrões a "fazer a folha" a secretárias em busca de ascensão, ou um tête-à-tête de negócios. O Nuno Brederode Santos tinha chegado, depois das seis, fazia horas para ir jantar ao "Mãe de Água". Eu estava por lá por um mero acaso, muito longe do meu turno. 

Vimo-lo entrar e sentar-se ao balcão. Trazia a marca indelével dos chatos. Saudou-nos na "mesa dois", à distância. O Nuno sabia quem era. A certo passo, com o resto da sala deserta, copo na mão, o cavalheiro aproximou-se da "dois", perguntou se se podia sentar. Saí um pouco da conversa, com ele a inquirir do Nuno sobre umas coisas que não me diziam o menor respeito. Com generosidade inclusiva, o tipo voltou-se então para mim: "Sabe, eu e o Nuno conhecemo-nos do tempo do Ertilas, aquele café de Campo de Ourique. Grandes noitadas por lá, não era, Nuno?". O Nuno, complacente, dizia que sim. Comentei então que o Luís, o magnífico empregado do Procópio que nos aguenta nas últimas décadas, havia trabalhado nesse café. O "Ah! Sim?" (versão lusa do anglo-saxónico "really?!") foi a única coisa que lhe saiu.

Esgotados os minutos em que nos encharcou de conversa, o cavalheiro preparou-se para sair. Nostálgico, comentou, de novo íntimo, com o Nuno: "Grande Ertilas! Belo café! Grandes tempos! O nome do café é grego, não é?". O Nuno, grave, acenando que sim com a cabeça, confirmou. Era um nome grego, da mitologia, claro.

O tipo saiu. Eu tinha de fazer o mesmo. O Nuno ia para o restaurante. Perguntei: "Conhecias bem o tipo?". "Mais ou menos, mas nunca o vi no Ertilas..." Riamo-nos, já fora, pelas escadas, quando comentei: "Não fazia ideia de que Ertilas era um nome grego!" "Grego?" O Nuno deu uma gargalhada das dele: "Ertilas é Salitre ao contrário"...

Ontem, não pude ir aos Prazeres, despedir-me do Nuno. Lá por Campo de Ourique, como o Ertilas, o bairro onde o Nuno nasceu.

3 comentários:

Anónimo disse...

Meu Caro Embaixador

Infelizmente, o Ertilas já não existe, deu lugar a um fast food, tal como o café Raiano, tal como o Latino depois Gigante...mas temos a Tentadora, o Canas, o Ruacaná , a Aloma , o Meu Café, a história de Campo d'Ourique é a história dos seus cafés...mas para mim o símbolo icónico do bairro é o Eduardo dos Livros que começou a alugar ( sim alugar livros...) da colecção Vampiro e outros no átrio do cinema Paris...

Maxmilianno disse...

São sempre muito saborosas suas conversas. Compraz-me deveras.

Anónimo disse...

oh senhor embaixador essa das secretárias merece 5 estrelas!!!! então não é que há tantos colegas seus que se meteram com as secretárias e até alguns casaram com elas.......e eram todos casados.......