terça-feira, 9 de maio de 2017

Realismo impopular


“Que negativo! Em lugar de saudares, com júbilo, a vitória de Macron, vi-te numa atitude reticente, augurando males para a sua governação, destacando mais o resultado de Le Pen”. Vários amigos comentaram desta forma o que disse ou escrevi no dia final das eleições presidenciais.

Vamos a ver se nos entendemos. Para a esmagadora maioria dos franceses, o candidato Emmanuel Macron, de que alguns nunca tinham ouvido falar até há muito pouco tempo, representou o escudo de proteção para um assalto ao poder de uma candidata que personalizava uma política de ódio, discriminação e autoritarismo, cavalgando medos e inseguranças, na base de um programa cheio de mentiras, simplificações da realidade e caricatura de soluções.

O voto “efetivo” em Macron foi o da primeira volta: 24,1%. Foi um resultado que beneficiou, desde logo, do candidato socialista ser Benoît Hamon e não Manuel Valls (que teria deslocado muito voto socialista moderado que foi para Macron) e da circunstância conjuntural, muito particular, que foram as “trapalhadas” de François Fillon, o candidato da direita clássica.

Convém que não nos esqueçamos de uma realidade muito evidente: se o “Canard Enchainé” não tivesse revelado as improbidades do casal Fillon, no dia de ontem a sua cara estaria em todos os jornais do mundo como novo ocupante do Eliseu. Sem a mais leve das dúvidas.

Desses 24,1%, Macron passou, no domingo, para 66,1%. Recebeu assim 42% a mais de “voto útil” de pessoas que, na primeira volta, tinham votado noutros candidatos e que, postos perante uma opção entre ele e Le Pen, não hesitaram em escolhê-lo. 

Mas Macron não tem mérito? Claro que tem e muito. Soube aproveitar o “nicho de mercado” político que se abriu com a exaustão dos partidos clássicos, em especial o fracasso rotundo dos socialistas, propondo uma ansiada e sempre adiada modernização da França, sem deixar cair esta ideia numa agenda puramente conservadora. Foi uma cara nova, num mundo de rostos desgastados por aquilo a que os franceses chamam a “politique politicienne” (que poderíamos traduzir por “política politiqueira”).

Macron tinha contra si o facto de, enquanto Ministro da Economia, ter proposto medidas fortemente liberais, que o alienaram de muitos setores socialistas. Mas essa mesma postura foi, no polo oposto, aquilo que o credibilizou junto de uma certa direita. Os seus 24,1% nascem assim de uma conjugação favorável de fatores, que soube aproveitar com um ambíguo discurso, nem-de-esquerda-nem-de-direita, fórmula que a História sempre revelou ser insustentável no tempo, mas que já alimentou no passado algumas outras aventuras políticas. Mas “a sorte protege os audazes” e Macron soube ousar e é premiado por isso.

O novo presidente tem, perante si, um imenso desafio, que começa com a necessidade de organizar uma nova maioria que lhe permita governar. A História mostra que um presidente que não tenha atrás de si uma maioria coerente, num país onde as coligações não são habituais, tem grande dificuldade em dar expressão prática ao seu programa.

Nas próximas eleições legislativas, a grande maioria dos 42% de votos a mais, face à primeira volta, que deram a vitória a Macron, regressarão com naturalidade aos candidatos a deputados que representam as forças políticas em quem esses eleitores tinham votado nesse primeiro turno. O mesmo acontecerá, com toda a certeza, com os cerca de três milhões de votos a mais que Marine Le Pen recolheu nesta segunda volta. É claro que não deveremos descontar que alguns dos “novos” eleitores de Macron, pelas sinergias que uma dinâmica presidencial não deixará de induzir, poderão ser tentados a confortá-lo com um crédito de confiança, votando agora  “En Marche!”. Mas eu aposto, singelo contra dobrado, em como, no final do dia 11 de junho, esse partido não irá ter muitos mais votos do que aqueles que o seu inspirador obteve na primeira volta das presidenciais. 

A grande dificuldade com que Macron se vai defrontar, nas seis semanas que se seguem, é transformar um movimento de apoio a uma candidatura num partido capaz de apresentar candidatos, credíveis e com hipóteses de serem eleitos, num número significativo de circunscrições, dentre as 577 existentes. O “efeito PRD” que experimentámos em Portugal em 1987, é reproduzível na França da V República? Tenho dúvidas.

A ingovernabiidade, ainda que relativa, da França de Macron nunca será uma boa notícia para Portugal. Com a expectável saída do Reino Unido da UE, Paris tem uma oportunidade soberana para recuperar algum terreno perdido no plano europeu, como contraponto cooperativo a Berlim. Uma França forte seria um importante fator de equilíbrio na Europa do futuro. Por isso, o êxito de Macron é desejável e só nos poderemos vir a regozijar se ele vier a ter lugar. O que não nos impede de dever ter a responsabilidade de afirmar que as condições para tal vir a ocorrer são ainda muito questionáveis.

13 comentários:

Anónimo disse...

A Itália ainda não está ganha, mesmo que as sondagens dëm Renzi a subir ou uma vitória coligação meloni-salvini-berlusconi. O m5 não está ainda afastado e a sua investidura traria o afundamento da UE e do Euro.

Anónimo disse...

Em 2016/05/11...

"Tenho muita pena, minha senhora, mas, para o jornal "i", não falo. O seu jornal, há semanas, fez uma notícia falsa e em tom de baixa intriga a meu respeito e, não obstante eu ter escrito de imediato ao vosso diretor, não só não corrigiu o título na plataforma online como não teve a delicadeza de me dar uma resposta. Por isso, não falo para o "i"".

Não fala, mas escreve!

Joaquim de Freitas disse...


E é esta lista que o "obrigará" a fazer uma politica , já inscrita no seu programa, que a maioria dos Franceses vai combater, voltando aos seus partidos tradicionais, aos seus deputados , nas próximas eleições legislativas.

E mesmo se Manuel Valls, vencido e corda ao pescoço, se candidata agora à chefia do Partido Macroniano, fá-lo porque Macron avisou que apresentará um candidato contra todo socialista que o fará fora do "En Marche". A morte programada do PS ? Mélenchon "prendra la relève" ainda mais forte, o que, com o FN e a direita, transformará a Assembleia Nacional num campo de batalha .

E desde que a primeira "ordonnance" será activada , os sindicatos "prendront la relève" da Assembleia e o combate virá para a rua.

As potências do dinheiro conseguiram, através duma propaganda mediática intensa, impor o seu candidato favorito . Dando a impressão do "novo" a "velhos" interesses - os seus - , realizaram o um performance : permitir a continuação da obra dum presidente com impopularidade recorde.

O marketing e a "comm" funcionaram. Bravo.

Mas os dominantes deveriam evitar de fanfarronar. O povo, particularmente as classes populares não desejava um presidente ao serviço dos poderosos da finança, da oligarquia transnacional.

Como vai reagir a uma politica ferozmente pro-UE, pro-NATO, pro-americana e pro mundialização neo liberal?
Ninguém sabe, para o momento, mas os próximos anos não vão ser repousantes para o poder.
A demagogia FN vai contabilizar a fundo os resultados "eventualmente" desencorajantes desta politica Macron. E depois, haverá 2022.


Joaquim de Freitas disse...

Em vez de " En Marche" , que comporta as iniciais de Emmanuel Macron, ele devia antes chamar o seu partido "P.P.A", Parti de la Presse et de l'Argent".

A lista dos apoios é evidente:

"Loïc Armand (président de la commission Europe du MEDEF et de L’Oréal France)
Bernard Arnault (1ère fortune française – 11e mondiale –, PDG et principal actionnaire de LVMH, propriétaire du Parisien-Aujourd’hui en France et des Échos)
Pierre Bergé (363e fortune française, homme d’affaires, mécène, copropriétaire du groupe Le Monde)
Vincent Bolloré (10e fortune française, industriel, actionnaire principal de Vivendi et du groupe Canal+)
Yannick Bolloré (PDG d’Havas, membre du conseil de surveillance de Vivendi)
Alexandre Bompard (PDG de la FNAC-Darty)
Didier Casas (directeur général adjoint de Bouygues Telecom, conseiller d’Emmanuel Macron)
Patrick Drahi (5e fortune française, président d’Altice, principal actionnaire de SFR Group, qui possède Libération et L’Express)
Thomas Enders (PDG d’Airbus)
Pierre Gattaz (président du MEDEF)
François Henrot (banquier d’affaires, ancien bras droit de David de Rothschild)
Henry Hermand † (305e fortune française, président de la société d’immobilier commercial HH Développement, parrain d’Emmanuel Macron en politique)
Arnaud Lagardère (305e – ex aequo – fortune française, directeur du groupe Lagardère, propriétaire du Journal du dimanche)
Pascal Houzelot (propriétaire de la chaîne Numéro 23, membre du conseil de surveillance du Monde)
Bernard Mourad (ex-banquier conseil de Patrick Drahi et ancien de la banque Morgan Stanley, conseiller spécial d’Emmanuel Macron)
Xavier Niel (9e fortune française, actionnaire majoritaire d’Iliad, maison-mère de Free, copropriétaire du groupe Le Monde)
Laurence Parisot (ancienne présidente du MEDEF)
Claude Perdriel (363e fortune française, industriel, homme de presse, propriétaire de Challenges)
François Pérol (banquier, président du groupe BPCE, ancien conseiller économique de Nicolas Sarkozy)
Matthieu Pigasse (banquier d’affaires, directeur de la banque Lazard en France et responsable des fusions-acquisitions au niveau mondial, copropriétaire du groupe Le Monde)
Stéphane Richard (PDG d’Orange)
Marc Simoncini (326e fortune française, entrepreneur, fondateur de Meetic)
Bernard Tapie (400e fortune française, homme d’affaires, ancien ministre PS sous François Mitterrand)."

Esta lista é o cordão umbilical que o liga aos Patrões e ao Dinheiro. Esta lista é aquela que François Hollande prometeu combater no discurso de Le Bourget, e que "esqueceu" e explica a derrota do PS.

Yakob Levi disse...

Senhor Embaixador, não podia concordar mais. Macron é o resultado de uma conjuntura única. Mas isso também reflete uma alteração profunda em França (na Europa?). Os Franceses já gostam de arriscar o seu voto fora dos partidos tradicionais. Por um lado isso pode ser bom. Por outro, muito perigoso...
Devo confessar que, quando há uns anos os partidos extremistas anti-sistema (de direita e esquerda) começaram a ganhar terreno, eu pensei que era da crise económica e financeira (em casa onde não há pão...). Julguei que em cenário de crescimento económico estes partidos voltavam a reduzir-se. Vejo agora que estava errado. Já em cenário de crescimento económico em Portugal, nas eleições de 2015, CDU e BE tiveram cerca de 20% dos votos e no mesmo cenário em França, a FN arrecadou quase 1/4 dos votos.
Já nem falo do referendo no RU, das Presidenciais nos EUA, das legislativas Holandesas...

Anónimo disse...

caro Freitas

esqueceu-se de dizer que o Patrick Drahi tb é o dono da PT e que o Bolloré ja anda por ca...

cumprimentos

Anónimo disse...

Não "percebo" a lista do Sr.Freitas.

Estará a fazer uma lista do tipo Estaline ?

Francisco Guerra Tavares disse...

Joaquim Freitas explica preto no branco donde vem o candidato, agora presidente, de quem nunca ninguém tinha ouvido falar. Excepto talvez a propósito da famigerada lei Macron dos despedimentos/flexibilização. Qual a governabilidade que Macron vai pois trazer? Mais do mesmo? Que credibilidade deve merecer alguém que, no mínimo, tira partido do caso François Fillon que não fez nada de ilegal, que pode ter feito algo que a maioria da população considera imoral, o que não é a mesma coisa. O papel do Estado é o de punir o crime e não o pecado, uma vez que este tem a ver apenas com a consciência de cada um. O candidato Fillon pode ter cometido um pecado, mas em nenhum caso, cometeu um crime, porque o que fez estava autorizado por lei.
Pelo contrário, se alguém utilizou a justiça, ou os media, para distorcer os resultados da eleição, então isto é certamente um crime e todos deveriam ir para a cadeia se for possível prová-lo. Se a realidade é que se pode levar Fillon a tribunal, embora sendo certo que, eventualmente, não haverá necessidade, uma vez a eleição passada, e se os meios de comunicação se juntam à matança uma vez que todos eles estão dependentes dos membros proeminentes da sociedade, então provavelmente é saudada a chegada triunfal de um homem "novo", sem história pessoal, sem se ter nenhuma ideia dele, de que ninguém sabe de onde veio, deixando para trás um homem honrado destroçado, com a sua família, à beira da estrada. A ver em Junho como falarão os franceses nas eleições legislativas.

Joaquim de Freitas disse...

Anonimo das 20:19 : Tem razao, esqueceu-me de os notar, mas conhecia. Obrigado. Cumprmentos.

Joaquim de Freitas disse...

O comentador anónimo nostálgico das 21:28 confunde a lista "Estaline" com a lista McCarthy
Como vivo em França , como todos aqueles da minha lista, não corremos o mesmo risco que Charlie Chaplin nos EUA .

Anónimo disse...

Não sou nostálgico, não percebeu a ironia....pensamentos encaixotados/nostágicos são os seus....

Joaquim de Freitas disse...

Até é capaz de ter razão : talvez não tivesse percebido que havia uma ironia no que escreveu... Desculpe.

Vou continuar "encaixotado" com os meus pensamentos, que neste momento são compartilhados com mais ou menos 18 milhões de Franceses...

Joaquim de Freitas disse...

Desculpem por favor, mas que se passe tanto tempo a discutir dum tema que ninguém poderá afirmar com certeza a sua existência, enquanto que, desde o instante exacto em que o Senhor Embaixador escreveu sobre o sujeito, morreu, de fome, segundo a FAO, uma criança todos os 6 segundos, o que representa 5 milhões de crianças mortas por ano, por esta razão particularmente revoltante, mas que 886 milhões de adultos morrem pela mesma razão, durante o mesmo tempo, acho que se ultrapassou o limite da decência.

A humanidade desde tempos imemoriais que cultivou cereais. Mas há uns tempos para cá decidiu de os dar a comer aos animais, em vez dos humanos que morrem de fome.

Raio de mundo, onde temos bastante religião para nos odiar, mas não que chegue para nos amarmos uns aos outros.