segunda-feira, 1 de maio de 2017

Primeiro de maio

Tinha uma "Légion d'Honneur", discreta, gasta, como deve ser. Quase 90 anos. Estava sentado ao nosso lado, nas mesas do fundo da sala de baixo, hoje, no almoço do Stella. "Cabillaud" e uma "carafe" de vinho da casa. De repente, a língua diferente aproximou-nos. Ao saber-nos portugueses, do "cabillaud" passou-se ao bacalhau. E depois a Salazar ("un homme remarquable") e aos "oeillets rouges" dos comunistas. Quando enveredou pelas "concierges portugaises", concentrei-me de vez no "fillet de boeuf saignant, sauce bernaise". Intervalo. A certa altura, entre nós, falou-se do Trocadéro, ali perto. Ouvida a palavra, não resistiu: "J'y étais, l'autre jour, avec Fillon", esclareceu, sem necessidade, para o nativo do "XVIème" que era. Claro que estivera no comício de Fillon, onde Juppé foi tido como "le candidat de la gauche". Tentei, por uma última vez, evitar a atualidade, fugir à controvérsia. Falei-lhe, admirativo, da condecoração que tinha ao peito: "Le Général! C'est lui qui me l'a donnée." Mas derivou, de novo, para a política dos dias. "Tout ça c'est la faute de Mitterrand". Animado pelo Bourgogne, lancei: "Quand même, avec lui, les chars soviètiques n'ont pas descendu à la Concorde!", recordando o que dizia a direita assustada, nesses anos 80. Não topou. "Hollande c'était un imense désastre! Un salaud! Et l'autre, ce Macron c'est bonnet blanc, blanc bonnet". Lembrei-lhe que Macron vinha do Banco Rothschild... como Pompidou. O imenso Baba au Rhum que comia ("soyez généreux" com o rum vertido, havia ele pedido ao empregado, rindo) tremeu com a pequena provocação. "Il faut le stopper, Monsieur!" Disse-lhe que era turista, que não tinha nada a ver com o que se passava, mas que tinha uma curiosidade: "Et le Géneral? Qu'est-ce qu'il penserait de la possibilité de voir une Le Pen à l'Elysée?". "Cher Monsieur, tout ça c'est trop serieux pour des plaisanteries". "Mes hommages, madame", disse ele para o outro lado da minha mesa. E saiu, com a bengala cheia de tentações. Que raio de 1° de maio em Paris!

5 comentários:

Anónimo disse...

Só há duas maneiras de fazer Política: mentir e omitir.

Anónimo disse...

béarnaise
https://fr.wiktionary.org/wiki/bonnet_blanc,_blanc_bonnet
http://www.gillespudlowski.com/80047/restaurants/stella-16e-une-valeur-sure

Então o embaixador vai almoçar a esses sitios estava à espera de quê? ainda ha não muito, durante a campanha eleitoral para a Marie de Paris, NKM (Nathalie Kociusko-Morizet) uma chefe de fila do Sarkozy n'Os Republicanos, comparava a rival de origem espanhola, Anne Hidalgo, a uma concierge. Isto dito por alguém da mais alta casta, que hoje em dia sera toda pro-Macron.
Alias pensar que o racismo francês se restringe às boçalidades de alguns dos apoiantes de Marine Le Pen é ver tudo muito curto (tudo isto vexa sabera, como é evidente)

http://www.slate.fr/story/141983/declassement-diplomes-inegalites
http://lentreprise.lexpress.fr/rh-management/management/le-management-a-la-francaise-vu-par-les-etrangers-on-ne-se-fait-pas-confiance_1898647.html

O desgaste da sociedade francesa é de tal ordem que poucos são os que nela estão felizes ou realizados. Uma vitoria de Marine ou do Manelito não alterara nada, ou pouco, parece-me a mim. O resultado mais importante sera o das legislativas, que dara muito provavelmente uma França ingovernavel, e onde o apelo a não votar nos extremos não sera seguido, pois ja todos terao tido o cuidado de votar Macron a contragosto para a segunda volta das presidenciais (dai eu não entender a estratégia de JLM, tera sido para permitir ao PS de sobreviver? JLM tinha a oportunidade unica de chegar o FDG ligeiramente à direita e ocupar o espaço politico do pouco PS que sobreviveu a Macron e a ele mesmo.)

Mas o que me espanta, no meio disto tudo, é a sua surpresa... "Que raio de 1° de maio em Paris"... ainda ha pouco escrevia loas a viver em Lisboa, por alguma razão seria!...

cumprimentos

Anónimo disse...

Não são os habitantes do XVIème que me fazem não ir tão cedo a Paris onde vivi uns anos[6]. Não os conheci porque não quiz. A malta desse "arrondissement" é mais um folclore parisiense, tal como Pigalle. Ou seja não se frequenta.
Tão cedo não voltarei porque o que eu conheci já nada existe por isso não sendo nostálgico é melhor não conhecer a realidade actual. Nesses anos só não gostei da arrogância de Mitterrand pela sua suposta sabedoria da vida. Enfim.....

Joaquim de Freitas disse...

“Un Monsieur vieille France”…o vosso vizinho de mesa, Senhor Embaixador ! Na sua biblioteca trona Charles Maurras, talvez a obra coompleta de François Mauriac .
A sua “Légion d’Honneur”, coitado, foi bem desvalorizada, desde o tempo em que a recebeu das mãos do General… Entretanto “ beaucoup de voyous” a tiveram, entre os quais a Arábia Saudita, eleita na Comissao da Condiçao da Mulher das Naçoes Unidas.. A Arábia Saudita país que aplica a charia … O nosso compatriota Gueterres deve ter sofrido do ventre na sua cadeira de Secretário Geral.


Anónimo disse...

António Ferro, há 80 anos” – "povo de brandos costumes" .....por enquanto !.....os portugueses !