domingo, 7 de maio de 2017

O Nuno e o MAR

O Nuno Brederode dos Santos foi militante do MAR, o Movimento de Ação Revolucionária.

O MAR nasceu no início dos anos 60, tempo de grande agitação política e académica, muito marcado pela experiência cubana e por várias outras vivências revolucionárias. Não se confundia com o PCP, nem tão pouco com a extrema-esquerda maoísta que então borbulhava. Tanto quanto julgo saber, o MAR reuniu apenas algumas figuras da intelectualidade, em especial lisboeta. Nuno de Bragança, Manuel de Lucena, João Cravinho, Bénard da Costa e alguns outros integraram essa estrutura clandestina de cuja ação prática e concreta a História acabou por não recolher grandes notas. O MAR, contudo, viria a integrar a FPLN (Frente Patriótica de Libertação Nacional), criada em Argel. 

Ouvi uma história (terá sido ao Nuno?) segundo a qual, numa ocasião de alarme por iminente repressão policial, João Bénard da Costa terá enterrado umas caixas metálicas, contendo documentação sensível do MAR, numa certa zona da serra de Sintra. A precipitação com que essa ocultação foi feita, durante a noite, fez com que, tempos mais tarde, ao procurar esses arquivos, nunca mais tivesse conseguido descortinar o local do esconderijo. Assim, só o futuro trará um dia ao mundo essa prova documental sobre a robusta ação do MAR.

Um dia, o Nuno contou-me que foi destacado pelo Movimento para ir a Roma para um encontro clandestino com uma pessoa, uma mulher, que ele devia procurar numa determinada direção. Ela chamava-se "Raquel" - nome da clandestinidade, claro - e ele devia identificar-se como "Norberto" (inventei agora estes nomes, porque não fixei os que o Nuno me disse).

O Nuno bateu à porta, surgiu uma mulher muito bonita a quem perguntou: "É a Raquel?" Ela disse que sim, inquirindo: "Você é o Norberto". Estabelecido o contacto, passaram a uma sala, para tratar dos graves assuntos políticos que tinham motivado a deslocação.

E agora ficam as palavras do Nuno: "Ao final de cinco minutos de conversa, usando o "Raquel" e o "Norberto", demo-nos conta do ridículo da situação. Ali estávamos nós, sozinhos numa sala de Roma, a utilizar pseudónimos revolucionários, quando ambos nos conhecíamos de Lisboa. Ela era a Maria Carrilho... Acabámos numa risada!"

Há uma semana, no sábado em que o Nuno morreu, telefonei de Paris à Maria Carrilho, que tinha acabado de chegar a Lisboa, vinda de Nova Iorque, a dar-lhe conta de que acabara de perder o seu interlocutor clandestino de há mais de meio século...

3 comentários:

patricio branco disse...

maria carrilho, a sra que foi do ps e durante algum tempo deputada à ar, uma sra elegante e bonita, uns esplendidos cabelos, deve ser essa a raquel que foi visitada pelo norberto, assim se actua nos bas-fonds das resistências, nomes de código, senha e contra senha, a sra é psiquiatra ou psícóloga clinica, se é que é a mesma, em que rua de roma seria o encontro de serviço...e não deve haver quem agora depois de ler o post não vá procurar o tesouron documental enterrado na arrábida, talvez exista ainda quem sabe + ou - do sítio, sim, etc etc

Anónimo disse...

Acho que Maria Belo e Maria Carrilho não gostariam de ser confundidas.

Anónimo disse...

Acabo de ler a triste noticia. Conheci Nuno B Santos com a proximidade que a tropa nos deu na A Militar durante um ano
Vivemos em comum aquela aventura . Pessoa imesquecivel pela sua cultura e irreverencia dialogante.
Estou muito triste. Ontem foi B B hoje soube do Nuno. Maldito Maio.