segunda-feira, 8 de maio de 2017

De trincheira em trincheira


Em 2000, a Europa chocou-se com a ascenção minoritária ao poder, na Áustria, de um partido de extrema-direita. Viena foi posta de “quarentena” e o episódio parecia ter funcionado como uma vacina para garantir que essa sombra negra não mais regressaria.

Dois anos mais tarde, Jean-Marie Le Pen, o negacionista desculpabilizador do colaboracionismo, chegou à segunda volta presidencial em França. A “frente republicana” ergueu-se, chocada, e votou Chirac. A Europa regressou ao “business as usual”.

Ontem, um candidato atípico, com o pé e a gravata dentro do sistema, mas contestando os representantes tradicionais deste, derrotou um “remake” edulcorado do pai Le Pen, em quem bem mais do que um em cada três franceses já hoje confiam.

Vamos recuando, de vitória em vitória, até à trincheira da derrota final? Ou alguém tem dúvidas de que, se tudo continuar na mesma, a agenda populista mantem todas as condições para crescer, tendo mesmo como farol os EUA, onde uma política de extrema-direita (não tenhamos medo às palavras) faz o seu imperial caminho?

Derrotar Le Pen ou Wilders, travar o AfD e fazer frente a Orbán, contestar Trump ou denunciar o primarismo por detrás do Brexit, tudo são passos necessários mas insuficientes. Se a Europa - porque as respostas ou são europeias ou não serão verdadeiras soluções – não for capaz de apaziguar o mal-estar das pessoas, acalmar os seus medos, atenuar as suas múltiplas inseguranças, gerando confiança no futuro e nas lideranças de turno, daqui a meses regressaremos a uma nova trincheira.

Será Macron capaz de impulsionar diferentes políticas europeias? Mas que autoridade externa pode vir a ter alguém que passa a liderar um país em evidente perda de velocidade competitiva, um dos “doentes” mais notórios da Europa, atravessado gravemente pela “malaise” que aduba os extremismos, de esquerda ou de direita? Até que ponto Angela Merkel estará disposta, na iminência do abismo europeu, a ajudar a França a com ela pilotar soluções diferentes para o futuro imediato?

Dentro de seis semanas, ver-se-á com que maioria parlamentar Emmanuel Macron poderá vir a governar. Se o seu movimento “En marche” não vier a ter um espetacular e pouco provável sucesso maioritário no sufrágio, terá que constituir uma coligação heteróclita que dificultará a colocação em prática do seu programa. Na oposição, terá um Front National que tem condições de sair desse mesmo sufrágio como o maior partido de França e uma esquerda que pode vir a ter mais força nas ruas do que no parlamento.

Macron terá assim meses difíceis à sua frente. Por um lado, procurará potenciar as hipóteses do “En Marche”, dramatizando a crise de governabilidade que pode aí vir. Contudo, terá de fazê-lo não hostilizando demasiado o “Les Republicains” de Sarkozy, bem como alguma esquerda mais moderada, de cuja boa vontade pode vir a necessitar para não ficar refém exclusivo da direita. É um caminho muito estreito que não se pode excluir que venha a conduzir, no fim de contas, a uma maioria pouco coerente, titulada por um primeiro ministro que, dependendo do sentido ideológico prevalecente, poderia ser (da direita para a esquerda) François Baroin, François Bayrou ou Gérard Collomb.

Mas tudo isto não passa de especulações de um analista que só tem uma certeza: um fracasso de Macron e uma crise política em França, a curto prazo, seria uma péssima notícia para a Europa. E, claro, para Portugal

13 comentários:

Anónimo disse...

Completamente de acordo.

cumprimentos

Anónimo disse...

Desta...... talvez seja ainda apenas um corte epistemológico "soft" para não tirar a população da sua área de conforto. Quando tudo ficar "bumpy, for us to have to fasten our seat beltes" logo veremos.

De toda esta "estória" nota-se que há qualquer coisa que não está bem no "Reino da Dinamarca."

Anónimo disse...

"“Vamos ver como corre a vida a este PRD do sr. Macron”, brinca, em alusão ao partido de Ramalho Eanes, que nos anos oitenta abriu o centro em Portugal.", in Sol Online.

Esperemos que não exista nenhuma Costite, doença infantil do séc XIX.....

Anónimo disse...

E, mais uma vez, "ai a extrema direita, ai o papão da extrema direita!". E o que vemos? Não conseguem nunca chegar ao poder. Já cansa!

Anónimo disse...

Era bom que o Bernardo Pires de Lima começasse a ler algumas coisas sobre França. O rapaz parece deslumbrado, esquecendo-se que a realidade parisiense nao corresponde à realidade francesa. 11 milhoes de votantes por Marine Le Pen, 40% dos votos de Macron sao contra a MLP

"Amanhã quero isto tudo limpinho" diz o doutorando, a proposito de uns stenceis contra o Macron e a finança. WTF?

11 milhoes mais 7 milhoes faz 18 milhoes de votantes que estarao amanha contra Macron, e Macron com um numero de votos inferior aos que MLP tera se tiver todos os votos da segunda vola

Mas BPL insiste, ao contrario do caro anfitriao , em nao falar dos problemas que levaram a que 11 milhoes votassem MLP. Insiste em falar em Putin, como se Putin, Trump e afins chegassem para explicar a subida do FN. Putin, Trump, sendo um problema sao antee de tudo um sintoma, nao sao o problema essencial. Nao entendendo a gravissima crise economica e social que afecta a França ( e nao so), BPL vende a useira teoria acritica da europa de plastico atlantista etc e tal esquecendo-se de analisar os problemas com a profundidade que um soit-disant analista deveria fazer.

Os franceses nao precisam de interpretes, e BPL dentro de pouco estara noutro qq sitio para fazer mais uma analise profunda para alimentar os seus fins do mes. Faz ele bem, eu é que por malheur insisto em confundir o IPRIS com o IRIS...


cumprimentos

Rui C. Marques disse...

Não sei porquê,mas talvez a psicologia possa explicar,dou por mim a pensar n"A Morte de Danton" de Buchner.

Joaquim de Freitas disse...

Existe uma tendência humana muito natural a continuar a experimentar fazer as coisas que puderam funcionar em nosso favor mesmo após que estas cessem de o fazer.
E é fácil de por em evidência entre as fraquezas e fragilidades humanas recusar de reconhecer a realidade, fazer votos piedosos, sonhar de castelos na Espanha …
Por vezes é difícil de discernir nesta tendência uma estratégia sã…porque ela é superior a toda alternativa disponivel.

Ontem, o novo presidente prometeu o contrário dos castelos na Espanha. O facto é raro num momento de euforia vitoriosa. E mesmo se foi a” Ode à Alegria” de Beethoven , numa clara alusão à Europa, que acompanhou a sua entrada no Louvre , creio que Macron deve ter pensado também, que não longe de lá, na praça da Concorde se decapitou o rei de França.

Porque sabe que “est attendu au tournant” e talvez mais que todos os presidentes precedentes da V°.. Republica ….

O fascismo jà não està às nossas portas. Até à próxima vez. Porque tenho receio que vamos retomar o fio, interrompido por um momento, da única politica possível, o neo liberalismo sem complexos, esta politica que desde os “Chicago Boys” de Chicago, ao Chile de Pinochet permitiu às damas e senhores Reagan, Thatcher, Gonzalez, Sarkozy, Merkel, Valls, Hollande, de evitar o pior ao seu povo : a “extrema esquerda”, o populismo, o “castro-chavismo”, todos estes sonhadores que crêm nas velhas luas da “revolução” e da luta de classes.

Estou de acordo que não se deve confundir justiça social e laxismo, porque existe algum, sempre, no Estado social. Mas seria grave que se confunda progresso e caridade, riqueza e património, sofrimento e gozo, dor e masoquismo, cólera e terrorismo.

Ontem à noite, as « oposições » puseram-se imediatamente em” desordem” de batalha. Os 11 milhões de Le Pen, mais os 4 milhões de votos brancos ou nulos, fazem 15 milhões que justificam o nome que jà deram às eleições legislativas : - A Mãe de todas as batalhas.

Anónimo disse...

É estranho que o senhor Embaixador, que conhece tão bem a França, não acentue as particularidades deste país no cenário do tal “abismo” da Europa. Temos um país com 67 milhões de habitantes. 10 milhões votaram na Marine. O Macron teve o dobro. Em 101 departamentos, a Marine só ganhou em dois. Esta, por sua vez, como se sabe, para ter mais votos teve de suavizar o discurso do partido, distanciando-se do pai, o que significa que sabia bem que uma grande parte dos seus votantes não aceitaria a xenofobia pura e dura do pai. Não é preciso pensar-se muito para concluir que a França não é a Hungria e nem sequer é a Holanda e a Austria.

Anónimo disse...

Isto faz-me lembrar uma entrevista surrealista de um reporter da BBC ao responsável pelas comunicações da Le Pen, quando já se sabiam os resultados. O repórter, com aquele bom common sense que alguns ingleses ainda conservam, tentava fazer-lhe ver a evidência da vitória clarissima do Macron. Mas o homem conseguiu fazer essa coisa extraordinária de transformar a derrota da chefe numa vitória.

patricio branco disse...

outros tempos, 2000, parece que o sr depois faleceu num acidente de automovel, foi um escandalo o voto dos austríacos, pois, nunca os percebi bem, disfarçam mas quem são no fundo os vizinhos da alemanha que falam igual.
pois as contas arranjam-se segundo as conveniências, 11+4 dão 15.
mas tudo isto só agora começou, macron que mostre que não é nenhum micron, que trabalhe com energia que muita de deve ter pela juventude...

Anónimo disse...

ASCENSÃO, Senhor Embaixador. Não tem nada a ver com acordos ortográficos

Prata do Povo disse...

Vemos tempos atribulados onde verdadeira política se faz nos corredores internacionais. Dai que possa surgir uma guerra, caso o antagonismo continue a avançar, associado ao pensamento sectário que avança nas no nosso quotidiano.
A agonia internacional não se mede em semanas, meses ou trimestres. Numa tirada genial May sob adiar as negociações do Brexit. O Brexit tem de ser negociado mais para além da primavera do ano que vem. Com ou sem apoio parlamentar a batalha de Macron não é jogada em casa.
O grande pontapé de canto dá-se com a Vitória fraca de Merkel. Que criará uma crise política na Alemanha sem par pois o SPD está cansado e a sua imagem avisa já ruir. Por outro lado, Merkel está velha, e já todos sabem advinham as suas soluções de raposa.
Putin vai tentar adiar um confronto na Ucrânia e na UE porque ele já percebeu que a agonia da UE vêm de dentro e é mais destrutiva que qualquer incentivo.
A UE vai começar a criar campos de concentração no Saará e isso ficará para a História como tal embora nós ainda não queiramos chamar as coisas pelos palavrões.

Mas o embate de Macron será nas vésperas da saída concreta do RU da UE. Nessa altura haverá um confronto instituicional com os estados e estados contra estados de forma brutal, mesquinha e sectarista. Macron tem poder para vingar a posição de prestígio da França. Pois tenho sérias dúvidas.
Com a humilhação da passagem da França, a única nação vencedora da II GM, a mero peão da UE, subjugada ao maquiavelismo alemão, seu gato-sapato, a grave crise económica, aumentada com a saída forçada do RU, com as lutas sindicais, dos agricultores, dos operários das industrias do séc. passado, como poderá alguém meter a mão no fogo por Macron?
Todos esses deputados que Macron faça eleger cegamente não o seguirão como cães de guarda ao ver o seu inédito decair nas ruas?
O RU face à infantilidade da CE de o tentar destruir, até dividir territorialmente não terão umas amargas surpresas para a UE, no sentido mesmo de a enfraquecer internacional e internamente? Obviamente que sim!
O Sr. Embaixador diz bem, vamos de caso em caso até à trincheira da derrota final.

António Ferreira disse...

"...ascensão..."