sexta-feira, 5 de maio de 2017

Cri de coeur


Uma vitória de Marine Le Pen "significaria o fim da União Europeia porque a UE, sem a França, não faz sentido. E significaria o colapso do euro e a crise financeira, com consequências através do mundo". Quem disse isto não foi uma pessoa qualquer, foi Gérard Araud, embaixador francês em Washington. Acabo de ler na Newsletter diária do Washington Post. 

Pode um embaixador ter propósitos destes, hostilizando abertamente uma candidata que a vontade popular francesa poderá conduzir à chefia do seu país? 

Araud, um excelente profissional, que conheço bem (era diretor político do Quai d'Orsay quando eu era embaixador em Paris), tem, com certeza, a plena consciência de que está a ultrapassar a "linha vermelha" da neutralidade que aos servidores públicos incumbe ter perante as escolhas democráticas. As eleições em França decorrem em total liberdade, sem o menor condicionamento, pelo que não há a menor dúvida de que a resultante final do sufrágio, qualquer que ela seja, corresponderá à livre vontade do povo francês. Por isso, Araud prevaricou, de acordo com as regras estabelecidas e que lhe cumpria cumprir.

Mas eu percebo Gérard Araud. Um diplomata não é um eunuco político, é um cidadão que sente os problemas do seu país e, provavelmente, tem mesmo uma leitura mais qualificada do efeito externo das escolhas internas. E ele pressente que, se a França viesse a escolher Le Pen, isso teria um impacto muito negativo para a imagem e prestígio do seu país. E escolhe dizê-lo.

Ao tomar esta atitude, Araud sabe que, em caso de vitória de Le Pen, a sua "cabeça" rolaria e, muito provavelmente, teria de deixar o serviço diplomático. Por isso, pelo facto de um dos mais prestigiados diplomatas franceses ter ousado abandonar a neutralidade a que a função o obriga, dando este "cri de coeur", pondo em risco a sua carreira, pode ter-se uma ideia mais clara da gravidade da escolha que os franceses serão chamados a fazer no domingo.

12 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Não se pode votar por Marine le Pen por razoes evidentes, que não é necessário desenvolver.

Mas ao votar por Macron, como fiz e vou fazer, tenho bem consciência que este é o representante da oligarquia financeira que quer continuar a comandar sem partilha.

Basta ver quem o assiste e o apoia. Os média, geridos pela oligarquia e os editorialistas olham-no com olhos de amor..

Na realidade Macron está envolvido por tudo o que a política anti popular desde há cinquenta anos soube criar como dirigentes reaccionários, isto é toda a direita, uma parte da esquerda, todo o centro. “Anti fascistas” conhecidos como Gattaz, presidente do Medef ou Laurence Parisot, antiga presidente. O progresso social está em boas mãos !

Impressionante, que de Berlim a Nova Iorque, a Telavive, à NATO, a oligarquia mundializada disse presente! Mesmo Obama !

Claro que me inquieta o facto que pretenda governar por decretos, as famosas “ordonnances” que se assemelham a “kalachnikovs” prontas a fazer fogo. Neste caso, as eleições legislativas vão ser renhidas…

Evidentemente, entusiasma-se pela UE que é precisamente o sindicato da oligarquia, e apoia a mundialização, as duas mandíbulas a triturar os interesses populares.

Estas eleições provam mais uma vez que a burguesia, permite-nos de escolher um Presidente, mas sem nos permitir de escolher uma politica.

Enfim, havia uma outra oferta, mas capotou …O povo não quer correr riscos com a esquerda radical, e o espanta pardais da Marine empurrou-o para Macron… Assim terá o mesmo, do mesmo…que antes! E talvez mais ainda ....

A não ser que, as legislativas criem outra França. E o Senhor Embaixador tem razão: Segunda feira, a França e talvez a Europa não serão as mesmas.

A democracia em actos. Macron já sabe que no 8 de Maio, a frente de luta vai alargar-se, e que as legislativas não serão para ele um longo rio tranquilo…

Le Pen fora de combate ( se não houver surpresas!), aqueles que votaram útil mas sem convicção, vão procurar defender as ideias contidas no programa “O Futuro em Comum”. E quanto mais deputados houver mais o país resistirá aos “ukases” da finança.

Na união, os militantes progressistas trabalharão para uma maioria que consiga retirar a França da crise económica e social.

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador quando os estados de alma levam um profissional da diplomacia a esse cri de coeur algo não está bem, Há lugares em que esse cri de coeur corresponde à necessidade de sair pelo próprio pé...

patricio branco disse...

certamente que o embaixador gérard araud, no caso da vitória de martine le pen, se demitiria logo do cargo ou, mesmo possivelmente, da carreira diplomática, por iniciativa própria. mostra-se assim com o que escreve um profissional com sentido de estado que serve o governo actual mas que não aceitaria qualquer governo para a sua frança ou, por otras palavras, usando as do post, que não é um eunuco político.

JS disse...

Com a mesma propriedade poderia um outro Embaixador afirmar:

"Uma vitória de Macron "significa o fim de esta União Europeia porque esta UE, com tal França, não fará sentido aos franceses. Renascerá o clássico chauvinismo. E significará também o colapso do euro e a crise financeira, com consequências através do mundo".

A ver vamos qual o formato do fim de esta UE/Juncker. JS

Anónimo disse...

Continua a "lavagem das mãos".

Anónimo disse...

Nao sendo exactamente a mesma coisa, o argumento do voto em Macron , que seria sem duvida a minha escolha, é bastante similar aquele que me faz preferir o regime de Assad a qualquer outro dos pretendentes que até agora tem aparecido por aquelas bandas.

Anónimo disse...

Araud não é o primeiro. Há algumas semanas, o Embaixador de França em Tóquio já havia dito publicamente que se demitiria em caso de vitória de Le Pen.

JPGarcia

Anónimo disse...

É sabido que os diplomatas devem cumprir instruções do seu governo.

Pelo menos era isto que era entendido desde tempos imemoriais.
Até nos tratados, entre países, tinha de ser feita a sua ratificação pelos chefes de Estado respectivos para garantir a sua aceitação mutua depois de negociações longas, durante as quais não era fácil ter instruções contunuadas
Hoje....se calhar os diplomatas, teem de dizer de sua justiça. Enfim... mais um sinal negativo quanto a este tempo. Cada cabeça cada sentença.

Mal por Mal disse...

Os ovos "democraticamente" lançados sobre a filha de Le Pen, são podem ser votos inesperados para a senhora.

Tal como foi uma certa lambada da Marinha Grande.

Anónimo disse...

Como sou não-politizado a minha cabeça às vezes divaga perigosamente.

Será que.....

França é conhecida pelo país que mais gosta de segredos. Segredos quanto a isto, quanto àquilo, e quanto mais segredos se sabe mais se domina a assistência. Há até segredos que só podem ser revelados sobre uma qualquer pessoa, mas só depois da sua morte....

Será que entre tantos segredos nao haverá uma sociedade secreta que tenha conseguido criar a cena que os eleitores franceses vão ter pela frente, amanhã no momento de entregar o envelope, no recato do acto eleitoral.
Dá que pensar.....
Isto são apenas divagações para justificar o impensável.

Anónimo disse...

Gérard Araud é o novo conselheiro diplomatico de Macron. Ça a ęté Payant!

Anónimo disse...

Araud digo Philippe Etienne.