quinta-feira, 6 de abril de 2017

Virgílio Varela



Conheci o Virgílio Varela em outubro de 1974, quando, depois da dissolução da Junta de Salvação Nacional criada em 25 de abril, onde eu assessorava o general Galvão de Melo nas questões da extinção da PIDE/DGS, fui trabalhar para a 2ª Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas, chefiada pelo então brigadeiro Pedro Cardoso. 

O Varela, como lhe chamávamos, era por ali uma figura agitada e sorridente, sempre bem disposta, de convívio muito agradável, com o seu sotaque madeirense, trabalhador como poucos. Naquele curioso espaço no topo do Palácio da Ajuda (contar a história daqueles meses e de muita gente que ali operou nesses meses "da brasa" dava um belo livro), ambos então sob as ordens diretas do major (depois general) Espírito Santo, vivia-se uma "guerra" feliz, combinando alguma gente mais à esquerda (onde eu me situava) com quantos se mostravam inquietos com o ritmo da Revolução (como era o caso do Virgílio Varela).

(Era um tempo em que havia tempo para tudo: eu trabalhava desde as 8.30 da manhã na Ciesa NCK, ia almoçar à messe de Pedrouços e, entre as 13 e as 19 horas, "fazia a tropa" no EMGFA. Pelo meio, nesse ano de 1975, escrevi com um amigo um livro sobre "O caso República" e ia fazendo as provas de admissão ao MNE, onde ingressei em Agosto.) 

O Varela trazia colada à pele a imagem da heroicidade que revelara nas Caldas da Rainha, em 16 de março desse ano, quando prendeu o comandante do regimento, amotinou a unidade e comandou a coluna que procurou chegar a Lisboa. Como consequência do movimento ter falhado, foi depois preso por algum tempo na Trafaria, de onde sairia no 25 de abril, em que logo teve atividade operacional relevante. Era tido como um fiel spinolista, sendo que o nosso trabalho em conjunto se processou já após a demissão de Spínola de Presidente da República, em 28 de setembro de 1974. Na sequência do 11 de março de 1975, voltaria a ser detido, por algumas semanas, por acusações de implicação no golpe que Spínola encabeçou nessa data.

Perdemo-nos de vista durante muitos anos. Voltei a encontrá-lo apenas uma vez, num café, já depois dele ter sido comandante da PSP de Lisboa. Falámos e eu aproveitei para "arrumar" algum "misunderstanding" que sentia que havia sobrado entre nós, na sequência da confusão do 11 de março, da dissolução da 2ª Divisão do EMGFA e da criação do SDCI (que eu passei a integrar, enquanto ele estava preso). Acabámos a conversa, franca e leal, com um abraço de amizade, coisa que agora não poderemos repetir. Morreu ontem esse generoso capitão de abril, que, para a História democrática, ganhou as sua esporas revolucionárias ainda no mês de março de 1974.

5 comentários:

Anónimo disse...

A história não vai registar estas "pequenas" coisas, Mas é pena!...

Anónimo disse...

DCSI, percusora da famosa 5ºDivisão comunista, dirigida pelo camarada Ramiro Correia.

Francisco Seixas da Costa disse...

DCSI? Ou SDCI? E o que é que tem a ver o SDCI com a 5ª divisão? O anónimo das 13.58 tem de estudar melhor a história dos tempos de 1975. Há muita coisa publicada sobre isto.

Anónimo disse...

Para mim foi o maior Herói da implantação da Democracia (Salgueiro Maia, talvez o único que se lhe aproximou e, Jaime Neves tb) que a maioria das pessoas não sabe... Tive o previlégio de privar com ele amiúde, frequentador das nossas casas e ouvir a sua versão dos acontecimentos do 16 de março...por ex., as unidades afectas ao PC baldaram-se á última da hora, pois queriam a glória só para eles e, principalmente, entregar o Ultramar á sua esfera... Depois a canalhice de ser preso pelo colega de armas que sugeriu para o Conselho da Revolução, mais tempo do que no fascismo...
Todos os políticos lhe devem tudo, e alguns presenciei a sua admiração, Mário Soares e Alberto João Jardim, embora os seus nobres ideiais demasiadas vezes tenham sido subvertidos...
Um dos que fez o juramento do punho cerrado no Ralis contrariado...

José Carvalho disse...

O verdadeiro herói da Democracia que tão mal compreendido foi pelos portugueses...
José Carvalho