terça-feira, 11 de abril de 2017

O pingo de solda


Na minha infância, o meu pai contava uma história que, na minha família, ficou conhecida como "o pingo de solda".

Uma senhora queixara-se à polícia de que dois trabalhadores, que tinham ido fazer um trabalho elétrico a sua casa, se tinham envolvido numa acesa disputa, com agressões e insultos mútuos, diante dos seus filhos muito jovens. A cena fora tão violenta e a linguagem tão desbragada e vernácula que a senhora entendeu por bem chamar a polícia. (Estamos a falar de outros tempos, em que estas coisas escandalizavam). E os operários foram levados para a esquadra.

Lá chegados, os visados estiveram muito longe de confirmar a versão da senhora. E um deles explicou, cândido: "As coisas não se passaram assim. O que ocorreu é que o meu colega, o Alberto, que estava no alto de uma escada que eu segurava, soldava uns fios. Inadvertidamente, sem a menor intenção, deixou escapar da máquina com que trabalhava um pingo de solda, incandescente, que me caiu no pescoço. Confesso que isso me incomodou um pouco! Daí que eu tivesse exclamado: "Ó Alberto! Vê lá se, para a outra vez, tens mais cuidado! Nada mais!" "

O grau de plausibilidade da cena era mais do que evidente...

Tenho-me lembrado muito da história do "pingo de solda" ao ouvir as angélicas descrições sobre os desacatos produzidos por estudantes portugueses em hotéis no sul de Espanha. E também me vem à memória uma frase que, na minha terra, se usava para este tipo de energúmenos: "Quem te atasse um arado!"

2 comentários:

Nuno disse...

"(Estamos a falar de outros tempos, em que estas coisas escandalizavam)"

Quando Portugal existia.

Isabel Seixas disse...

De facto se trabalhassem... E ou do ponto de vista pedagógico reparassem os estragos e arrumassem o que desarrumaram, sem perder o casamento... Talvez aprendessem