terça-feira, 18 de abril de 2017

O passado é uma coisa muito séria

Nós, os portugueses, temos uma relação muito curiosa com o passado. País "com História a mais", vimo-la apropriada de forma despudorada pela ditadura, que a utilizou como pretenso fator da unidade nacional que pretendeu forjar em seu reforço, adubando o nosso orgulho nesses tempos da busca das Índias e dos Brasis, espalhando, na passada, "a fé e o império".
O Estado Novo, ao construir a sua narrativa sobre a "gesta" lusitana por mares e terras nunca dantes navegados ou pouco pisados, instilou-nos, parece que para sempre, a ideia mirífica de que o colonialismo português era "menos mau do que o dos outros", de que, ainda hoje, somos "menos racistas" do que as gentes dos restantes países, de que a miscigenação feita foi a prova provada da nossa tolerância, bondade e moderação enquanto povo. A teoria do "bom selvagem" foi, entre nós, substituída pelo mito do "bom civilizador".
No Portugal depois de abril, logo que exorcizadas politicamente as guerras coloniais através da independência das colónias, foi-se instalando subliminarmente, embora já em democracia, uma surpreendente leitura benévola do colonialismo lusitano. Há que perceber por que é que isso foi feito: tratou-se de uma espécie de compromisso para a reconciliação nacional, entre os que, agora já forçadamente por cá, tinham sofrido com o termo do período colonial e os anti-colonialistas, vitoriosos históricos. Essa leitura de compromisso, concessão destes últimos, conviveu sempre mal com exegeses mais rigorosas do normativo que Portugal impôs, ao longo dos anos, na sua dominação colonial, e que nos não deixam muito bem na fotografia (leia-se a obra de alguém como Charles Boxer para se ter uma ideia melhor disto). E, sejamos honestos, nos últimos anos temos assistido ao país (repito, democrático) a dar-se como que absolvido de todo esse passado, procurando esquecer os seus recortes sombrios, desde que a relação com os novos Estados saídos das zonas colonizadas se "normalizasse". Sem ironia: como se o MPLA e a Frelimo fossem os "legítimos representantes" dos escravos acarretados à molhada pelos negreiros para o Brasil.
Não sou um grande fã das "desculpas" históricas, dos arrependimentos no tempo presente por atos no passado, cometidos em contextos diferentes, à luz de valores da época. Mas há alguns limites para esse "relativismo". A escravatura, as desumanidades decorrentes de se não considerarem os negros como pessoas, da mesma maneira que mais tarde os crimes nazis, não podem nunca ser absolvidos através de uma contextualização benévola. Posso assim perceber o que Mário Soares disse sobre o tratamento dado aos judeus ou o discurso do Vel d'Hiv de Jacques Chirac, sobre o miserável colaboracionismo francês durante a ocupação nazi. E não posso senão saudar o que Emmanuel Macron, para surpresa de muitos, disse sobre o colonialismo francês na Argélia.
É nossa obrigação olhar para a frente, falar para as novas gerações, às quais é importante criar "alertas" éticos e humanistas, induzir noções concretas daquilo que fez avançar a História (como as descobertas), mas igualmente das tragédias que isso implicou (como a escravatura). A melhor defesa para tentar garantir Portugal como um espaço de tolerância, de aceitação da diferença, resistente aos cantos das sereiras populistas e radicais é falar do passado colonial abertamente: da genialidade do Infante ou da coragem de Gil Eanes no Bojador, mas também dos massacres de Wiriamu, da Baixa do Cassange ou de Batepá.
Fernanda Câncio, num excelente artigo no DN de ontem (que pode ser lido aqui), intitulado "Fomos sempre tão amigos dos pretinhos", põe o dedo no lugar da ferida onde ela dói mais. Fá-lo a propósito de uma deslocação do presidente da República a Gorée, no Senegal, um dos lugares mais emblemáticos da barbárie escravocrata. E do que ele por lá disse, que escandalizou muita gente, por alguma ligeireza na abordagem que então fez.
A jornalista tem toda a razão e ao presidente da minha República, cujo comportamento neste primeiro ano de mandato globalmente tenho vindo a saudar (com tanta ou mais autoridade quanto não votei nele), não consigo admitir que, ao enveredar por um tema com esta delicadeza, o tenha feito num registo impressionista que não está à altura do homem culto e sabedor que (felizmente) hoje temos em Belém. E que, como pessoa, é indiscutivelmente um homem sensível e humano.
Há uns anos, quando vivia em Paris, ouvi Nicolas Sarkozy fazer, em Dakar, um discurso vergonhoso sobre a realidade africana e o modo como a França (dele) a olhava. Lembro-me de ter então pensado que, se um qualquer dirigente do meu país ousasse um dia dizer aquelas coisas (Sarkozy pronunciaria, anos mais tarde, em Grenoble, infâmias de idêntico jaez, dessa vez a propósito dos estrangeiros e dos franceses "diferentes", na sua mimetização à extrema-direita), eu me sentiria profundamente envergonhado. Não foi nada disso que Marcelo Rebelo de Sousa disse, convenhamos. Muito longe. E, por essa razão, ao contrário de Fernanda Câncio, não fiquei envergonhado. Mas o chefe do Estado de um país talvez "com História a mais", tem de ser muito mais cuidadoso quando olha, no retrovisor, o nosso percurso coletivo. É que o passado é uma coisa muito séria.

28 comentários:

Anónimo disse...

e como dizia Mourão Fereira, ...que mesmo o passado é incerto...

L M D disse...

Como se diz por aí, " Nós demos luz ao mundo e depois cobrimo-la de lama." a colonização portuguesa deu muito ao mundo, mas também tem infelizmente muitas ações que nos enchem de vergonha.

Anónimo disse...

O estranho caso de uma sociedade que desapareceu.

Julho de 1973, manifestação de apoio ao Governo de Marcelo Caetano, após o regresso de uma visita a Londres, onde foi recebido por manifestações hostis de portugueses, liderados pelos socialistas do sítio e ainda de Mário Soares. Todos contra a guerra no Ultramar que queriam ver acabada o mais rápido possível, para entregar os territórios aos autóctones dos movimentos de libertação que então para nós eram apenas terroristas. Tal como aconteceu depois, a correr e sem cuidar dos interesses das centenas de milhar de portugueses que lá estavam e dos autóctones que queriam outra coisa que não o que tiveram depois: guerra civil e mortos sem conta.

O Portugal que a se manifestava aos milhares e milhares,apoiando Marcelo Caetano no seu regresso de Londres livremente, desapareceu como por encanto, na semana a seguir ao 25 de Abril de 1974, menos de um ano depois.

Para onde foram politicamente as pessoas que ali estiveram e as demais que não estando davam o apoio ao governo na sua política em relação ao Ultramar, por exemplo?

Como por um passe de mágica desapareceram do espectro político e mediático da época, substituídas precisamente por aquelas pessoas que se manifestaram em Londres, em 1973, contra Marcelo Caetano, particularmente os adeptos de Mário Soares.

Como foi isto possível, em tão pouco tempo?

Apenas devido a um fenómeno simples de explicar: propaganda política demasiado eficaz do PCP/MDP/CDE, sem oposição alguma de tomo, apoiada nos líricos do PS, MES, etc.

Toda a ideologia política, nem sequer organizada e corporizada antes naqueles milhares e milhares de pessoas que se manifestaram em apoio de Marcelo Caetano, desapareceu desse espaço, praticamente até hoje, com excepção de pequenos nichos de expressão que nunca se tornaram relevantes politicamente.

Aconteceu a Portugal uma verdadeira Revolução no pensamento político mais básico e muitos dos que apoiavam aquele Marcelo Caetano, passaram a apoiar aquele Mário Soares, como o demonstra o resultado das primeiras eleições para a Constituinte, em 1975.

Em 2017 apoiam a geringonça, a máquina trituradora da liberdade individual, origem da democracia, teremos mais uns edorgans, maduros, bajulados por aqueles bem acomodados á sua volta.

Não existe dinheiro, dá-se a volta aos problemas apresentando todos dias um espectáculo de circo medíático, tão ao gosto dos galambas, mortáguas, etc etc.

Siga o baile mandado !







Anónimo disse...

Apoiado.

José Neves

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Não é o Embaixador "um grande fã das "desculpas" históricas, dos arrependimentos no tempo presente por atos no passado, cometidos em contextos diferentes, à luz de valores da época"?

Pois, não parece: o Embaixador está constantemente a autoflagelar-se e flagelar-nos com esse passado, em particular aqueles, ainda vivos, que participaram na colonização - aos colonos e aos seus filhos!

Os colonos, bons ou maus, sem nunca disso sequer terem tido noção, foram civilizadores. Não foram para civilizar, atalhar-me-á. Claro que não foram com essa missão. Foram, no seu entender e de muitos, apenas para enriquecer, escravizar, roubar, saquear, esganar. Mas, no meu fraco entendimento da história, escravizando, roubando, saqueando, matando, e o que mais se quiser, civilizaram! Há alguma dúvida quanto a isso? Os romanos, ao seu tempo, também não ocuparam a península ibérica para a civilizar, mas civilizaram-na. O mesmo se passou com a ocupação árabe. Ainda hoje usufruímos dessa presença de séculos.

O colonos, caro Embaixador, quando partiram, com uma mala de porão às costas e os filhos ao colo, a pátria (par usar uma expressão tão explorada pela ditadura e tão desprezada pela Democracia) não lhes deu uma missão. Não se propuseram, muito longe disso, a nenhum histórico desígnio. Aliás, a esmagadora maioria deles, nem sabia, sequer, o que “desígnio” significava.

Partiram para, cada um deles, à sua maneira, com coragem, sacrifício e suor, muito suor, lutar por uma vida melhor. Para eles e, acima de tudo – assim se ouvia amiúde da sua boca – para «os seus». Para os seus. Nada mais do que isto. Afinal de contas, nada que não fosse, e não seja ainda, comum ao mais comum dos mortais. Nada tão milenar e nada tão chão. Mas nada tão magnificente.

Muitos outros compatriotas partiram exactamente nas mesmas condições, pelas mesmas razões e com idênticos objectivos de vida. Mas o acaso ou ligações familiares levou-os a optar, primeiro pelo Brasil, e mais tarde, pela França como destino. Estes foram melhor bafejados pelo veredicto da História. Hoje, por essas vilas e cidades de província, não há praça que os não homenageie com uma estátua, algumas delas injustamente ridículas. Chegada a época estival, não há discurso oficial que os não lembre. Merecidamente, aliás.

A estes contabilizam-se as remessas de milhões de francos que enviaram para economia portuguesa. Aos outros contabilizam-se como roubo o ouro e a prata do Brasil, os diamantes, o sisal, o café e, nos últimos anos, o petróleo de Angola que nas respectivas épocas contribuíram, “penso eu de que”..., para melhorar o crónico défice da economia portuguesa. Uns trouxeram os francos, fruto do seu árduo trabalho, com que construíram as casas (que os nossos intelectuais glosavam com desdém). Os outros deixaram lá ficar as casas e os haveres que a esmagadora maioria edificou igualmente com trabalho árduo e corajoso. Algumas delas obras-primas da arquitectura portuguesa e hoje património histórico.

Uns trazem na boca o não menos glosado “fait atention, Pierre, que tu vas tomber!”, os outros deixaram lá ficar uma língua. Uma língua que une uma comunidade. E também lá deixaram e trouxeram laços, que tanto ou mais que a língua, une a mesma comunidade.

Esses laços, caro embaixador, não foram fabricados nos anos pós revolução de Abril, esses laços foram tecidos durante a dura colonização. E por quem? Por quem? Diga lá, por quem? Coragem, diga lá por quem? Se lhe faltar coragem, eu adianto-me: pelos colonos! Pelos colonos e colonizados! Os "laços" fabricados pós revolução -- esses -- não resistem a um unquérito do MP... e quando estes parecem quebrar-se logo se invocam os antigos laços criados ao longo de séculos pelos colonos. Os tais que, estão sempre a lembrar-nos, sendo colonos são iguais a outros colonos: vis e maus.

Uns são os heroicos emigrantes. Os outros são os vis colonos. Pela minha parte, colono e filho de colono, obrigado.

Isabel Seixas disse...

Dá que pensar...

Anónimo disse...

A História é raramente escrita por aqueles que a viveram.
Para se escrever História tem de se entrecruzar várias fontes, observar o que noutros países se dizia sobre o caso a observar, etc. etc. É uma investigação muito demorada e penosa.
Isto é compreensivel até porque quem quer testemunhar sobre um fenómeno do seu tempo e em que participou apaixonadamente, puxa sempre a brasa à sua bondade. Chama-se a isso fazer a análise dos textos consultados.
Enfim há testemunhos mais radicais e emocionais que outros. Daqui a uns muitos bons anos vamos ver o que a História dirá sobre tudo isto.
Que fique claro no entanto: que cada país possa viver à sua maneira e que nem os países Bálticos deveriam ter sido colonizados pela Rússia imperial ou comunista.

Anónimo disse...

@ LMD
É como a vida das pessoas. Há momentos da nossa vida que quando nos lembramos deles até coramos. Mesmo que sejam poucos. Mas ninguém é perfeito e então os povos WOW. E em política então ....... deve ser muito dificil não corar dia sim dia não.

Anónimo disse...

...À la fin du XIXe siècle, le système colonial établi au Congo par Léopold II, roi de Belgique, atteint un degré de brutalité telle qu’il sera à l’origine d’un des plus grands massacres de l’Histoire. On parle de dix millions de morts, même si l’affaire est très discutée....
https://comptoir.org/2014/10/08/le-congo-belge-de-leopold-ii-les-origines-du-massacre/

est-ce que c'est vrai?

Anónimo disse...

Acerca da escravatura, algo que desconhecia por completo.

Após Portugal ter feito o primeiro contacto com o Japão em 1543, um comércio de escravos de grande escala foi desenvolvido, no qual os portugueses compravam japoneses como escravos no Japão e os vendiam para vários locais no exterior, incluindo no próprio Portugal, ao longo dos séculos XVI e XVII. Muitos documentos mencionam o grande comércio de escravos, junto com os protestos contra a escravização de japoneses. Os escravos japoneses acreditavam ter sido os primeiros da sua nação a ir para Europa e os portugueses compravam grandes quantidades de escravas japonesas para trazer a Portugal, para fins de exploração sexual, como foi observado pela Igreja em 1555. O rei Sebastião temia que estivesse acontecendo um efeito negativo sobre o proselitismo católico, desde que o comércio de escravos japoneses crescia a proporções enormes, então ele ordenou que fosse proibido em 1571.[6][7]

As escravas japonesas eram vendidas como concubinas e serviam em navios portugueses e comerciantes do Japão, mencionados por Luís Cerqueira, um jesuíta português, num documento de 1598.[8] Os escravos japoneses eram trazidos pelos portugueses até Macau, onde alguns deles não eram escravizados somente pelos portugueses, mas também por outros escravos de proprietários portugueses como os malaios e africanos, que por sua vez, possuíam seus próprios escravos japoneses.

Os portugueses consideravam "altamente" os escravos asiáticos como os chineses e japoneses, muito mais do que os "escravos da África subsariana".[25][26] Os portugueses atribuíam qualidades como a inteligência e laboriosidade aos escravos chineses e japoneses, por isso os favoreciam mais.

Anónimo disse...

A mim envergonha-me é que o Chefe de Estado acorra a um pequeno acidente de aviação. Não tarda nada, temos um choque na A1 e lá está o Presidente a "inteirar-se". Ridículo!

Anónimo disse...

Manuel do Edmundo-Filho - PARABÉNS!!!
O seu comentário é um monumento.

Aconselha-se, tambén, sobre a questão da "colonização x civilização" a leitura de uns bons livros do Niall Ferguson.

Anónimo disse...

Manuel Edmundo, você pode enganar quem nunca colocou os pés em África, os novos e aqueles mais velhos que aprenderam pelo livro de leitura da primária como eram pacificas e carinhosas as relações com os indígenas, mas converse antes comigo que até nasci em África, filho de colono funcionário ferroviário da Beira, Moçambique, e podemos ter aqui uma conversa de pé de orelha sobre os tais "laços" e a maneira como os colonos tratavam os negros.

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor Manuel do Edmundo-Filho, confunde duas situações : o emigrante e o colono.

O emigrante português ,que enviou "remessas" de francos para Portugal, enviou o fruto do seu trabalho, parte do seu salário, ganho sem explorar ninguém...sem insultar ninguém, porque em França vivia com gente que tinha o mesmo estatuto social, outros trabalhadores e os seus ..patrões.
Numa sociedade democrática organizada, estava obrigado a viver com todos e a respeitar todos.

O emigrante português que chegava às "Colónias", encontrava uma sociedade na qual alguns, isto é ele, o colono, e as firmas para as quais trabalhava , pertenciam a uma "elite", porque de raça "superior", a raça dos descobridores e dos colonizadores.

O colono podia "mandar" trabalhar aqueles que, pela sua raça e estatuto social de indígena, so deviam obedecer.
Quantas "se Marias", esposas dos funcionários, dos caminhos de ferro ou outros, vindos lá do profundo Portugal, analfabetos por vezes, dispunham dum criado preto para os servir, um "boy" , que era , ele, alfabetizado. Era "rapaz" para aqui, "rapaz" para ali, por vezes quase na idade de serem avos, que eram assim tratados, como pertencendo aos moveis da casa, que iam dormir na manta de farrapos pousada no chão na garagem...

Quanto às remessas enviadas para Portugal, destinadas a comprar um dia uma quintarola lá na terra, elas comportavam todas uma parte importante do suor dessa pobre gente "indígena", que não tinha outro direito que o de trabalhar pelo preço que se lhe quisessem pagar...quando não era à "chapada".

Havia, claro, as outras "remessas" , que se chamavam antes "transferências", aquelas dos grandes grupos industriais , mineiros e agrícolas, e bancos , (quem não conheceu o BNU e as fortunas colossais extirpadas da Guiné , de Angola e de Moçambique ?), e que foram durante séculos o sangue de milhões de africanos escravizados e de riquezas naturais roubadas?

E o resultado da colonização europeia não ficou por ali. Há, por exemplo, o problema do mosaico de fronteiras arbitrárias e ilógicas, que na sua maioria assinalam a extensão das conquistas coloniais ou da expansão imperial e que geralmente não têm qualquer relação com as fronteiras naturais, geográficas ou étnicas. Muitos problemas actuais nas relações inter-africanas,, provêm desse legado dos colonizadores.

Joaquim de Freitas disse...

O texto do Senhor Embaixador sobre a História do Colonialismo é vasto. No comentário precedente não desejei ligar os dois pontos que desejava frisar, mas o que escreveu sobre o discurso de Macron na Argélia, merece-me algumas palavras.
Também eu, quando li este discurso, tive a impressão que Macron acabava de ler o livro de G.Bernanos : - "O escândalo não é de esconder a verdade, mas de não a dizer toda inteira".

"Dizer em Argel, que a colonização foi um crime contra a humanidade", confirmava nalgumas palavras o que a história objectiva da colonização nos tinha ensinado. Claro que isto não agradou à direita e ainda menos à extrema direita.
Basta recuar a 1930, para compreender o problema. Nesse ano, toda a intelectualidade da metrópole e da colónia foi mobilizada para celebrar com pompa o centenário da presença"francesa" na Argélia . Para os colonos é a sua "Argélia", que celebravam.
Através de muitos eventos (conferências, reuniões, festas etc.), na Argélia e no mundo, alimentados em selos, medalhas, livros, folhetos, filmes, «nada é esquecido para impressionar o colonizado, no exterior e talvez o colonizador em si.» Foi a oportunidade de apresentar os métodos e resultados da colonização. Em toda essa propaganda, seria útil recordar como os romances coloniais do tempo mostraram a situação.
É um lindo romance...
Destacando as "realizações brilhantes" da conquista militar ,grandes figuras, incluindo o Marechal Bourmont ,os marechais e outros generais, exaltam o colono, símbolo desta nova raça, que foi implementada na Argélia, este sangue novo necessário para a regeneração de um país populoso até agora «resíduo da humanidade, de degenerados,. com séculos de servidão, preguiça, descuido, estupidez, seres degradados, refractários a qualquer civilização, que nunca foram, que nunca serão um civilizados. »
O sucesso económico da colónia celebrada é o resultado do trabalho persistente dos colonos nma terra particularmente ingrata. Após a sua chegada à Argélia, "minado pela febre, mas apoiado por uma vontade de ferro, os colonos aprenderam a lutar até ao fim. Eles sabiam como morrer em pé, como soldados sob o fogo, com a pá ou o arado. O mito é aqui: martírio colono, 'lavrador soldado', segurando a arma com uma mão e outra para arar...
Dezenas de anos mais tarde, Camus escrevia : " 50%, pelo menos ,da população alimentava-se de ervas e raízes e esperava pela caridade administrativa na forma de distribuições de grão." Uma distribuição de grãos : Camus ressalta o absurdo: "Distribuir 12 litros de grão cada dois ou três meses às famílias de crianças de 4 a 5, muito exactamente é cuspir na água para fazer anéis." Como esta distribuição mais frequentemente é deixada aos barões arbitrários ou conselheiros. Pior, diz ele, , 'por uma manhã, eu vi em Tizi-Ouzou, crianças disputarem aos cães o conteúdo de uma caixa de lixo.'
A miséria e os massacres não vão tardar nesta terra que podia que podia ser um paraíso. A partir daqui, é normal que ressurjam após tantos anos de negação dos direitos humanos, esta velha historia dos colonos em terras de outrem, em tempos de eleições presidenciais francesas.

Anónimo disse...

Em 1972 o meu irmão e eu estávamos em Angola, na "guerra". O nosso pai foi contratado para fazer uma peritagem técnica em Luanda e, numa bela e inesquecível manhã, encontrámo-nos os três em Luanda. Com o empresário que o tinha contratado descemos uma rua onde um branco engraxava os sapatos de um outro qualquer branco. Diz o empresário: como é possível que Angola progrida com estas situações, brancos a engraxarem sapatos, brancos a viverem nos muceques dos pretos, a serem chóferes de táxi etc Lembro como se fosse hoje o meu pai comentar para mim: toma atenção é precisamente o contrário: só é possível o progresso se se não fizer a injustiça de põr um branco que não serve senão para engraxar a fazer uma qualquer outra coisa só por ser branco.
Talvez haja aqui uma diferença de atitude portuguesa.
Manuel Edmundo escreve um texto muito interessante.
Concordo em que Fergusson é uma leitura muito interessante.
João Vieira

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor João Vieira recebeu uma curiosa lição do seu Pai. Então para haver justiça social é preciso que os brancos engraxem sapatos num país povoado por milhões de "indígenas" sem outros direitos que o de ...engraxarem sapatos e outros trabalhos menos dignificantes... e sem grande mais valia !
Que raio de sociedade é esta que criou homens "brancos" que só servem para engraxar sapatos, num país de gente considerada como inferior?
E os engraxadores brancos que engraxam sapatos de brancos nas cidades da Metrópole ?

"Talvez haja aqui uma diferença de atitude portuguesa.", escreve. Permita que lhe diga, que seria útil de procurar a razão porque não há engraxadores na maioria dos países europeus .

Não é uma "atitude", é antes o resultado duma sociedade bloqueada durante muitos anos, cujos dirigentes não privilegiaram a educação do povo, e só se preocuparam de extrair as riquezas do solo e explorar o trabalho dos outros, tanto na Metrópole como nas colónias.

Uma sociedade injusta só pode criar situações injustas e povos "inferiores" e subalternos. Por isso Portugal está na cauda da Europa, depois de ter sido um império dos maiores, império do qual trouxe montanhas de ouro e outras riquezas. Para fazer o quê?

Anónimo disse...

o sr Freitas, pela segunda ou terceira vez, não percebeu o que escrevo. É certamente culpa minha mas fica assim a saber que me não deve comentar porque a uma intenção ilustrativa de uma estória "a" responde com a cartilha "z". Não há paciência.
João Vieira

Anónimo disse...

Coitado do Freitas, julga que ainda vive nos anos setenta,acorde homem !

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Os marxistas, enquanto o forem, têm um eterno e insolúvel problema: são incapazes de analisar qualquer coisa fora dos cânones marxistas. É o caso do Sr. Joaquim de Freitas. Não se abespinhe. Eu também já fui marxista. Curei-me, melhor, libertei-me (ainda antes da queda do muro de Berlim) dessa doença.

Eu não confundo emigrantes com colonos. O que disse é que ambos os grupos sociais saíram do país pelas mesmas razões: a busca de uma vida melhor. Mas tiveram sortes diferentes. Entre a partida e a sorte que coube a cada um dos grupos, convença-se disso, houve para ambos uma vida de trabalho árduo. Não foram apenas os emigrantes que tiveram uma vida de trabalho. Milhares e milhares de colonos eram empregados por conta de outrem, sujeitos igualmente, para usar a sua linguagem, à exploração capitalista. Fazendeiros e comerciantes eram uma minoria.

Por fim, caro Joaquim de Freitas, desafio-o, a si e ao nosso Embaixador, a comparar a exploração colonial dos povos africanos, com a exploração a que os mesmos são hoje sujeitos pelas suas elites políticas e “empresariais”. Desafio-os a comparar a riqueza acumulada de um “empresário” africano de hoje, com a riqueza a riqueza acumulada de um fazendeiro da época colonial. Desafio-os a comparar as contas bancárias na Suíça e noutros paraísos fiscais desses “empresários”, com as contas que os fazendeiros (exploradores) de então detinham no Banco Nacional Ultramarino. Desafio-os a comparar os investimentos (e onde investiam) que esses mesmos fazendeiros faziam com a riqueza que acumulavam com a exploração dos povos colonizados, com os investimentos (e em que países investem) que os “empresários” africanos fazem com a exploração dos seus próprios povos. Mais, desafia-os a comparar o “bem-estar” (saúde, alimentação/fome) desses povos na época colonial, com o bem-estar desses povos actualmente.

Claro que a despudorada exploração actual dos povos das ex-colónias pelos suas elites não desculpa a exploração colonial! Mas a comparação é, infelizmente para essses povos, é-lhes larga e vergonhasamente desfavorável.

Joaquim de Freitas disse...

Senhor João Vieira : Creio que quando se escreve algo no blogue, é normal que os leitores possam reagir . O que se escreve aqui, não é palavra de Evangelho. Aliás é assim que o considero para mim mesmo e para o que escrevo.

Gostaria que o Senhor João Vieira me explicasse, então, o que quer dizer quando escreve : só é possível o progresso se se não fizer a injustiça de põr um branco que não serve senão para engraxar a fazer uma qualquer outra coisa só por ser branco.

Joaquim de Freitas disse...

Cher Monsieur Manuel do Edmundo-Filho: Sou marxista como o Papa Francisco ou o falecido Cardeal de Recife, Dom Herder Câmara . Sou alérgico à ditadura, qualquer que ela seja, ao racismo , à injustiça sob todas as formas e à falta de solidariedade na sociedade.

Citei os dois personagens públicos, porque os dois receberam o mesmo diploma de marxistas, porque se preocupavam da sorte dos desamparados na sociedade.

Não é necessário ser marxista para compreender a relação socioeconómica fundamental consistam em que os homens desprovidos de meios de produção devem trabalhar parcialmente "gratuitamente" em beneficio dos que possuem os meios de produção.

E quando são os mesmos que detêm o poder politico e os meios de coerção numa sociedade não democrática, o risco de injustiça é ainda maior. Mais nada .Nas colónias havia tudo isso.

A exploração , sob a base do trabalho assalariado, para produzir a mais valia , faz parte do sistema económico vigente, mas quando o nível de exploração e as condições de trabalho ultrapassam o limite de tolerância vital da classe explorada o risco é a derrocada violenta da sociedade , que se pode traduzir por uma guerra civil.

O trabalho mais difícil pode ser executado numa certa ordem e satisfação quando aqueles que trabalham podem beneficiar do fruto justo do seu labor . As coisas mudam quando só o rendimento interessa àqueles que têm o poder económico. Num país democrático esta situação pode levar ao afrontamento.

A deterioração progressiva, há uns anos para cá, da situação económica dos países desenvolvidos, vítimas da mundialização, conduz pouco a pouco ao afrontamento citado.

Por ter dirigido, durante algumas dezenas de anos, uma firma francesa de 300 colaboradores, num sector de ponta, posso garantir-lhe que esta noção de justiça social está presente em permanência. O nível de educação e formação , a presença de sindicatos atentos a todos os aspectos sociais e económicos, e o seu poder de controlo e contestação, obriga o dirigente à concertação.

Continuo a pensar que foi precisamente a falta de direitos , em todos os campos, da imensa maioria dos povos africanos, submetidos às leis dos colonizadores e à ausência de escrúpulos e mesmo racismo dos exploradores de todos os gabaritos da sociedade colonial, que levou ao afrontamento entre dois povos, que viviam lado a lado mas não se integravam.

Essencialmente, porque se uma fatia era distribuída aos mais fracos, o imenso bolo ia para os outros., grandes e pequenos. E não falemos dos direitos, que eram em sentido único.

O drama foi que a descolonização não lhes trouxe os benefícios que contavam. Uma elite educada nas melhores universidades portuguesas ,tendo conquistado o poder, continuou e intensificou a exploração dos mesmos, continuando os negócios antigos, frequentemente com os mesmos, aos quais se juntaram outros vindos de outros continentes.

Os antigos comparsas da Metrópole, abriram as portas do capital das suas empresas aos novos ricos saídos das colunas dos vencedores da guerra civil, e pouco lhes importa que o novo dirigente máximo seja um ditador, e que os seus ministros comprem com o dinheiro do povo os melhores apartamentos dos imóveis de luxo da Costa do Sol !
Aplaudo, sem reserva ,o ultimo parágrafo do seu texto, caro Senhor Manuel do Edmundo-Filho. Cumprimentos


PS)

"Devo tudo o que sou ao Padre Gilberto. Gosto muito deste benfeitor. Um homem alegre que, quando era pequenino, me considerava como um animalzinho familiar. Gostava de me puxar pelas orelhas e, durante a minha longa educação, parecia admirado das minhas observações maravilhadas.
Apresentava-me a todos os Brancos que vinham à Missão como a sua obra prima. Era um "boy" que sabia ler e escrever, servir a missa, pôr a mesa, varrer o seu quarto, fazer a sua cama. Não ganhava dinheiro. De vez em quando, o padre dava-me como presente, uma velha camisa ou dum velho..."

O autor destas palavras morreu hà alguns anos...



Anónimo disse...

Não resisto a apontar "o retorno" de Dulce Cardoso como um excelente e comovente livro que se deve ler antes de opinar sobre os "colonos"
João Vieira

Joaquim de Freitas disse...

Umas palavras mais, se o Senhor Embaixador permite: Ao Senhor Manuel do Edmundo-Filho: Não conheço, infelizmente, muitos "pieds noirs" portugueses. Mas tenho muitos e bons amigos "pieds-noirs- franceses...e mesmo vizinhos na residência.

Há já algum tempo, um deles, antigo professor do Liceu de Argel, que também foi obrigado a partir rapidamente com a mala para o barco, e que escreveu um livro muito interessante sobre o grande drama da descolonização forçada da Argélia, disse-me: "Sabe, Caro Amigo Freitas, só compreendi que os meus Pais eram racistas, no dia em que, ia para a Escola, e da varanda do apartamento, no centro de Argel, a minha Mãe, que me vigiava até à próxima esquina da rua, me gritou: - Pierre, vai sozinho e deixa o teu amigo ! Não quero que vás com ele! O meu amigo, que me acompanhava de vez em quando, porque andávamos na mesma escola, era Mohamed, o argelino... Foi o grande choque da minha vida, quando, mais tarde, pensei nesse dia...


Retornado disse...

Havia desde transmontanos, beirões etc. que venderam o que tinham para pagar as viagens para o Brasil, Angola, Venezuela etc.

Não insultem gente honrada e trabalhadora, cambada de "supérfluos" e "balofos".

Não é por culpa desses que foram para Angola e Guiné e Moçambique, que os subsarianos estão subindo o Saára a caminho de Lampedusa, Ceuta e Melila, e do fundo do Mediterrâneo.

Haja sinceridade.

Anónimo disse...

SERÁ QUE EXISTE MARXISMO SEM DITADURA???
KARL MARX
1- HOMEM QUE NASCEU DESPUDORADO
2- VAGABUNDO QUE ODIAVA OS CAPITALISTAS, COM EXCEÇÃO DO BURGUÊS QUE O SUSTENTAVA.
3- HOMEM RACISTA QUE TRAIA A ESPOSA E QUE DEIXOU SEUS FILHOS MORREREM DE INANIÇÃO.
4- DONO DA TEORIA RESPONSÁVEL POR MAIS DE 100 MILHÕES DE MORTES AO REDOR DO MUNDO.
5- ÍDOLO DOS SEM CÉREBROS.

e ainda tem gente que idolatra esse verme, vai pra Cuba o Coreia do norte, ou melhor, Coreia da Morte!!!!

Retornado disse...

Há uma mania errada em Portugal em fazer comparações entre «prós e contras» quanto à colonização portuguesa e as outras, (inglesa, Belga ou Francesa), quando após o pioneirismo dos descobrimentos, apenas copiámos o que os outros
foram fazendo.

Devíamos apenas diferenciar entre nós e os outros, não a colonização de África, mas a sua descolonização, esta sim, o maior «tiro» no próprio pé da Europa, em África.

Que os africanos não esquecem esse «abandono»

Joaquim de Freitas disse...

Oh Senhor anónimo das 14 :55 : Olhe que o marxismo realmente nunca existiu. Existe a teoria. Alguns homens tentaram implementà-lo nalguns países. Porque entre a filosofia e a realização haviam os homens o projecto falhou. Sabe, os homens são falíveis.

Karl Marx era um Judeu, (como o Cristo,) convertido mais tarde ao Protestantismo, e viveu pobre. Foi ajudado financeiramente por um amigo. Desenvolveu uma filosofia sobre a luta de classes (exploradores e explorados) que é o motor da história. E será por muito tempo.

O Marxismo, uma utopia, faliu, como o Cristianismo, para trazer a felicidade a todos os homens. Arrastaram milhões de homens na sua esteira. O Cristo, foram os seus próprios compatriotas que se apressaram de o eliminar pela crucificação, sistema de morte da época. Os outros homens não se lançaram na sua defesa, houve mesmo entre os seus, alguns que o negaram. Ele importunava a sociedade dos homens da época e a própria Igreja.

Desde então, há já mais de dois mil anos, em seu nome, milhões de homens fizeram morrer milhões de homens.

A defesa dos seus valores essenciais, não levou ao delírio Hitler, Mussolini, Franco, e tantos outros? E mesmo da sua própria família, protestantes, ortodoxos e católicos. E pode crer que as guerras de religião são as mais ferozes. Veja hoje os sunitas e os chitas!

Entre os dois homens existe algo em comum: O de recusar que a felicidade de cada indivíduo se funde na desgraça de alguns outros, porque o interesse e a comunidade de uns exigiriam as privações e a infelicidade dos outros.