sexta-feira, 28 de abril de 2017

Brincar com o fogo


Em 1986, no auge da luta eleitoral que opôs Mário Soares e Freitas do Amaral, o país ouviu Álvaro Cunhal recomendar aos militantes comunistas que votassem Soares no segundo turno. Para os que tivessem maior relutância em fazê-lo, conhecida a aversão tida a Soares por muita gente desse setor, o líder do PCP recomendava que “tapassem com a mão” a sua fotografia, quando colocassem a cruz no boletim de voto.

Freitas do Amaral não era um fascista, não era de extrema-direita, embora não houvesse nenhum saudoso do “ancien régime” em Portugal que não se tivesse acolhido à sombra do candidato dos “loden” e dos palhinhas, o que assustava muita gente, a começar pelo autor deste texto. Mas foi assim que o “povo de esquerda” (bela expressão de António Barreto, pedida de empréstimo a Mitterrand) conseguiu colocar Soares em Belém, por uma década.

Le Pen está muito próxima de Trump, esse sim, portador de uma agenda claramente de extrema-direita – designação que, se acaso fosse europeu, há muito a imprensa já lhe teria colado à pele. E, no entanto, sendo ela indiscutivelmente muito mais perigosa do que Freitas do Amaral era em 1986, há, pelos vistos, quem não veja as coisas dessa forma, equivalendo-a a candidatos indiscutivelmente mais inócuos. E isto ocorre na mesma França que, em 2002, se mobilizou maciçamente por Jacques Chirac contra o pai Le Pen, cuja agenda programática não era substancialmente muito diferente.

Por isso, ouvir um homem com um passado de  esquerda, como Jean-Luc Mélenchon, na sua intervenção no final da primeira volta, afirmar que não ia dar, uma indicação imediata de voto ao expressivo número dos que nele confiaram, optando entre os dois candidatos apurados para o escrutínio final, um dos quais de extrema-direita, foi, a grande distância, o que mais me impressionou naquela noite.

O “defeito” é, com certeza, meu: ainda vivia num mundo que se havia habituado à regra “republicana” de que, contra um candidato de extrema-direita, o voto era “cego” em quem quer que se lhe opusesse. E isso, afinal, acabou. Até nalguma esquerda.

É claro que, em 2012, já se assistira ao famoso “ni-ni” – nem Front National, nem socialistas – lançado por Sarkozy, antes da segunda volta das eleições legislativas. Curiosamente, Fillon não o seguiu, nem nessa altura nem nestas eleições, em que logo afirmou que era necessário votar em Macron. Porém, Sarkozy e a “nomenklatura” do “Les Républicains” o máximo que conseguiram ir foi apelar a um voto “contra Marine Le Pen”. A direita francesa parece ter iniciado uma deriva sem retorno para as profundezas radicais. Mas a esquerda populista, talvez numa inconsciente procura do “quanto pior melhor”, não lhe fica atrás. Estão a brincar com o fogo. E podemo-nos queimar todos.

14 comentários:

Anónimo disse...

Convenhamos que Macron é um OVNI e um típico produto de esquerda Zelig, sem fibra e desenhado por automação industrial e depois de sondagens telefónicas. Que Margarida Marques venha apoiá-lo está à sua altura e não há surpresas. Que outros o tivessem que apoiar apenas porque Marine é o delúgio já é postulado mais ambicioso...

Joaquim de Freitas disse...

Olhem o que se passou (ou está a passar, porque a eleição ainda não acabou!): “Le Château “ FOI PRESERVADO! A revolta dos paisanos do nosso tempo, dos servos Macronisados e uberisados, exigindo uma refundação da Republica, foi travada aos quatro freios!

E portanto a revolta lá fora ouvia-se e estava organizada de maneira Revolucionária. (La Révolution Citoyenne). A esperança de encontrar um caminho mais progressista animava os militantes de maneira entusiástica. E as brechas do “Château” eram numerosas (crises sociais, ecológicas, financeiras, económicas, politicas às quais se ajuntavam as caçarolas do reino, dos Fillon e outros,

E mesmo assim o “sistema” encontrou os meios de “salvar o Château” e a corte que vivia lá dentro.

Foi uma eleição maquiavélica. Maquiavel é italiano e foi conselheiro do Príncipe, mas os seus preceitos são ensinados em “sciences po””, o que permitiu a esta escola de produzir técnicos do “bilhar a três bandas”.

Trata-se neste jogo de servir os outros para atingir o seu objectivo e devemos confessar que neste exercício, Hollande é temível.

Ao ver os resultados da primeira volta das eleições, Hollande ganhou:

1- Eliminou a Direita, talvez para um longo momento.

2- Conteve o progresso da “France Insoumise de Mélenchon que não acede à segunda volta.

3- Contribuiu a acabar com o PS, cuja implosão está próxima.

4- Manteve a extrema-direita ao nível necessário para desempenhar o seu papel de “espanta pardais”. Espero que o nível não é inaceitável…

5- Fazer ganhar o seu cavalo, que ele lançou, voluntariamente na campanha presidencial, sabendo que ele mesmo não tinha nenhuma “chance” de lá chegar. Não, Macron não partiu sozinho, foi enviado em missão por Hollande. Tudo planificado.
Hollande deve ter aberto uma garrafa de champanhe… O seu golpe do “bilhar a três bandas” funcionou perfeitamente.

E os “interessados” deram logo o sinal quando viram os resultados: A bolsa, ao fim de duas horas de cotação viu os valores progredir de mais de 3%, o que quer dizer que a aposta Macron ganhou…E o presidente do MEDEF apoiou! E a antiga presidente, Madame Parisot até se oferece para o posto de primeiro-ministro.
Os mercados temiam um duelo favorável a Le Pen ou Mélenchon, que têm os bancos no colimador. Basta

O que é grave, é que num primeiro tempo, muitos democratas vão votar Macron, para fugir a Le Pen . Eu sou um deles. Fugi a Le Pen, Pai, em 2002, votando Chirac.
Mas como Macron vai prosseguir a politica de Hollande, talvez em pior, adiamos o problema fundamental que é o de abandonar as políticas de austeridade na Europa. Madame Merckel também ganhou !
A política de Macron gerando profundas desilusões, só fará, em definitivo, que assegurar a vitória de Le Pen em 2022.iremos votar Macron, mas de facto planificamos a chegada de Le Pen.
Que os militantes da “France Insoumise” estejam arrasados é compreensível, quando se fez uma campanha a fundo contra Marine Le Pen e se vêm frustrados de verem o homem de Rothschild e do Grupo Bilderberg debater com ela, no lugar sonhado para Mélenchon.
Nem todos são corajosos como Álvaro Cunhal e o odor de Marine não é o mesmo de Freitas do Amaral, como muito bem escreveu.

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador, se me permite um pequeno aditivo : Os gritos da direita apelando à união republicana, de maneira contida, como se vê nas palavras de Sarkozy, e os vários “ni-ni” de outros, significam que metade dos seus eleitores preferem votar Le Pen.

Aliás, se o resultado da primeira volta tivesse sido Mélenchon e Le Pen, a debandada à direita para Le Pen seria ainda maior.

O que finalmente, seria na boa tradição duma parte importante da direita francesa que, noutros tempos, preferiu a colaboração com os nazis ao bolchevismo.


Rui C. Marques disse...

Mais uma excelente análise,meu Caro Francisco.

Luís Lavoura disse...

Este post gira à volta de uma classificação, de um apodo, da Frente Nacional como sendo "de extrema-direita". Ou seja, o post não analisa em detalhe quais as coisas que a Frente Nacional defende e que Mélenchon, alegadamente, deveria rejeitar. Nem faz o mesmo a respeito de Macron.
A questão é, Mélenchon não tem que rejeitar a Frente Nacional por ela ser "de extrema-direita", tem é que rejeitar propostas explícitas que esse partido faz ou faça.

carlos cardoso disse...

Vi ontem uma reportagem numa televisão francesa onde perguntavam a pessoas que tinham votado em candidatos que não vão à segunda volta em quem iriam votar. Ouvi apoiantes de Mélenchon e de Fillon, entre outros, dizerem que votariam Macron e outros apoiantes dos mesmos dizerem que votariam Le Pen. O que todos disseram, no entanto, foi que se borrifavam para as indicações de voto dos “seus” candidatos pois eram suficientemente crescido(a)s para decidirem sozinho(a)s.

Tudo isto para dizer que o facto de uns terem dado indicações de voto para a segunda volta e outros não o terem feito, não tem afinal grande importância porque não tem praticamente peso nenhum no resultado final.

Anónimo disse...

Para alguns o próximo passado foi brilhante.
Para outros o passado mais recuado foi a desgraça.
Os primeiros são saudosistas, os segundos ainda manteem o ápodo de fascistas [da II Guerra mundial].
Assim não se vai a parte nenhuma. Está-se a ficar anacronista e até reacionário. Vejam lá isto, quem diria.........

Anónimo disse...

Agora estão aflitos com os monstros extremista que criaram, não querem assumir as culpas e pior ainda, serão os primeiros a fugir e a tirar o cavalinho da chuva, ou mudar de ideias.....

Daqui por cinco anos,(se lá chegarmos...)com mais terrorismo, mais contestação e mais conflitualidade política (dado que a comunidade muçulmana quererá ver o islão implantado)....

Acordem Comentadores !.......

Anónimo disse...

É bonito escrever que é "conhecida a aversão tida a Soares por muita gente desse setor". Mas isso é mascarar indecentemente a recíproca. A aversão de Mário Soares à gente do dito sector, o que bem se demonstrou quando da morte do antigo Presidente da República. Não faltaram nas televisões os ataques ao dito sector. Quase nenhum dos que louvou Mário Soares foi capaz de o fazer sem ataques ao tal sector. Curiosamente, esses que aproveitaram o ensejo para atacar esse sector ficaram muito contrariados por esse sector ter sido capaz de vincar na ocasião diferenças em relação a Mário Soares.

Que Mário Soares, a cujo funeral fui, não gostava do sector é mais que comprovado. Ainda em declarações bem recentes, já dobrados os oitenta e muitos anos vincava ele que era impossível admitir o PCP num Governo, o que para sectarismo não está mal.

Por outro lado está por contar quando Mário Soares andou de cama e pucarinho com a extrema-direita, no Verão Quente. O livro Quando Portugal Ardeu, acerca desse Verão de 1975, escrito por Miguel Carvalho não dará as respostas todas, como se pode ler em https://ionline.sapo.pt/558127.

Mas deixa algumas perguntas acerca das predilecções de alguns pela extrema-direita e do que fizeram para a combater. Uns ficam com a fama, deitada à ventoinha até por embaixadores. Ficarão outros com o proveito?

Anónimo disse...

Aliás, Perante o descalabro do PSF e de Benoît Hamon, também estes recusaram apelar ao voto em Mélanchon, que limparia Marine Le Pen, preferindo deixar que a escolha se fizesse entre o extremismo de direita do banqueiro neo-liberal Macron e o extremismo fascista da herdeira Marine le Pen.

Anónimo disse...

"A política de Macron gerando profundas desilusões, só fará, em definitivo, que assegurar a vitória de Le Pen em 2022."

é um pouco essa a minha crença tb caro de freitas. Macron é a ultima esperança, a desilusao que podera causar, sera sem retorno.

cumprimentos

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Luis Lavoura: Quando Marine Le Pen muda de presidente de partido três vezes numa semana, a razão é bem conhecida: O presidente interino do partido Frente Nacional (FN), o eurodeputado Jean-François Jalkh, foi acusado de "negacionismo, o que, em França, é passível de tribunal.

Se este facto não chegasse, a presença de Marine Le Pen no baile dos nazis de Viena, várias vezes, demonstra bem o carácter extremista da direita deste partido.

Aliás, com cartazes com palavras de ordem como “nenhum nazi no Hofburg”, vários milhares de pessoas manifestaram-se, no centro de Viena, contra a organização do baile anual do partido ultranacionalista FPÖ no Palácio Imperial da capital austríaca.

Dois mil e setecentos polícias foram mobilizados para prevenir incidentes durante o evento. Em 2015, os protestos degeneraram em violência, saldando-se em 6 feridos e 54 detenções. O baile anual reúne não só personalidades da extrema-direita austríaca, como dirigentes de outros partidos xenófobos europeus.

Quando o Senhor Luís Lavoura escreve: “A questão é, Mélenchon não tem que rejeitar a Frente Nacional por ela ser "de extrema-direita", tem é que rejeitar propostas explícitas que esse partido faz ou faça.” faz-me lembrar os argumentos da direita alemã, durante a República de Weimar, e o programa que constituiu o pão sagrado para o personagem demagogo e oportunista que dirigia o NSDAP: Adolf Hitler.

Programa corporatista, nacionalista, populista e xénofobo.

Anónimo disse...

Rede de falsificaçao de documentos portugueses em França.

http://www.laprovence.com/article/faits-divers-justice/4425897/marseille-les-faussaires-a-lidentite-avaient-des-doigts-de-fee.html

Estando de acordo com quase todos os comentarios do de Freitas, faz-me confusão que não refira nunca o problema da integração que, nalguns sitios de França, são extremamente graves.

cumprimentos

Anónimo disse...

Em Portugal, graças aos 100 anos de Fátima, está tudo a correr bem:

As Marines, os Macrons e os Melachons, Fillons, etc, andam embevecidos com Costa, impressionados com Catarina, extasiados com Jerónimo.

Como não haviam de andar? Tem o financiamento do BCE garantido, tem o dinheiro dos contribuintes para os bancos — e tudo isso servido com muita “paz social”. A economia cresce menos de metade (1,4%) do que cresce a economia espanhola (3,2%)? Mas quem são os idiotas que querem saber disso, quando tudo está a correr ás mil maravilhas ?......