domingo, 19 de março de 2017

Rentes de Carvalho

Desagrada-me ver uma pessoa por quem tenho grande respeito como escritor, José Rentes de Carvalho, assumir posições favoráveis à extrema-direita da Holanda onde vive. (Nada que me tenha espantado muito, confesso, tendo em atenção opiniões suas lidas na imprensa, nos últimos tempos). Mas isso nem por um segundo afeta o prazer que sempre me dá ler a sua obra. Há escritores reacionários geniais, da mesma forma que a literatura de alguns revolucionários roça a mediocridade. Só os sectários olham a qualidade através das lentes da ideologia.

17 comentários:

Anónimo disse...

A Holanda pode também, à sua escala, produzir os seus Celine.


2. Crise do casamento em Portugal, título do Observador de hoje. Em España, felizmente, as coisas correm melhor.

Joaquim de Freitas disse...


Esta teoria é delicada. Há homens geniais que serviram e servem ainda hoje à propaganda nazi e fascista. Combatê-los é um dever O nazismo inscreve-se numa dupla história, a das invasões barbaras, da ciência e das artes.
Se Nietzsche cortou relações com Richard Wagner, por causa do seu anti-semitismo exacerbado, Hitler e os Nazis apreciavam-no precisamente porque era anti-semita. O regime nacional-socialista alemão recuperou a sua música, entre progrom e assimilação.


Anónimo disse...

Pois, mas como escritor é fraquito.

Anónimo disse...

O embaixador diz gostar de ler o que lhe contraria as convicções ideológicas. Mas não é bem assim. Reclama-se de esquerda, o que não contradigo, longe de mim, mas dá uma atenção constante e elogiosa a autores e ensaístas e comentadores de uma direita grotesca (nogueira pinto, rentes de carvalho, henrique raposo).

É uma atenção que não dá aqueles que fartamente critica e acusa como esquerda do PREC. São inúmeras as vezes que vinca o seu afastamento das convicções ideológicas dela. Não se lhe vê o elogio dos autores, ensaístas e comnetadores.

Dos transmontanos, sem entrar sequer na esquerda do PREC, o Embaixador não gosta de Torga, não se sabe o que achará do conterrâneo A.M.Pires Cabral, mas, agora vem falar de Rentes. Mas falar aqui de génio será muito excessivo. Não é Céline ou Hamsum quem quer.

Leia-se a crítica que António Guerreiro lhe fez ao Meças, em O Romance ao estilo Hiper:

«A escrita romanesca de J. Rentes de Carvalho é um exercício de saturação e exacerbação a que podemos chamar hiperliteratura, como se fosse um pastiche ou uma caricatura.

Experimentemos ler a primeira frase deste romance, o incipit, porque aí começa a encadear-se um sotaque narrativo e literário que não esmorece até à última linha: “Alguém terá de lhe emprestar as palavras, porque as desconhece, mas se lhas tivessem ensinado seria incapaz de dizê-las, estonteado pelo remoinho, a vida a desfilar em ondas de desespero, ocasiões falhadas, sempre ele o que perde, a sofrer envergonhado, o que baixa os olhos e até de si próprio tem de fugir”. E digo “sotaque”, como se estivesse a escutar uma fala ou uma dicção, porque tudo na escrita de J. Rentes de Carvalho concorre para que deixemos de prestar atenção ao agenciamento narrativo e à história, à qual não faltam apelos de um bruto realismo, para ouvirmos em contínuo o tom da afectação, do enfatuamento, da ênfase. Poucas páginas mais à frente, há uma passagem onde se insiste, com inadequada verbosidade, às insuficiências e aos desvios fraudulentos das palavras: “As palavras deturpam, escondem, diminuem, fracturam. Traduzem mal a réstia de luar que toca a vidraça, o modo como ela se despiu e o espera na cama, retesada, medrosa, no chão os sapatos de cetim branco, o vestido de noiva pendurado na cadeira”. Há neste romance uma crítica da linguagem, como se poderia deduzir desta passagem? Nem pensar nisso. Tudo nele transborda eloquência, ou melhor, loquacidade. Literária loquacidade, como esta que se segue: “Visões do inverosímil, semelhanças de realidade, desassossego, ameaças, chamamentos de tentação, resíduos da memória entrelaçados numa fábula em que se observa, desconhecido de si mesmo”.

Como já se percebeu, O Meças é um romance que acumula em grandes doses os mais indiscretos signos que anunciam o literário. Devemos mesmo dizer que é uma manifestação exuberante de hiperliteratura. É plausível que aí resida a razão do sucesso que Rentes de Carvalho alcançou nos últimos anos. Não apenas por isso, ele satisfaz plenamente e de maneira eficaz a tendência conservadora, regressiva e inócua de grande parte da actual ficção narrativa de escritores portugueses. Rentes de Carvalho não foi descoberto tardiamente, como se costuma dizer; foi descoberto quando chegaram os seus contemporâneos, aqueles com os quais, embora muito mais novos no registo civil e nos depósitos da Biblioteca Nacional, não havia discordância de tempos nem de modos. Os seus contemporâneos jamais poderiam ser aqueles que em tempos chegaram a coincidir com ele no tempo de publicação: um Carlos de Oliveira, uma Maria Velho da Costa, uma Agustina, uma Maria Gabriela Llansol.

[...]»

continua

Anónimo disse...

2. Continuação da crítica de António Guerreiro a O Meças, de Rentes de Carvalho:

O Romance em Estilo Hiper

«[...]

Mas concentremo-nos nesta última produção da sua já vasta hiperliteratura, um romance que tem o nome de uma personagem transmontana, a quem todos chamam Meças, um homem duro, inflexível e de impulsos violentos. A sua história é feita de ódio familiar, violência sexual, assassínio por vingança e por sentimentos de pundonor (como nos códigos das sociedades antigas). Diríamos estar aqui perante um universo muito camiliano, mas tudo redunda em grotesca caricatura, pelo que não vale a pena invocar Camilo ou Agustina em vão. Resulta em involuntária caricatura uma escrita que reúne todos os atributos daquilo a que chamei hiperliteratura. A saber:

1) O Kitsch. É o triunfo do decorativo, as frases que, digam elas o que disserem, dizem sempre e apenas isto: vejam como é belo, apreciem o que é escrever bem. Escrever bem, neste sentido, é produzir um discurso muito ornamentado e inócuo; ou então é apontar para a sublimidade de maneira tão frouxa, que o leitor, em vez de sentir exaltação, só vislumbra a insuficiência dos meios, a declinação dos lugares-comuns: “Montes escalavrados, encostas de luz, encostas de sombra, outeiros, um rio a marulhar apertado na estreiteza de fraguedos, mais arbustos do que árvores, casario em longes que a vista mal enxerga. Imutável desde a Criação, daquela paisagem sempre fiz cenário de teatro, dizendo-me que por detrás dos penedos e dos baldios começava o mundo, maneira que tinha de, criança ainda, lhe suportar a ameaça e a formidável imponência”. É a paisagem transmontana que assim é descrita.

2) A exacerbação do estilo. A noção de estilo é muito vaga, tão vaga como nesta definição de Flaubert: “O estilo é por si só uma maneira absoluta de ver as coisas”. Quando se entende o estilo de maneira menos vaga é quando se diz, por exemplo, que o pastiche consiste em imitar o estilo de um autor, de um género, ou de uma “escola”. É muito difícil identificar e caracterizar o estilo de Kafka, mas na escrita de Rentes de Carvalho vemos o estilo em todo o lado. Vêmo-lo como pastiche ou como tiques de linguagem. Um exemplo: o autor nunca diz “com as duas mãos”, nem “com ambas as mãos”, nem sequer “com as mãos ambas”. Diz sempre “às mãos ambas”. Não sei de onde vem esta forma, não sei se é um arcaísmo, não sei se é um idiomatismo do escritor. Mas sei que à terceira vez que a li, pensei: “aqui está uma prova bem visível do estilo, isto é, o estilo como tique de linguagem”. Este tique não é mais espasmódico do que muitos outros que este romance nos proporciona, mas tem a vantagem de ser facilmente citável porque é breve.

[...]»

Anónimo disse...

3. Continuação da crítica de António Guerreiro a O Meças, de Rentes de Carvalho:

O Romance em Estilo Hiper

«[...]
3) A frivolidade. Tal como o estilo pretende ser uma maneira absoluta de ver as coisas, mas acaba por ser, na escrita de Rentes de Carvalho, uma maneira de ser cego perante elas, assim a afectação patética (isto é, a manifestação de um pathos) e a expressão enfática revelam uma falsa profundidade e uma parca capacidade de penetração. Nada é tão superficial e tão frívolo como isto: “Porque o destino o quis, há muito deixei de lutar, procurando não a impossível mudança daquele que sou, mas fugindo na invenção de mim mesmo, um pouco à maneira do bicho que para se defender escolhe a aparência que mais seguramente o disfarça. E é por certo para melhor me ocultar que torno mais vivos e detalhados os outros, que levanto o biombo atrás do qual desapareço e os deixa a eles no palco.”

4) A redundância. É a qualidade mais abundante neste romance. Da maneira mais evidente, encontramo-la com frequência nas longas ou breves descrições em que quanto mais são as palavras menos é aquilo que se diz e mais vago é o dizer. Neste item, uma frase merece ser citada. É aquela em que se fala de “um sentimento de excitação e nostálgica melancolia”. Note-se: não é apenas nostalgia, nem apenas melancolia, é uma cruzamento das duas, que nenhuma psicologia das profundezas conseguirá explicar, mas que num romance é a literatura em estado de apoteose.

5) A deflação erótica. Há algumas cenas de crueza sexual neste romance, às vezes recuperando uma linguagem obscena já pouco usada. Onde é que hoje ainda se diz que uma mulher “estava na fressura com a amiga”? Mas isso é pouco relevante, quando temos, algumas páginas mais à frente, esta descrição erótica de baixo preço e alto teor deflacionário: “Erecta, a um passo de mim, tudo no seu jeito manda que espere, me deixe hipnotizar pela beleza, sofra a vertigem do almíscar que a pele exala, descubra o arrebatamento da obediência, aceite que ela me guie (...). Vem para mim, sustentando os seios com um gesto natural, como a ajeitá-los, e enlaça-me, beija-me nos lábios.”»

Anónimo disse...

Há aí uma subtileza que me escapa. Quem são exactamente os "sectários" que olham a literatura do Rentes de Carvalho pelas lentes da ideologia? O que eu tenho visto são referências às suas posições politicas, não à sua literatura. Ai, esta figura de estilo tão portuguesa de falar por enigmas... eu acho que o senhor Embaixador devia nomear, dar exemplos, sei lá.

josé ricardo disse...

Obviamente que tem toda a razão. Jorge de Sena afirmou que não lhe interessava nada conhecer o escritor (a propósito, julgo, de Hemingway), pois o importante era a sua obra. Nestas questões da literatura, o homem ficcional sobrepõe-se, inexorável, ao homem real. É a literariedade que interessa.

Anónimo disse...

Senhor embaixador... acertou na muche! E' exactamente isso o que eu penso sobre os seus posts de politica portuguesa e, olhe, .... ainda por ca' continuo!

Um abraco.

Anónimo disse...

Desagrada me o hiperactivismo de Cavaco, sinal de que quer regressar. Quanto a Sampaio, que é pessoa seria vi claramente visto um Presidente prisioneiro de uma Casa Civil de cortesãos que o manietava.

Augie Cardoso, Plymouth, Conn. disse...

Rentes de Carvalho , trasmontano, grande observador, liberdade pessoal.
"Ira de Deus sobre Europa " . Solucao pros defeitos da republica e mais democracia, solucao pros defeitos da democracia e mais democracia. A partidocracia implantada na Europa e um pouco por todo o mundo pelos atrasados mentais jacobinos da cidade da luz criou mini dictadores que se vao espanhado como polvos e deputados a disfarcar de representantes do povo.

Anónimo disse...

Concordância absoluta com o texto Augie Cardoso !

Só um "cego" é que não vê !!!!!!.......

Manuel do Edmundo-Filho disse...

A posição de Rentes de Carvalho em relação ao islamismo assenta a meu ver na sua dificuldade, e na de muitos, em aceitar a islamização da Europa e, pior ainda, do pensamento europeu, que paulatinamente, pé-ante-pé, sem darmos conta, se vai instalando nas nossas elites políticas e culturais. O relativismo que hoje em dia grassa por aí e que deixou que se colocasse no mesmo plano as duas culturas, a ocidental e islâmica, marca o início do nosso declínio. Daí à aceitação da supremacia da cultura islâmica vai um passo (passo que em História pode durar dezenas de anos ou uma duas centenas a consumar-se).

É espantoso, eu diria vergonhoso, que o apelo de Erdogan a que os emigrantes turcos na Europa tivessem no mínimo 5 filhos porque, visionariamente, adiantava, "vocês são o futuro da Europa" não tivesse merecido qualquer reacção, qualquer análise crítica, por parte dos nossos políticos e dos nossos intelectuais. Todos se abstiveram de comentar. Todos. Sem exceção. A cobardia é muita!

Fosse uma organização cristã, face ao decréscimo demográfico dos Europeus ou, em particular, dos portugueses, a fazer o mesmo apelo teria "caído o Carmo e a Trindade".

É nestas situações que me apetece usar uma afirmação recente de um presidente de uma agremiação desportiva, que citava mal um tio-avô: “b....” para os nossos políticos, analistas e intelectuais!

E é por estas e por outras que perigosamente a extrema-direita cresce. Só não vê quem não quer...

Anónimo disse...

De acordo 100% com o comentário do sr Edmundo-Filho.

Anónimo disse...

Manuel do Edmundo-Filho, é a diferença entre o cheiro das ruas e o dos gabinetes. Quem está habituado a estes não consegue cheirar o que se passa lá fora... E, depois, acha-se "humanista" e superior...

Anónimo disse...

Manuel Edmundo Filho, então, depois desse discurso todo, decalcado do Geert Wilders, finaliza dizendo que "perigosamente a extrema direita cresce"? Perigosamente?...

Joaquim de Freitas disse...

Creio que os ilustres comentadores deste blogue, neste tema, esquecem que a França é a mais antiga terra de imigração da Europa. O Islão, como o Judaísmo, há muito que fazem parte do horizonte religioso francês. O que é novo é o islamismo radical, que encontra aqui uma terra propícia para as suas teses, por uma razão muito simples: são 6 ou 7 milhões de muçulmanos que fazem parte da França, desde o tempo do Império, e muitos deles considerados franceses.

O laicismo integrou muitos, mas desde que as dificuldades económicas tocam os franceses, como no passado, são os estrangeiros que são imediatamente os bodes expiatórios. Houve tempos em que foram os Italianos, mas os muçulmanos em primeiro lugar., porque existe desde sempre um verniz de racismo latente na população, agravado desde o fim da guerra da Argélia.

Por outro lado, o fosso alargou-se a partir do momento em que os Ocidentais ignoraram o problema Palestiniano, favorecendo mesmo a tese Israelita. Os Judeus são uma minoria importante e activa em França.

Enfim, como ignorar os estragos colaterais das guerras Ocidentais nos países muçulmanos do Médio Oriente? Como ignorar os estragos causados pela geoestratégia das energias vitais do Ocidente, que os levaram a invadir o Iraque, a Líbia e a Síria?

E como esquecer o espectáculo revoltante dos milhares de mortos, afogados, no Mediterrâneo? E por culpa de quem?

Os ímanes têm argumentos fáceis para convencer os jovens a partir para a Jihad.

Os Portugueses de França deveriam reflectir antes de enfileirar nas teses de Marine le Pen. Só uma cultura política inexistente, e uma ignorância crassa do que é o fascismo encoberto dos frontistas, os pode levar a votar por aqueles que consideram os emigrantes como sanguessugas da economia francesa, ignorando o que eles trazem como mais valia .