sexta-feira, 3 de março de 2017

Angola e nós


Fui diplomata em Angola na primeira década pós-independência. Luanda era uma cidade sitiada, a guerra civil abrangia grande parte do território, mantinha-se uma forte presença cubana, civil e militar, a África do Sul apoiava militarmente a Unita, sedeada na Jamba, com apoio americano. A Guerra Fria estava a poucos anos do seu termo, mas Angola era então uma das suas trincheiras mais evidentes. 

Todos os dias, na embaixada, olhávamos para o « Jornal de Angola », esperando a diatribe do dia contra Portugal. A Unita passeava-se por Lisboa, era apoiada por portugueses, tinha acesso à nossa comunicação social. Tornava-se impossível explicar às autoridades angolanas que, menos de uma década passada sobre o 25 de abril, não era sensato esperar que os governos de Lisboa pudessem  limitar a expressão e a liberdade de movimentos dos opositores do regime de Luanda, muitos deles beneficiando do facto de terem nacionalidade portuguesa. 

Há poucos países de expressão portuguesa de cujos cidadãos eu me tenha sentido mais próximo do que dos angolanos. Vivendo uma realidade diametralmente diversa, com um regime cujo funcionamento e práticas nada têm a ver connosco, nem por isso os angolanos deixam de ter algo que se nos assemelha – nas qualidades e nos defeitos. Um dia, Venâncio de Moura, que foi ministro das Relações Exteriores de Angola, dizia-me, a brincar, numa conversa, em que eu comentava precisamente naquele sentido : « Nós, angolanos, tal como vocês, somos latinos », assim justificando a forma expansiva daquele povo magnífico, cujo destino histórico tem incorporado um sofrimento recorrente.

Há dias, um incidente judicial, com contornos políticos, voltou a agravar as relações bilaterais. Se acaso eu encontrar, daqui a horas, um qualquer amigo angolano – e tenho vários e bons – e lhe disser, com a verdade iniludível dos factos, que o governo português nada pode fazer face à autonomia do Ministério Público, pelo que é totalmente injusta a imputação de responsabilidades políticas e o alarido que isso provocou em setores de Luanda, quase que apostaria que ele acabará por me dar razão. Os angolanos, lá no fundo, sabem bem que as coisas são assim, que ninguém terá ficado mais desagradado pela coincidência temporal das revelações de um processo do que a nossa ministra da Justiça, originária de Angola e oriunda do próprio Ministério Público português, e que viu o incidente cancelar a sua deslocação oficial a Luanda.

Há quem, em Portugal, esteja apostado em prejudicar as relações com Angola ? Claro que sim, mas aí a « reciprocidade » é total… Por isso, só resta ter sangue frio e esperar.

9 comentários:

Anónimo disse...

É bonito o que se soube agora do juiz Carlos Alexandre e das suas relações com Angola. Para Angola rapidamente e em força.

Portugalredecouvertes disse...


Sr. Embaixador,
penso que deveria haver mais filmes para dar a conhecer esse grande país !

Luís Lavoura disse...

o governo português nada pode fazer face à autonomia do Ministério Público

O Governo nada pode fazer, mas a Assembleia da República poderia e deveria diminuir essa autonomia.

Em países civilizados do mundo, o Ministério Público não tem liberdade de andar a pôr em causa altas autoridades políticas do próprio país nem de outros países. Pode ter fundadas suspeitas sobre elas, mas não as pode acusar.

Há imunidade diplomática e imunidade parlamentar. Essas imunidades podem e devem ser estendidas a outras pessoas - em particular, titulares do poder político no próprio país ou no estrangeiro.

Também não se percebe a facilidade que o Ministério Público tem de andar a divulgar na comunicação social as acusações que faz. O MP poderia acusar o vice-presidente de Angola mas não tinha qualquer precisão de o divulgar publicamente. Por que o faz? Por que tem liberdade de o fazer?

Aldema disse...

Continuo seguindo seu blog e agradecendo os comentários lúcidos e as informações relevantes

Aldema

Anónimo disse...

Grandes "tempos" pós os ocupantes coloniais cubanos.....originários da ilha onde o sol comunista nunca se extingue, continuando a ser um farol para geringonços...e associados.

Retornado disse...

O maior crime colonial europeu em África após as escravaturas para as américas, foi aquilo a que a comunidade internacional resolveu chamar "independências" daquelas fronteiras a gosto.

Mas a Europa vai pagar, porque o africano não é "burro" e tem memória, e vai denunciando diariamente, em Lampedusa, em Ceuta e Melila na Normandia e no fundo do mediterrâneo.

Isabel Seixas disse...

Esperar é tão viver como o deixa andar, sem dúvida.
A mim em determinados contextos mete-me uns nervos, mas reconheço que estratégia de maior inteligência emocional é respirar fundo e lembrar-me da mais valia de ser mortal, hum é tão bom, quase consigo relativizar tudo...Menos o sofrimento dos vulneráveis que é o mesmo que dizer o sofrimento injusto de crianças de qualquer idade.

Anónimo disse...

"Portugal e Nós"

Portugal é um local de criação abundante de polvos-em-rede.

Portugueses dependentes do estado e dos subscritores dos seus dinheiro e rendas "maviosas"( Santos Guerreiro, no Expresso) dos polvos/partidos, "reguladores" aprovados pelos partidos, desde pelo menos desde 2000, podemos continuar no baile "mandado", longe dos riscos/recompensas de uma sociedade mais responsável e livre.

Com estes empalhados actuais, arriscam-se a ser "incendiados" no futuro.....Deus o permita !

Jaime Santos disse...

Não me parece, Sr. Embaixador, que a atitude angolana seja apenas fruto de excesso de emotividade. Se a investigação que (também) envolve Manuel Vicente não puder ser despachada como politicamente motivada, então tem que ter uma base factual, algo que me parece difícil de aceitar lá por Luanda (além de politicamente muito inconveniente)...