segunda-feira, 6 de março de 2017

Alain Juppé


Acabou, em definitivo, a carreira política, à escala nacional, de Alain Juppé. Com a sua (hoje reiterada) recusa em avançar como candidato presidencial, em substituição de um desgastado François Fillon, o político de Bordéus colocou um ponto final num percurso público que prometeu bastante mais do que conseguiu efetivamente concretizar. 

"O melhor de entre nós", como lhe chamava o seu grande mentor, Jacques Chirac, acabou por ter um destino nacional limitado, de certo modo sucedendo-lhe algo parecido a um seu prometedor conterrâneo, que também não conseguiu ultrapassar a soleira do Eliseu, Jacques Chaban-Delmas.

Alain Juppé foi ministro e primeiro-ministro de França, tendo em tempos sido condenado por uso indevido de bens públicos, num processo em que, ao que tudo indica, protegeu e pagou por Chirac, o que o levou a uma penosa "travessia do deserto", em parte no Canadá. É impressionante a descrição que faz, num dos seus livros, das horas que passou, detido, numa fronteira americana, expiando o cadastro passado, que a burocracracia policial dos EUA não esquecera. Apesar de tudo, e não obstante o seu caráter algo arrogante, a França parecia ter-lhe perdoado esses pecadilhos do passado, colocando-o, nos tempos de hoje, na prateleira reverenciada dos "senadores" da República.

O gaullismo de Juppé - tal como o de Chaban-Delmas, de quem Delors fora adjunto - era marcado por uma leitura muito mais social e muito menos liberal do que a de François Fillon. Por essa razão, da mesma forma que acontecera em 2003 com Chirac, alguma esquerda poderia, numa hipotética segunda volta com Marine le Pen, dar-lhe com maior facilidade o seu voto. 

Mas esse, curiosamente, terá sido o "defeito" que fez com que tivesse sido ultrapassado, com surpresa maioritária, por Fillon, nas Primárias da direita. O radicalismo conservador do "Les Republicans" - nome atual do partido da direita democrática, que já foi UMP, RPR e coisas outras - está manifestamente a aproximar-se da perigosa fronteira com a extrema-direita, cedendo programaticamente a alguns dos seus slogans, como Sarkozy já demonstrara. Juppé, que reflete uma versão moderna do "gaullisme de gauche", estava assim já em "terra de ninguém" em matéria de apoio partidário. E, por isso, sai hoje de cena, sem glória mas com alguma honra política.

2 comentários:

Anónimo disse...

Saindo de cena permite a Macron ganhar, e por conseguinte a Fillon perder.

Portanto, so tem a ganhar com a saida.

Luís Lavoura disse...

O homem já tem 71 anos de idade, ainda bem que acabou a carreira política. Isso não é idade para se ser líder de um país.