quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Sucedâneos

Hoje, em mais um grande texto no Diário de Notícias, Ferreira Fernandes lembra o filme de Elia Kazan, "America, América", a célebre expressão do imigrante ao chegar à vista de Manhattan.

Uma noite, em Nova Iorque, fui convidado para um jantar com a mulher de Elia Kazan, inglesa, a qual, creio, estava acompanhada por uma filha. Kazan ainda era vivo, mas já não saía de casa. O jantar - espero que a minha memória me não traia - era em casa dos embaixadores turcos. Kazan nasceu em Istambul.

Eu teria tido grande curiosidade em conhecer Kazan, não apenas porque ele era um génio do cinema, mas porque teria assim o ensejo de me cruzar com alguém que havia tido um comportamento miserável, aquando do sinistro Comité das Atividades Anti-Americanas, denunciando colegas ao macartismo.

Mas Kazan não estava lá. Os convidados estavam reunidos à volta da sua mulher. Que estava ali, claramente, apenas por ser mulher de Kazan, nome que veio à baila uma única vez, numa breve referência. A ocasião era assim, manifestamente, sem objeto. Foi uma noite que recordo como algo pífia.

Vinte anos antes, em Oslo, eu havia sido convidado para jantar com um chileno, refugiado há poucos meses na Noruega. Ele era a estrela do jantar, muito por se saber que era primo da famosa secretária de Allende, a Payita.

A certo passo, dei-me conta do ridículo da situação: todos olhávamos, com alguma reverência política, para aquela figura, apenas e só pelo parentesco que tinha. (Acabaríamos por nos tornar bons amigos). O nome da Payita acabou por nunca vir à conversa.

À saída, o amigo que me levara ao jantar notou que eu não fizera quaisquer perguntas sobre a Payita. Respondi-lhe: "O que é que tu querias que eu perguntasse? Talvez: 'olha lá! E que tal era a tua prima?' " Acabámos às gargalhadas.


Isto de gente um bocado "ao lado" é como o queijo "tipo Serra"...

Sem comentários: