sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

E se a Europa...


Há dias, alguém notava que, em escassas dezenas de anos, foi possível incutir no sentimento nacional a noção de que não há um futuro para Portugal fora da Europa. O projeto integrador passou a fazer parte do “politicamente correto” português, constituindo uma bizarria insana querer desenhar, for a dele, alternativas para o nosso destino coletivo. De certo modo, a Europa, como alguns já tinham defendido, foi a substituição do projeto imperial, colonial ou ultramarinista – dependendo do arrebatamento histórico de cada um.

Durante muito tempo, o PCP era a única força política que, começando por não acreditar na possibilidade de Portugal entrar nas então Comunidades Europeias, defendeu, a partir da adesão,  uma integração relutante, marcada por um soberanismo que pedia meças à direita mais cética. Não deixa de ser irónico que uma força política tributária de uma cultura histórica internacionalista se tenha acabado por transformar no partido paladino das fronteiras, defensor da preferência nacional, feroz crítico da globalização, oposto à NATO. Ninguém espere, contudo, que eu especule, a partir daqui, com a nova agenda americana que há dias nos saiu em rifa…

Hoje, o país está “colonizado” pela ideia europeia, tida como referente da democracia de que usufruimos, fonte de ajudas das quais Portugal parece não poder prescindir, terreno de partilha de valores que marcam a nossa opção civilizacional. Dos vários patamares de integração – e nós estamos em todos – aquele que oferece  mais dúvidas é o da moeda única, sendo que Schengen também tem os seus detratores. Mas a opção europeia faz parte da nossa paisagem indiscutida como país.
Portugal tem 900 anos, a nossa integração na Europa tem quarto décadas. Portugal existiu, como Estado soberano e independente, muito antes de quaisquer ideias de unir as nações do continente. Vale agora a pena fazer uma pergunta incómoda: e se a União Europeia, tal como a conhecemos vier a diluir-se ou mesmo a acabar como projeto politico? Que Portugal há para além da Europa?

Esta provocação tremendista, que há alguns anos pareceria ridícula, não pode deixar de ser feita. A capacidade de manutenção de Portugal no euro é vista, por muitos, como duvidosa. Os sinais de que uma Europa com regresso das fronteiras pode vir a nascer são muito fortes. Marine Le Pen anuncia, em caso de vitória, um referendo sobre a permanência da França na União Europeia – o que, por si só, significaria um inevitável cisma com a Alemanha. Noutros países acumulam-se dúvidas sobre o projeto comum. Do outro lado do Atlântico, os sinais de uma desafetação face ao nosso projeto integrador são mais do que evidentes – e nós sabemos que a América é um poder europeu. Como cereja no topo do bolo, há que pensar que, em Portugal, o sentimento eurocético só tem condições para prosperar.

Falaremos mais sobre isto.

8 comentários:

Anónimo disse...

Sendo assim o que nos custa - mais uma vez - dar razão ao PC ?

António Marques Mendes disse...

"força política tributária de uma cultura histórica internacionalista".

Seixas da Costa, esta não posso deixar passar.
Desde quando é que o império soviético foi internacionalista? Se foi pelo facto de se ter expandindo, então todos os impérios foram internacionalistas. Até o 3º Reich!

Jaime Santos disse...

Reconheço razão ao PCP quando diz que o País deveria estar preparado para uma desagregação da zona Euro. Dou ainda razão àqueles que consideram que a moeda única foi a principal (mas certamente não a única) causa da estagnação económica que dura desde o momento em que adotamos o Euro. O que duvido é que tal desagregação deva ser vista como desejável. Mais, as políticas de cariz inflacionista e de renegociação da dívida que são propostas como remédio assentam numa hipótese que não é assumida, que serão os depositantes bancários a assumir perdas (e não serão certamente os ricos entre eles a fazê-lo). Só temos que nos lembrar de como era a vida nos anos 80 e colocar a pergunta se desejámos voltar para tal tempo. Depois, é altamente duvidoso que uma (inevitável) renegociação da dívida não se faça sem condições duríssimas impostas pelos credores, leia-se nova austeridade (o país enquanto economia aberta precisaria de reservas de moeda estrangeira, ou a sua moeda não resistiria um dia, e ninguém no seu juízo defenderia agora a não convertibilidade). Era bom que fosse honestamente explicado o que nos pode esperar, porque se não for, as pessoas não culparão quem a montante tomou a decisão de entrada na UEM, culparão aqueles que a jusante serão tidos como responsáveis pelo sério agravamento das suas condições de vida...

Anónimo disse...

Pois eu penso que nós nunca deixámos de ser e estar na Europa, incluindo no projecto civilizador/Imperial em competição com outros coleguinhas europeus, nomeadamente a nossa querida vizinha Espanha e os nossos protetores contra esses queridos vizinhos, França e Inglaterra. A evolução técnica, ou as revoluções industriais, como se lhe queira chamar, determinam outras organizações e arranjos entre os mesmos europeus e a revolução tecnológica de que tenho sido testemunha viva, tem na realidade imposto alterações de monta quase todas fantásticas mas, simultaneamente, tem destruído empregos e formas de vida ... mas, que fazer: parar o progresso? Seria preciso ser muito reaccionário!!
João Vieira

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

tudo o que diz tem muito razão de ser, mas entretanto quase metade da "nossa" banca já é espanhola (o BPI já lá canta)... Já pensou a situação em que Portugal ficaria, se, por desagregação da zona Euro ou da própria UE, tivéssemos de voltar a ter com os nossos vizinhos uma relação estritamente bilateral?

Portugal, ao fim de 40 anos de conversa europeísta, está na situação de só ter más opções, está na frigideira, mas só tem a opção de saltar para o lume... Onde nos levou a incompetência da nossa classe dirigente.

A. Costa Santos

Admirador brasileiro disse...

Aguardo com interesse seus próximos comentários a respeito.

Valorizo muito quem tem a capacidade e o desejo de pensar sobre o que ainda não é lugar-comum ou a manchete de todos os jornais.

José Alberto disse...

Caro FSC,

Há já alguns anos que ando a desafiar alguns amigos ligados aos partidos, à política, comentadores, etc. para exercitarem a imaginação e tentarem prever o imprevisível. Senti que andava a pregar no deserto, mas com a convicção que a continuar-se na defesa do politicamente correcto as surpresas iriam aparecer. Tal como se vê, elas começam a despontar, muitas e com a capacidade de fazer disparar sinais de alarme em todo o lado.

A leitura deste escrito de FSC, sobretudo na parte final, dá-me a satisfação de me sentir acompanhado. Finalmente alguém com mais notoriedade, visibilidade e credibilidade do que eu vem a terreiro questionar o óbvio. Admitindo que dentro de algum tempo e, numa perspectiva optimista, arrisco prever que entre 5 a 10 anos, todos estaremos fora desta aparente zona de conforto e todos serão /seremos empurrados para zonas de desconforto, pois acredito ser isso ou coisa parecida o que nos espera. Obrigado FSC, abraço - JAGMELO

Ps: A desagregação da UE não é nem desejável, nem indesjável, simplesmente será o resultado de muitas asneiras que foram feitas ao longo de algumas décadas e agora agravadas, internamente na UE, pela incapacidade dos dirigentes europeus e, externamente, por causa de factores que nos ultrapassam e para os quais a nossa opinião, como país, nunca será tida em conta. "A vida é feita de mudança" e a vida do planeta também. É bom que se vão ajustando a novas realidades, pois a formação de uma nova ordem mundial em perspectiva não terá contemplações e, não há razões históricas para acreditar que venha a ser pacífica.

Anónimo disse...

"quarto décadas"