sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

As cerejas e o Esperanto


Há dias, tive uma surpresa: vi numa notícia que uma delegação de esperantistas portugueses a um congresso internacional fora chefiada por um amigo que há vários anos perdi de vista, o Miguel Faria de Bastos. Não fazia a menor ideia de que o Miguel, que conheci como advogado de renome em Angola e que mais tarde cruzei várias vezes em Lisboa, se dedicasse ao Esperanto, essa língua internacional que existe há bem mais do que um século e que, como conceito, incorpora uma ideia interessante de entendimento e de paz. Por uma qualquer razão ligo-a também sempre ao anarquismo.

O meu primeiro "encontro" com o Esperanto foi na biblioteca dos familiares de um tio que não cheguei a conhecer, onde descobri um manual de Esperanto. Na altura, entusiasmei-me em aprender algumas palavras daquela estranha língua. Conhecendo-me bem, imagino que o entusiasmo deva ter durado escassos dias.

O Esperanto viria a cruzar-se comigo de novo, anos mais tarde, no Porto, quando por ali andei na universidade, na segunda metade dos anos 60. 

Eu tinha alugado, a meias com um amigo, um quarto num apartamento na Rua Miguel Bombarda (alguém acredita que, nessa altura, praticamente não havia nenhuma casa comercial nessa artéria hoje "trendy" do Porto?). A dona da casa era uma senhora que devia ter então os seus 80 anos, muito digna e educada, com os cabelos muito brancos agarrados num puxo, que se percebia, até por alguns objetos restantes na decoração da casa, que tinha tido tempos de uma vida mais "aisée". Por aquela altura, alugava dois quartos para o seu sustento. Por ocasião dos tumultos do maio de 1968, o seu filho, que trabalhava na embaixada ou no consulado em Paris (ou seria na Casa de Portugal, na Cité, então invadida?), por uma qualquer razão que me escapa, mas que se ligava aos acontecimentos, terá regressado apressadamente ao Porto. A pobre senhora, que lembro que era menos bem tratada pelo antipático cavalheiro, teve de ir dormir para um divã na sala de jantar, que eu e o meu amigo éramos obrigados a atravessar, para aceder ao nosso quarto, nas madrugadas de algumas borgas. A penosa situação só durou alguns meses, porque, entretanto, no final desse ano letivo, abandonámos o quarto.

Mas onde é que o Esperanto entra nisto? Um dia, ao pequeno almoço, num conversa com a dona da casa, D. Isabel, ela mencionou, já não sei bem a que propósito, que o seu falecido marido era autor de um importante manual de Esperanto. Nesse instante, lembrei-me do livro que descobrira na biblioteca do meu tio. Vi a velha senhora abrir-se num sorriso de esperança, saindo apressadamente da cozinha, onde a cena se passava, e, um minuto decorrido, surgiu com um livro na mão. Era aquele mesmo! Vi então algumas lágrimas a molharem as rugas de uma cara que devia ter sido bonita. A coincidência fora bem feliz!

A minha memória também não reteve o nome do autor do manual de Esperanto, bem como o da sua viúva, que se fosse viva teria hoje cerca de 130 anos... Será que algum leitor esperantista me pode ajudar a descobrir esse nome e o manual, que deve datar dos anos 30 ou 40 do século passado? Ou talvez eu recorra ao Miguel Faria de Bastos, como belo pretexto para nos revermos.

Por que luas me lembrei do Esperanto hoje? Porque alguém falou nesta língua mítica num dos comentários hoje feitos no blogue, e isto é como as cerejas...

(Alterei ligeiramente este texto depois de uma conversa com o meu antigo companheiro de quarto, um dos meus grandes amigos, que me ajudou a precisar melhor os factos.)

7 comentários:

Anónimo disse...

Pela idade que sugere bem pode ser obra do lisboeta Jorge Aníbal Saldanha Carreira, que por 1916 editou com outros manuais acerca do tema, que tiveram reedições na década de 1930 e na seguinte. Não sei nada do assunto tirando o que pesquisei no catálogo da Biblioteca Nacional, que sendo depósito legal terá por lá tudo (há quem não cumpra a entrega obrigatória). http://catalogo.bnportugal.pt/ipac20/ipac.jsp?session=1KG735871268N.10229&profile=bn&menu=home&ts=1487359706244

Os mais prováveis, pelas datas que sugere, diria que podem ser, por exemplo, Jorge Anibal de Saldanha Carreira e Luzo Bemaldo, Curso elementar de esperanto, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1931

Mas também pode ser o Álvaro Pontes, Esperanto sem Mestre em 8 Lições, Método Popular, Lisboa, ed. Autor 1937, cuja capa pode ver aqui http://www.goodreads.com/book/show/9316983-esperanto-sem-mestre-em-8-li-es

Mas também existe uma grámtica da língua auxiliar esperança, editado no Porto, em 1907 por José Augusto Proneça, cuja capa de 1907 se pode ver em http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/RaridadesBibliograficas/Raridades_GramaticadeEsperanto.htm. Não existem edições dos Proenças das décadas que indica.


Reaça disse...

Hoje tínhmos o Esperanto como língua oficial da Europa e parte do mundo, se não tivesse havido vencidos nem vencedores na II Grande Guerra.

Mas a Inglaterra e os EUA o Canadá e a Austrália foram os verdadeiros «aliados» vencedores...logo!

E o Inglês substituiu o Esperanto.

Gonçalo Neves disse...

Não entendo por que razão se chama «língua mítica» ao esperanto. Felizmente o tradutor automático e o motor de busca do Google não são da mesma opinião, pois aí o esperanto figura em pé de igualdade com muitas outras línguas não míticas, tal como no sítio da Lulu.com (edição electrónica de livros) e em muitos outros...

Paulo Cesar Pires disse...

Reportagem interessante.

Saluton el Brazilo!

Descubra o esperanto: https://esperanto.blog

profesiulo.info disse...

Anualmente realiza-se o congresso mundial de esperanto.
Em 2018 tal evento (o 103º) acontecerá em Lisboa.

Anónimo disse...

Mia patra avino lernis Esperanton kaj ankoraū memoris ion 97 jaraj ( a acreditar no Google Translator, que vale o que vale e geralmente não é muito, isto é a tradução para Esperanto de : A minha avó paterna aprendeu Esperanto e ainda se lembrava de qualquer coisa aos 97 anos de idade).

Luís Quartin Graça

Fernando Correia de Oliveira disse...

Havia um barbeiro no Campo das Cebolas, em Lisboa, que, antes de 25 de Abril de 1974, tinha na montra um letreiro (cito de cor) onde se lia "Esperanto parolato", ou seja, "aqui fala-se esperanto". Como língua internacionalista, foi reprimida em Portugal pelo regime e, jovem estudante, sempre que passava pelo tal barbeiro, admirava-lhe a coragem.