sábado, 14 de janeiro de 2017

Os riscos e as incoerências


Até 2011, muito pouca gente em Portugal tinha ouvido falar da TSU e dos seus critérios. Foi nos debates televisivos Sócrates-Passos que o tema surgiu, ainda um tanto críptico, para os não iniciados. Só um ano e tal depois, quando as principais malfeitorias governativas deixaram de ter como (cómodo) alvo de estimação a Função Pública e ameaçaram os assalariados privados, o país se deu ao trabalho de vir para a rua protestar (e travar) um certo modelo de TSU, que os seus "criadores" confessaram mais tarde ter surgido numa converseta numa viagem Lisboa-Bruxelas - o que permite hoje avaliar o sentido de responsabilidade de quem andava então pelo Campo das Cebolas. Nem mesmo as entidades patronais se aventuraram a abençoar essa "trouvaille". A descida da TSU para o patronato, paga pelos assalariados, acabou por cair e isso foi também o princípio da queda de Vitor Gaspar.

A TSU volta agora à baila. O governo PS quis agora introduzir um alívio à carga patronal, como compensação da aceitação da subida do salário mínimo. No Rato, sabia-se de ginjeira que a doutrina anti-empresarial endémica do PC e do Bloco nunca permitiriam o seu apoio à primeira medida, empochada que ficava a segunda. Assim, só com o apoio da direita ela poderia passar. 

Perante o acordo obtido em concertação social, o PSD esteve inicialmente silencioso, tendo mesmo mandado uma figura de segunda linha dizer, publicamente, que concordava com este alívio ao patronato, onde reside o seu "fond de commerce" histórico. Mas, depois, não resistiu e mudou de ideias. Entre a lógica de um partido com sentido de Estado - apoiar aquilo com que está programaticamente de acordo e rejeitar aquilo que contraria os seus princípios - há (neste) PSD uma terceira via, que é fazer tudo quanto possa prejudicar o governo, seja essa atitude coerente ou não com aquilo que sempre pensou e disse. Mesmo que isso aliene quem tradicionalmente o apoia.  

Ao PS, nesta corda-bamba em que anda, era tempo de fazer um gesto positivo para o setor empresarial, Ou conhecia mal (este) PSD ou resolveu correr o risco de confrontar politicamente a oposição com a respetiva incoerência. Convenhamos que foi uma tentativa um tanto "ligeira", numa questão desta importância. Passos Coelho sai pessimamente disto, mas António Costa também vai pagar um preço.

Resta Marcelo Rebelo de Sousa, que revelou o seu contentamento com o anterior acordo e a quem, ao que se sabe, Passos Coelho não alertou desta sua atitude obstrucionista no almoço da passada semana em Belém. Fica provado que, às vezes, "não há almoços grátis" para quem os oferece.  

9 comentários:

Anónimo disse...

PCP e BE não têm problemas endemicos com os patrões.tem e problemas endemicos e com os patrões que querem que sejam os contribuintes a pagar-lhes os negócios deles. Se o embaixador não se importa eu mando-lhe a minha renda para pagar. Pode deixar aí o contacto de correio?

Anónimo disse...

Fica muito mal ao PSD votar contra o seu próprio pensamento. Fica também muito mal ao governo jogar com a TSU quaisquer que sejam as razões. A TSU tem a sua própria razão de ser.
Fazer política de curto prazo com algo tão sério como a Segurança Social é inadmissível. Isto não significa que não seja legítimo repensar o financiamento desta. Porque não compensar as empresas com um abatimento no IRC? Só afeta as finanças de um exercício
O Doutor Eugénio Rosa, por exemplo, tem feito estudos sérios sobre o assunto (não sou seu correligionário.

José Neto

Anónimo disse...

Incoerências da geringonça......

"“Às vezes, pergunto-me se nesses partidos mais à esquerda não pensariam mesmo que ‘isto é que era bom, eles ficam a decidir o Salário Mínimo Nacional, o mais alto possível, o PSD que, depois, lá no Parlamento, pague a factura dessa coisa, que eles não estão para isso'”, ironizou.

“E, se nós não apoiarmos isso, não somos responsáveis e somos incoerentes”, acrescentou, frisando que o PSD “não faz parte da geringonça”, que “ninguém pediu opinião para tomar estas decisões” e que consigo “não negociaram nada”.

Passos Coelho dixit

Passos Coelho sublinhou que o seu partido pode não concordar, mas respeita e sempre respeitou as posições dos parceiros sociais e disse esperar “a mesma coisa de volta”, mas frisou que não foi com os sociais-democratas que os parceiros sociais negociaram.

“Foi com o Governo e o Governo não nos veio pedir a nós apoio para fazer aquela negociação, foi ao Bloco de Esquerda e ao PCP. Portanto, é lá que vai mesmo ter que resolver esse problema”, acentuou.

O presidente do PSD assinalou que “quando estava no Governo com o CDS, negociava com o CDS”, afirmando que “o PS tem uma negociação com o Bloco de Esquerda e com PCP e é lá que deve negociar”.

Referindo que PS, PCP, BE e ‘Os Verdes’ “não perdem nenhuma oportunidade para lembrar que o PSD não é preciso no Governo para coisa nenhuma e que o seu voto não é preciso para nada”, Passos Coelho pediu a esses partidos que sejam “coerentes com esta sua afirmação”.

Antonio Cristovao disse...

A condenavel e mal amanhada decisão do PS de proseguir a getão ruinosa para o futuro da SS com expedientes meio manhosos é do....PSD. Brilhante.

Anónimo disse...

Aqui se prova como se pode criticar o anti-empresarialismo endémico de dois partidos no mesmo post em que se defende que o empresarialismo privado seja pago pelos contribuintes. Há um qualquer curto-circuito mental e conceptual na cabeça que acha que negócios privados apoiados por mim são só modelos empresariais a seguir, criticáveis apenas por quem seja endémicamente anti-empresarial. Tolices, que o preconceito cega.

Anónimo disse...

É um partido onde Silva Peneda não é ouvido mas onde imperam Cabreus Amorim, Montenegros e Marcos António. ESTÁ bem entregue.

Anónimo disse...

O Passos Coelho amuou. Até no tom da voz se vê. Está no assim não brinco. É a política da birra e país que se lixe. Não se percebe o que diz o António Cristóvão. Mas o PS é de facto contra as SS.
Fernando Neves

Anónimo disse...

Eu gosto muito de ler o senhor embaixador, apesar (ou talvez por isso mesmo) de raramente concordar consigo quando o assunto é política. Neste caso específico não poderia ser diferente. Pedro Passos Coelho, ao não ir dar a mão, várias vezes rejeitada, a esta gerigonça, fica "pessimamente mal"? Interessa saber a quem. Aos apoiantes do PS, e desta geringonça, que gabam a "arte" de António Costa? Naturalmente. Gostavam que as incongruências desta solução governativa passassem pelos pingos da chuva, e António Costa mantivesse a aura de quem tudo pode e consegue. Aos apoiantes ou simpatizantes do centro direita? Duvido. Passos Coelho, ao agir assim, mostra que a solução governativa não é, nem estável, nem segura, como disse António Costa. E que não está disposto a ser vilipendiado e mesmo assim apoiar a geringonça. Mostra também a estes que tem fibra, e não tem receio de ir contra a aparente vontade de Marcelo Rebelo de Sousa tudo fazer para evitar crises, mesmo que originadas na “geringonça”, como parece ser este o caso. Ao eleitor "sem partido", flutuante? Duvido também. Aí dependerá da imagem principal que passar. (Política é percepção) Será que a comunicação social, e todos os inimigos de Passos Coelho, conseguem fazer vingar a sua suposta incoerência (que não é de facto, uma vez que "esta" TSU não era a "sua"), ou a imagem que fica é a da inconsistência desta solução governativa, e de que afinal o “estável” e “segura” com que António Costa a “vendeu” são tudo menos isso? Veremos.

António

Anónimo disse...

A verdade que os geringonços não dizem, e que todos já sabem, menos os teimosos:

Em "intenet sem censura-Delito de Opinião-Rui Rocha"

"A estratégia de Costa na Concertação Social consistiu, resumidamente, em oferecer aos trabalhadores dinheiro dos patrões e aos patrões dinheiro da Segurança Social. Perante isto, há, de facto, uma lição de fundo ético a retirar do episódio. Mas não é aquela que tem sido divulgada por certos arautos de pragas, cataclismos e calamidades.

Essa lição consiste em reconhecer que não é sério negociar apresentando-se aos parceiros como dono daquilo que não se tem.

Esta lição é ainda mais grave quanto é certo que não é a primeira vez que Costa transgride esta regra de conduta essencial.

Se virmos bem, foi exactamente assim que procedeu no caso da Caixa Geral de Depósitos: prometeu a António Domingues um regime de excepção que não estava nas suas mãos garantir. Os resultados são conhecidos."