sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O trigo e o resto


Os jornalistas portugueses estão reunidos em congresso. A profissão atravessa momentos difíceis, com redações depauperadas, muita gente com vínculo precário, salários em geral baixos, com o futuro de muitos órgãos de informação em grave risco. 

Quero crer que este encontro, em que vejo envolvidos grandes profissionais do setor, é um importante momento de reflexão prospetiva sobre o que poderá vir a ser a comunicação social portuguesa nos próximos anos. Desejo, como utente, que possam chegar a boas conclusões, que as possam tornar operativas, com consequências concretas na melhoria das suas condições de trabalho, mas também com efeitos na qualidade do produto de que diariamente são obreiros. Porém, e sem querer ser pessimista, pergunto-me se ainda irão a tempo.

O jornalismo passou, nos últimos quinze anos, por um desafio a que claramente não soube dar adequada resposta: as redes sociais. Qualquer bicho careta, com um blogue, uma página de facebook ou uma conta de twitter, lança para o ar “notícias”, sem um mínimo controlo de veracidade dos factos, com estes quase sempre embrulhados em opiniões de qualidade duvidosa. A comunicação social, em lugar de se distanciar, de reforçar o seu papel de referente da verdade, da precisão e do rigor, deixou-se embalar por essa moda. E a que é que assistimos ? Vimos e vemo-la a citar preguiçosamente a blogosfera e as graçolas do twitter, a deixar-se guiar pelas pistas lançadas na internet. 

Espantamo-nos também ao observar jornalistas a quererem ser vistos como isentos e neutrais nos textos elaborados na sua profissão e, ao lado, a subscreverem opinião enviezada nas redes sociais, num triste modelo de “Dr. Jeckill and Mr. Hyde”. A primeira vitória de um jornalismo que se pretenda de qualidade passa pela total autonomização face às redes sociais, resistindo ao imediatismo destas, praticando por sistema o “fact-checking”, confrontando fontes e ouvindo partes. O utente da comunicação social, se esta quer ter um futuro, tem de reganhar o velho estatuto do “é verdade, porque vem no jornal”. É também necessário criar, com urgência, um visível “firewall” entre o que são os factos, reportados numa notícia, com as várias posições descritas de forma neutral, e o que é a opinião.

Nos últimos anos, assistimos a uma saudável quebra do monolitismo corporativo que parecia federar a classe jornalística. Vemos hoje profissionais respeitados dar mostras de incómodo perante práticas de colegas, em televisões ou em jornais. Este é o caminho, separar o trigo do resto e denunciar, em alta voz, quem está a prejudicar a imagem da profissão. Espero, sinceramente, que ainda possam ir a tempo.

9 comentários:

Anónimo disse...

"...separar o trigo do resto e denunciar, em alta voz, quem está a prejudicar a imagem da profissão. "

Mas como?, se se instalou uma "normalidade" que traz toda a gente anestesiada pelo lógica de reality show permanente?
Veja o que se passou com a cobertura da RTP 1 ao funeral de Estado de M Soares, onde nem sequer faltaram os intervalos publicitários para promoção do calcitrim. Deu por algum protesto ? Eu não !

MRocha

Anónimo disse...

Lido por aí


http://temposmodernos.blogs.sapo.pt/nao-sei-o-que-me-levou-da-profissao-que-469993



http://temposmodernos.blogs.sapo.pt/a-culpa-e-nossa-ou-a-avestruz-no-areal-467570

Mal por Mal disse...

Há profissões que vão desaparecendo, tal como o pronto a vestir e a calçar foi acabando com sapateiros e alfaiates, o mesmo vai acontecendo com o pronto a escrever, acaba com os jornalistas e escritores e os pré-fabricados acaba com os pedreiros.

Anónimo disse...

Quando um DN ou um Público custam € 1,70 por meia dúzia de páginas ao fim de semana é sinal que o jornalismo está a acabar. Se já se lêem poucos jornais, a este preços é para acabar com os leitores. Sobre o Expresso já nem comento.

Anónimo disse...

" “é verdade, porque vem no jornal”. ".

Indique um .......

Anónimo disse...

Difícil escrever em jornais, com tantos "democratas" de raízes e rebentos "formatados" na nomenklatura bafienta (1917) em que temos de viver, em 2017 !

Joaquim de Freitas disse...

Se o Senhor Embaixador autorizar este « comentário » um pouco longo, que postei algures no Facebook, abordo um pouco o tema .


COISAS QUE DASAPARECEM DAS NOSSAS VIDAS

Não deixa de ser interessante notar, e muito verdadeiro também, se estas mudanças vão ser boas ou más, depende em parte de como nós nos adaptarmos a elas. Mas, quer as desejemos ou não, aqui vão elas...
1. O Correio
. O e-mail, FedEx, Facebook e SMS, têm praticamente dizimado as cartas, que é como quem diz a receita mínima necessária para manter os Correios a funcionar. O pouco do que ainda recebemos pelo correio, todos os dias, não passa de ”lixo” e contas.
2. O cheque
A União Europeia já está a preparar o terreno para acabar com o cheque até 2018. O processamento de cheques custa bilhões de euros por ano ao sistema bancário. Cartões de plástico e transacções on-line, ou pelo telefone, vão levar à eventual extinção do cheque. Isto tem ligação directa para a morte dos Correios. Se ninguém nunca pagar as suas contas pelo correio e nunca receber as pensões pelo correio, os Correios ficam em absoluto fora do negócio.
3. O jornal
A geração mais jovem simplesmente não lê o jornal. Eles certamente não se deslocarão a um quiosque para procurar um jornal impresso. Foi o que já aconteceu com o leiteiro e o padeiro. E se soubessem como ainda acordo de noite com o “cheirinho” do bijou” que a padeira trazia de manhãzinha lá na rua de São Dâmaso …
4. O livro
Eu nunca vou desistir do livro físico, que seguro na mão enquanto leio e vou virando as páginas. Eu disse a mesma coisa sobre o download de música do iTunes. Eu queria que o meu CD tivesse cópia impressa. Mas quando descobri que poderia obter os álbuns pela metade do preço, sem sair de casa, para conseguir os últimos êxitos. E consultar um livro na Biblioteca Mitterrand, em Paris, ou na American Library, em Iorque sem sair de casa…Estou a mudar de ideias…lentamente, e a …entrar na história.
5. O telefone fixo
Já hoje não precisamos do telefone fixo. A maioria das pessoas ainda o mantém simplesmente porque sempre o tiveram. Até a própria Telecom aproveita a linha do telefone mais para serviços, como o da televisão, do que para o telefone. Inclusivamente todas as empresas de telemóveis oferecem serviço fixo gratuito porque ele já é inespressivo.Mas vou guardar o meu, que comprei em Picadilly…
6. A Música
Esta é uma das partes mais tristes da história da mudança. A indústria discográfica está a definhar de morte lenta. E não é só por causa de downloads ilegais. É a falta de oportunidade para a nova música inovadora chegar às pessoas que gostariam de ouvi-la. A ganância e a corrupção é que é o problema. As gravadoras e os conglomerados de rádio estão simplesmente a autodestruir-se. Mais de 40% das músicas compradas hoje são "Anexos dos Catálogos"

Joaquim de Freitas disse...

7. A Televisão
As receitas dos canais televisivos têm caído drasticamente. Não apenas por causa da crise. As pessoas estão a preferir assistir a televisão e filmes a partir dos seus computadores. E, ao mesmo tempo, elas jogam e fazendo muitas outras coisas, que ocupam o tempo que costumava ser gasto assistindo a ver televisão. Programas do horário nobre descambam abaixo do menor denominador comum. A publicidade roda a cada 4 minutos e 30 segundos. Eu digo boa viagem para a maior parte de tudo isso. Quando vejo televisão escolho o programa antes. Recuso o resto.
8. As coisas que hoje usamos
Muitos dos bens que usamos e possuímos já não poderemos realmente possui-los no futuro. Eles podem simplesmente ficar na "nuvem ".
9. A nossa privacidade
Se já houve um conceito, com que podemos olhar para trás com nostalgia, é o da privacidade. Isso já acabou. Ela foi-se já há muito tempo, de qualquer maneira. Vivemos a era do "big-brother". Há câmaras nas ruas, na maior parte dos edifícios, e até mesmo no nosso computador e telemóvel. E vocês podem ter certeza que funcionam 24 horas por dia, 7 dias na semana, "Eles" sabem quem és e onde estás, até as coordenadas GPS, e o Google Street View. Se comprarem alguma coisa, isso é colocado num trilião de perfis, e passam a receber anúncios reflectido essa escolha. O que é muito “chato” ! Neste momento é possível conferir todos os teus passos, desde que te levantas até que te deitas, documentando-os em filmes ou fotografias.

Tudo o que temos perdido e que não pode ser
Este ponto, desagrada-me ao mais alto ponto. Sempre amei a liberdade. E esta é cada vez mais condicionada.



Carlos Cunha disse...

Antes do mais, se mo permite, como eu lamento que o senhor Embaixador tenha enveredado pelo conteúdo do famigerado 'Novo Acordo Ortográfico', o qual, segundo alguns dos mais conceituados filólogos lusos, representa um verdadeiro atentado-crime ao nosso idioma pátrio. Mas enfim!...
Agora, duas palavras para o senhor Joaquim de Freitas. Bravo! Bravo, pela sua análise! Mas esse é o panorama presente. E vem pior!
Muita engenharia social. O Ensino nas escolas, por esse mundo fora.
Se entender, caro senhor, deixo-lhe, aqui, alguns "links" para poder confirmar a dura e crua realidade que a humanidade enfrenta, já. E enfrentará, se não foram tomar urgentes acções.
Foi lançado já um inquietante documentário-filme, "OBSOLETE" da autoria de Aaron e Melissa Dykes [https://www.youtube.com/watch?v=pKN3QBY9Xn0]
A deputada dinamarquesa Ida Auken, no "Fórum Económico Mundial", 2016, defende que:
"Welcome to 2030. I own nothing, have no privacy, and life has never been better"
[https://www.weforum.org/agenda/2016/11/shopping-i-can-t-really-remember-what-that-is/]
Ver também:
https://www.youtube.com/watch?v=1y7QY-uYF_s ["Review of Short Documentary Film OBSOLETE - by: Aaron & Melissa Dykes of TruthStream Media"]
e ainda:
"Mind Control & The Smartphone Zombie Apocalypse"
[https://www.tubeid.co/download-video/n_TZ3uG0m4SjooI/mind-control-the-smartphone-zombie-apocalypse.html]
Estamos entregues à bicharada, como sói dizer-se. E o futuro? Por este andar, o futuro foi-se!
Ou então, como no filme "Matrix": 'blue pill' ou 'red pill'?
[https://www.youtube.com/watch?v=zE7PKRjrid4]
Definitivamente, obsoletos, nós.

Carlos Cunha
WeAreChange.pt