domingo, 15 de janeiro de 2017

O oito e o oitenta


Portugal é um país do oito e do oitenta. Durante anos, por cá, atravessar uma passadeira de rua era uma aventura. Nos guias internacionais sobre Portugal, os turistas eram advertidos para os riscos em que incorriam, caso partissem inocentemente do princípio de que os automóveis parariam à sua passagem. Ainda me recordo da admiração com que, na minha juventude, se falava das "zebra crossing" das cidades britânicas, com o respeito pelos peões como marca civilizacional.

O nosso país mudou. Embora alguns energúmenos ao volante (mas também os ciclistas, que agora estão em odor urbano de santidade, que os autoriza a incomodar-nos sem consequências pelos passeios) continuem a não respeitar as passadeiras, parece cada vez mais interiorizado o salto de civilização que representa o respeito por quem atravessa, no devido lugar, as nossas ruas.

Mas, em Portugal, com facilidade se passa de um extremo ao outro. Na generalidade dos países desenvolvidos, quando um peão pretende atravessar uma passadeira, há um anúncio físico dessa pretensão, seja por um assomar cuidado à rua, seja mesmo por um sinal de mão. E há, em geral, alguma delicadeza perante o facto do automobilista ter de abrandar ou parar, sendo vulgar que a travessia pedonal se faça tendo em atenção o facto do movimento das viaturas ser mais difícil de suspender do que o estacar, por um ou dois segundos, por parte do peão.

Entre nós, não senhor! Qualquer pessoa acha que o simples assomar, em passo sereno, mesmo sem olhar para quem vem, deve obrigar ao estacar imediato dos automóveis. E vemos cidadãos em conversa ao telemóvel, descuidados, outros arrastando-se com visível pesporrência, olhando, sobranceiros, os automobilistas. Outros ainda, à conversa mole, às vezes parando a meio para sublinhar um argumento. E cada vez se veem mais jovens a proceder assim.

Volto ao que disse no início: entre nós é o oito ou o oitenta. Ou melhor, pouca gente compreende que há sempre deveres, pelo menos cívicos, a respeitar por parte daqueles que têm direitos.

16 comentários:

Anónimo disse...

Catarina Martins não acerta uma e diz que é preciso reconhecer o completo falhanço das instituições europeias. Alguém lhe pode explicar, por favor, que há uma coisa que se chama Estados Membros.

Anónimo disse...

Em absoluto e completissimo acordo: os peões sobranceiros são uma peste insuportável que denunciam uma má criação congénita!
João Vieira

Portugalredecouvertes disse...


E cuidado com as multas para quem não abrandar a velocidade do carro ao aproximar-se de uma passadeira com ou sem peões por perto !

Portugalredecouvertes disse...


Quem não tem paciência com os peões, que veja !!!

https://www.youtube.com/watch?v=7JxfgyELvZI

Carlos Fonseca disse...


A maior parte dos portugueses (automobilistas e, sobretudo, peões, que afinal todos somos) deviam ler o Guia do Peão, editado pelo IMT. Talvez os automobilistas aprendessem que devem abrandar em passagens sem semáforos, e os peões ficassem a saber que não têm o direito de se "atirarem" para as "zebras" de qualquer maneira.

Anónimo disse...

era atropelá -los, senhor embaixador!... era atropelá -los!...

Anónimo disse...

Por mais que isso seja verdade, tudo se esbate perante a quantidade de canalhas que atiram com os carros para a frente dos peões. Um automobilista mata um peão; o contrário não acontece!

JS disse...

Apoiado. Ciclistas e pedestres nas passadeiras com conduta nada cívica.

Joaquim de Freitas disse...


Quando a educação de base faltou e o civismo não foi ensinado, ainda resta a capacidade de « nuisance », para afirmar que se existe…

dor em baixa disse...

Atravessar uma rua numa passadeira na qual o semáforo está verde para o peão e amarelo como indicação para os automobilistas é uma atitude muito perigosa. O automobilista passa se o peão se "encolher" e essa circunstância é a receita para o atropelamento.
Face aos perigos que corri naquelas situações (quando numa das passagens da encruzilhada não existe a possibilidade de um automóvel chocar com outro já não há semáforo algum que proteja o peão, ele fica ali encurralado à espera que não haja nenhum carro) deixei de usar o dispositivo e atravesso onde posso, quando posso, vigiando todas as ameaças de todos os lados, inclusive as bicicletas, ainda que estas não sejam perigosas porque não têm motor.

Rui C. Marques disse...

É meu modesto entendimento que o principal problema do pais é a Educação.

Fernando Nogueira disse...

O problema é também exacerbado pelo facto de ao contrário de outros países como o Reino Unido, muitas vezes não haver proibição de estacionamento nas zonas imediatamente adjacentes às passagens de peões, (25mts) com carros estacionados junto às passagens, o que dificulta a visibilidade e impossibilita a antecipação por parte dos automobilistas, aumentando considerávelmente a probabilidade de acidentes.

Anónimo disse...

Fernando Nogueira,

Duvido que seja assim. Quando tirei a carta era proibido o estacionamento junto às passadeiras. Salvo erro 5 metros antes.

Que não se veja isso cumprido será outra questão.

Mas o triângulo a colocar na estrada em caso de acidente tb é para estar a um mínimo de 30 metros e o que vejo, em regra, com policias e tudo já no sítio, é que o põem a um par de metros das viaturas imobilizadas, o que lhe elimina qualquer função ou objectivo de segurança e de aviso eficazes.

Anónimo disse...

Ai passadeira..... Abbey Road dos meus 30 anos... Esta diferente. Os peoes ja correm perigo em S. Joao da Madeira... Ainda hoje la passei com cuidado nao fosse eu de peao ficar a rodar..."Imagine"

Cumprimentos

F. Crabtree

Anónimo disse...

Hoje, por duas vezes que "senhoras" estacionadas em cima do passeio me iam atropelando...

Leitor assíduo disse...

Sr. Embaixador, apoiadíssimo!

Concordo com a observação do Sr. Fernando Nogueira, a respeito da conveniência de se respeitar uma distância entre os carros estacionados e as passagens de peões. São pequenas coisas que evitariam muitos dissabores.

Considero também que uma campanha educativa insistente sobre o trânsito se faz necessária.

Sr. Embaixador, andei a buscar um seu texto neste blog, de há alguns meses, em que falava sobre o trânsito e sobre os motoristas que avançam lentamente com o sinal verde, para terminar de passar com o sinal vermelho. O texto é bom, mas não consegui encontrá-lo. Pode-me ajudar? Obrigado!