quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Mário Ruivo


Quando, em 2012, passei a acumular a chefia da embaixada em Paris com a representação junto da Unesco, ao fazer a regular ronda com os principais responsáveis pela organização, constatei que Mário Ruivo me era invariavelmente referido como a grande referência portuguesa.

Uma década antes, nas Nações Unidas, em Nova Iorque, quando promovia os interesses de Portugal nas questões do mar, o mesmo nome era-me sempre citado com imenso respeito.

Mário Ruivo era uma grande figura da ciência portuguesa à escala internacional, uma personalidade ímpar na problemática dos oceanos. Com a sua desaparição, que agora sucede - poucos dias depois do seu amigo Mário Soares, com quem relevou o papel de Portugal nesses domínios -, Portugal perde uma das suas grandes personalidades com prestígio científico reconhecido pelo mundo.

Devo confessar que Mário Ruivo, que hoje desapareceu, era das pessoas por quem tinha maior consideração pessoal, política e intelectual - e não digo isto de muita gente. Era uma personalidade encantadora, um homem do mundo, um espírito aberto, com uma permanente atenção ao novo, um entusiasmo quase adolescente, que fazia esquecer a idade que tinha.

A minha primeira relação com ele foi fugaz. Em agosto de 1975, Mário Ruivo foi ministro dos Negócios Estrangeiros do "famigerado" 5° governo provisório. Esse foi também o mês em que eu entrava para o MNE. A precariedade previsível daquele que iria ser o executivo mais à esquerda da História portuguesa fez com que, nas Necessidades, houvesse uma quase generalizada (e, vá lá, compreensível) recusa para integrar o gabinete do ministro Mário Ruivo. Contactado pelo Agostinho Roseta, disse que podiam contar com a minha disponibilidade para tal função, logo que terminado o meu período militar, no final desse mês. Quando, finda a "tropa", ia assumir o cargo, o 5° governo estava já prestes a cair. Nem assim me livrei, para sempre, desse "ferrete" político. Com garbo e gosto, diga-se...

Mário Ruivo foi um nome mítico da oposição à ditadura. Em várias conversas que com ele tive, durante passagens suas por Paris, contou-me histórias muito interessantes dos seus tempos de Roma, do seu papel na FPLN (Frente Patriótica de Libertação Nacional), da sua leitura sobre a personalidade de Mário Carvalho, o sicário da Pide que levou ao asssassinato de Delgado, mas também sobre a alegada filha bastarda de D. Carlos, que apoiou oposicionistas portugueses. Várias horas ganhei, nas mesas do "Flore", ouvindo-o falar sobre esse Portugal expatriado a que devemos muita da nossa liberdade, com ele sempre a assumir com grande modéstia o seu papel pessoal nesse cenário de resistência.

Desaparece o homem que muitas vezes vestia de verde, o que, no fundo, talvez simbolizasse o seu compromisso permanente com a natureza, a sua grande paixão.

2 comentários:

Anónimo disse...

Mário Ruivo, um grande Homem; um Grande cientista! Esta postagem faz-me lembrar o FB. Coisas publicadas lá, sem qualquer interesse, recebem dezenas de "likes". Quando é algo com valor "0". Também aqui se vê a ignorância que vai neste país,neste caso, os habituais comentadores...

Anónimo disse...

"Mário Ruivo, um grande Homem; um Grande cientista"

Helena/Cascais