sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Marcelo é fixe?


É costume dizer-se que são os homens quem faz os cargos. Nem sempre isso é verdade, em especial quando os “coletes” institucionais são um espartilho que deixa pouca margem para a afirmação das personalidades que os habitam.

A Constituição portuguesa, revista pela experiência histórica posterior à sua entrada em vigor em 1976, acabou por desenhar um cargo que, tendo embora um espaço de manobra inferior ao modelo original – esse sim, um claro semi-presidencialismo –, deixa ainda uma apreciável capacidade de atuação ao titular do cargo, a qual, no entanto, varia sempre na razão inversa da força parlamentar de que os governos dispõem. Se Eanes foi o executante do primeiro modelo, Soares, Sampaio e Cavaco, cada um a seu modo, protagonizaram a plenitude civil do exercício do poder. Cada um teve a conjuntura política que lhe calhou em rifa. 

Soares viveu quase sempre com governos maioritários alheios à sua família política, ungidos de fundos e loas europeias, mas nem por isso deixou uma marca política impressiva, tendo para tal contribuído bastante o facto de ter sido o alegre notário do declínio do cavaquismo.

Sampaio e Cavaco conviveram ambos com as áreas políticas contrastantes. Sampaio foi discreto durante os governos não-maioritários de Guterres e demonstrou uma medida firmeza, de grau nem sempre apreciado pela sua família política, quando teve de confrontar-se com orientações governativas de que estava ideologicamente mais distante. 

Cavaco foi prudentemente institucional quando, do lado do executivo, estava uma maioria de sinal oposto e, enquistando mal as crises, perdeu a tramontana perante o desvario de Sócrates, parecendo viver depois bem mais confortável com o governo maioritário da sua cor sob tutela externa.

Que sobra dos três presidente na memória coletiva? De Soares, o estilo, as presidências abertas e o garbo com que presidiu ao funeral do cavaquismo governativo. De Sampaio, o incansável escrúpulo funcional, o rigor institucional endémico e o faz-desfaz do período Santana Lopes, que o afastou muito da direita e acabou por semi-reconciliá-lo com a esquerda. Cavaco Silva ficou marcado por um penoso segundo mandato, em que não soube representar um país sofrido que também o tinha elegido e pactou, de forma imperdoável e silenciosa, com ataques inomináveis à corte constitucional, de cuja autonomia também devia ser garante.

Marcelo é um presidente de tipo novo. Segue o sentido instituicional de Estado de Sampaio, tem uma genuinidade, na proximidade às pessoas, que pede meças a Soares, descuidando a distância presidencial que este não dispensava. De Cavaco, a meu ver felizmente, herda pouco. A Marcelo, o presidente mais tranparente da nossa democracia, parece aplicar-se, na perfeição, a fórmula anglo-saxónica: “what you see is what you get”. Mas é fixe ou não? Por ora, tudo indica que sim. Vamos falando…

5 comentários:

Antonio Cristovao disse...

Para quem apoia o descalabro da politica economica deste governo, tirando a fé no credo e clibismo, espanta-me que se consiga dizer sem se rir que o governo anterior do P.Coelho massacrou os cidadãos. Contadinho do socrates que foi um excelenete... e deixou o país na banca rota. que lata....

Anónimo disse...

Mais uma análise totalmente partidária igual a um novo ataque à credibilidade própria!
João Vieira

passotrocado disse...

Senhor Embaixador

No terceiro parágrafo do seu (como habitualmente) magnífico escrito não ficaria melhor, em vez de "...nem por isso...", ...apesar disso...?

Anónimo disse...

Marcelo não tem biografia. É um produto mediático. Durante a ditadura já era crescidinho mas andava distraído e não deu por ela. Compará-lo com Mário Soares é profundamente insultuoso para a memória do lutador que foi MS, a quem devemos a liberdade e a democracia. A Marcelo devemos o quê? Umas selfies???
Ariane

Anónimo disse...

Em vários sectores do aparelho do Estado, parecem existir demasiados cruzamentos, entre quem é eleito e quem anda de avental, não se sabendo quem manda o quê.

Os aventais meteram Portugal ao fundo, na 1ª República, estão a fazê-lo outra vez, corroem e são predadores do que não lhes interessa.