sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Lições aprendidas


Há anos, mantive longas horas de conversa com um diplomata espanhol, sobre as relações entre os dois países. Confrontámos visões e, como seria expectável, detetámos imensas diferenças.

Ele revelou-me que o nosso país, por muito tempo, após a estabilização do franquismo, era quase um “não assunto” para a Espanha contemporânea. Portugal estava ali, ao lado, mas a sua relevância era muito limitada para um país que lançava a sua mirada externa essencial por cima dos Pirinéus.

Essa conversa teve lugar ainda antes da entrada dos dois Estados nas instituições europeias, mas já depois da democracia estar instalada na península. Esse era um período em que, no nosso lado, se tinha assistido à atenuação de muitas das clássicas desconfianças históricas face à natureza do poder em Madrid. Mas não escondi a esse amigo que, não obstante essa crescente leitura benévola, se mantinha, em setores portugueses – politicos, diplomáticos e económicos - alguma reserva sobre a íntima atitude da Espanha face a Portugal.

Com a passagem dos anos, tive o ensejo de trabalhar mais de perto alguns dos terrenos residuais da nossa tensão bilateral: os comandos militares da NATO, a regulação dos rios comuns, os conflitos da pesca nos limites fronteiriços, o tratamento administrativo dado às empresas portuguesas, as divergências sobre as acessibilidades rodoviárias e ferroviárias, as diferentes posições nas questões institucionais e de gestão de poder dentro da União Europeia, etc.

Das “lições aprendidas”, expressão utilizada em certos meios a propósito do conhecimento que se retira da experiência acumulada, e em jeito de caricatura, eu diria que a Espanha está ao lado de Portugal, nomeadamente no quadro europeu, quando os nossos interesses nacionais lhe são indiferentes ou se somam aos seus, ou quando o eventual reforço da posição portuguesa pode servir a sua leitura “ibérica” de poder.

Mas Madrid assume, com frequente e infeliz facilidade, em ciclos politicos contrastantes, alguma arrogância face ao vizinho peninsular, implicitamente explorando a sua fraqueza relativa, quando interesses seus despontam como minimamente evidentes. Só com muita dificuldade se vê, nesses casos, a Espanha fazer um mínimo esforço de acomodação.

Há uma coisa que me parece óbvia: com este seu regular comportamento, a Espanha revela alguma imaturidade para afirmar um estatuto de país “grande”, por raramente conseguir assumir uma flexibilidade estratégica em face de dossiês bilaterais complexos. E não só com Portugal.

Um dia, escrevi no “El País” um artigo sobre as relações peninsulares, que intitulei “Uma cultura de vizinhança”, que então parecia estarmos em vias de criar, assente na progressiva geração de uma confiança mútua. Sinto que essa confiança continua a existir, mas, tal como nas relações entre as pessoas, é algo que, quando se erode custa bastante a recuperar. Estou a falar de Almaraz? Estou.

12 comentários:

Portugalredecouvertes disse...


parece que os portugueses não aprendem Sr. Embaixador
não viu a noticia ?!

https://www.noticiasaominuto.com/pais/717082/oficial-portugues-dancou-com-guerrilheira-das-farc-e-baile-da-que-falar

Pedro Marques disse...

Esta prepotência espanhola só pode surpreender os mais distraídos. Já no caso da proposta de alargamento da plataforma continental, com as Selvagens à mistura, foi o que se viu. E não esquecer Olivença! Espanha nunca perdeu, não perde e nunca perderá a sua tendência natural para ignorar, menosprezar e desprezar o seu vizinho Ibérico, afinal de contas já o fazem há tantos anos quanto Portugal existe. Diga-se também que os governantes dos últimos 40 anos puseram o país tão de rastos que quando não é a Espanha é outra nação qualquer que nos humilha. Soluções para isto? Não abrirmos mão do que julgamos estar certo e começar a rever as relações bilaterais com Madrid, não é demais voltar a referir que talvez devêssemos começar a sondar os movimentos independentistas Galego, Basco e Catalão com vista a ajudá-los nos seus propósitos políticos.

Reaça disse...

Almaraz já não foi do conhecimento de Salazar.

Este não dava confiança, apenas ia a Mérida. porque Mérida era mais perto de Lisboa do de Madrid.o outro ditador tinha que fazer mais quilómetros.

Maxmilianno disse...

Portugal é Portugal, España é España. Graças a Deus que Portugal é diferente. Entre eles não se entendem, não seria diferente com os vizinhos. Atualmente um dos melhores países para se viver. Força Portugal.

Anónimo disse...

Aleluia! O "amigo da Espanha" falou. Mas é pena que não continue a sua reflexão. Quando estes conflitos surgem o interesse português está numa Espanha forte? Ou... uma Espanha mais pequena ser-nos-ia muitíssimo útil? Pois é. É pena que os "estrategas" (da esquerda à direita), se esqueçam sempre destes casos quando se trata de analisar os independentismos em Espanha. No fundo, são uma espécie de "bipolares".

Francisco Seixas da Costa disse...

Ó Reaça! Essa do Salazar ir a Mérida ainda lhe vale algum trocadilho... Veja lá no que se mete!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Pedro Marques. O interesse português é numa Espanha unida, por muoto que isso possa parecer estranho. Infelizmente, não estou dosponível para elaborar sobre isto. Por isso, Portugal nunca pode nem deve dar, no plano oficial, o menor aceno de simpatia à emergência de nacionalismos secessionistas na península. Este é um tema de grande delicadeza e o que escrevi no artigo é "as far as I can". Não estranhou também que eu não colocasse na lista a questão da plataforma continental? Sobre tudo isto, nada mais digo. Ponto.

Francisco Seixas da Costa disse...

Leia-se "as far as I can go"

Anónimo disse...

Sr. Embaixador,

este seu artigo só peca por tardio, mas, como diz o povo "mais vale tarde do que nunca". Continua a haver todas as razões para Portugal manter uma postura de reserva em relação a tudo o que vem do lado de lá da raia. Dizia-se que o Mundo mudou, que estamos ambos na UE e que a Espanha já não é o que era, mas, como escreveu alguém que marcou a Secretaria de Estado como poucos, em tempos bem menos cómodos para os diplomatas portugueses, "O Mundo muda, mas o essencial muda muito pouco". E o essencial, entre Portugal e Espanha, é termos a clara percepção que a Espanha continua a ter hoje em Portugal, como teve no passado, propósitos inconfessáveis...

Cordialmente,

A. Costa Santos

Anónimo disse...

A fragmentação da Espanha em várias nações é uma imensa esperança para o nosso país. Poderemos depois escolher os aliados que melhor servirem os nossos interesses. Questão diferente é da necessidade da introdução da obrigatoriedade do ensino do espanhol, com carácter universal, nas nossas escolas. Não há razão para não sermos bilingues e não tirarmos partido do potencial do imenso mercado que constituem ao nosso lado as nações de Espanha.

Pedro Marques disse...

Caro Sr.Embaixador, nesta questão dos independentismos Ibéricos as nossas opiniões não podiam ser mais opostas, Portugal pode e DEVE apoiar politicamente as intenções secessionistas no país vizinho, não só por razões estratégicas, como no caso da Catalunha, mas também por razões históricos, caso da Galiza. Portugal e Galiza deveriam ter uma relação bem mais próxima do que têm pelos fortíssimos laços culturais, linguísticos e históricos que nos unem mas que uma Espanha unida nunca permitirá. Não percebo porque razão alguns políticos nacionais continuam agarrados à premissa de que não é do interesse Português uma relação de forças múltipla na Península, essa situação traria-nos muito mais importância política no contexto Ibérico. Será que têm medo de conflitos armados? Isso seria mais ou menos inevitável tal como o foi nos Balcãs mas Portugal pode tirar altos dividendos disso, de uma maneira geral a opinião pública partilha da minha opinião.

Anónimo disse...

Ó Pedro:

Quando Espanha espirra Portugal tem de ter muito cuidado para não se constipar.