terça-feira, 31 de janeiro de 2017

François Fillon


François Fillon foi primeiro-ministro de Nicolas Sarkozy, durante os cinco anos de mandato deste. O presidente não teve razões de queixa deste homem discreto que, bem pelo contrário, sofreu constantes humilhações por parte do hiperativo chefe do Estado francês. 

Fillon surgiu na política sob a asa de Philippe Séguin, um gaullista "social", soberanista e antieuropeu - e poucos já recordam que Fillon esteve ao lado do "non" no referendo a Maastricht. A deriva contra a Europa desapareceu do seu discurso, mas igualmente dele sumiu a dimensão social. 

Fillon tentou explorar o filão da direita pura-e-dura decente, isto é, um conservadorismo radical, com raízes ideológicas numa democracia-cristã (que, em França, nunca gerou um partido com futuro) que o choque com alguma liberalidade fraturante de costumes e com a recusa ativa do multiculturalismo tem vindo a fazer crescer. Escrevi "decente" porque, ao contrário do oportunismo de Sarkozy, Fillon cuidou sempre em colocar uma barreira entre si e o Front National. (Basta lembrar a sua recusa do obsceno "ni-ni" - "ni FN, ni PS" - que alguma direita seguiu, quando teve de optar entre a extrema-direita e os socialistas, na segunda volta das legislativas, quebrando a regra "republicana" que, por exemplo, havia levado Chirac ao poder).

Depois da saga da disputa pela liderança do partido da direita (e Fillon, significativamente, tem assumido essa marca política com frontalidade), surpreendeu ao surgir como o vencedor das primárias desse setor, derrotando Alain Juppé (e, sem surpresa, Sarkozy, de quem a França está mais do que farta), um gaullista que garantia com facilidade o voto de muita esquerda, numa segunda volta presidencial contra Marine Le Pen. A imagem gasta e algo arrogante de Juppé tê-lo-á feito perder o "appeal" face a um Fillon mais moderno. Tudo parecia indicar que bastava Fillon surgir como a barreira a Le Pen para que o tapete vermelho de acesso ao Eliseu começasse a ser desenrolado.

Só que a vida traz surpresas, ao virar da curva. Ao adotar um discurso "mãos limpas", que jogava bem com o sentimento de uma França cansada dos "affaires" de interesses, que marcam historicamente a sua vida política, Fillon colocou-se a jeito perante qualquer deslize pessoal nesse âmbito. E ele surgiu, com revelações comprometedoras de nepotismo com dinheiros públicos, numa sucessão de trapalhadas que pode vir a afetar as suas ambições presidenciais. Os últimos dias não têm sido fáceis para Fillon, a quem se está a aplicar a sugestiva imagem aeronáutica cunhada por Jacques Chirac: "Les emmerdes, ça vole toujours en escadrille..."

6 comentários:

Anónimo disse...

Com a devida vénia:

"DES PHARAONS POUR LE PEUPLE"

Par Charlie Hebdo - 25/01/2017

Deux jours après la prestation de serment de Donald Trump, au pied du Capitole, s’est déroulé en France le premier tour de la primaire de la gauche. Quel rapport peut-il y avoir entre ces deux événements apparemment si éloignés l’un de l’autre? D’un côté, un milliardaire qui veut sauver son pays, selon lui en ruine. De l’autre, un parti socialiste français qui espère aussi se sauver de la ruine.

Le raccourci pourrait prêter à rire. Au début de sa campagne, tout le monde riait de Donald Trump. Les campagnes électorales qui commencent par des rires moqueurs finissent parfois par des pleurs.

Trump veut construire un mur entre le Mexique et les États-Unis. Il veut aussi quitter l’Otan, augmenter les taxes douanières, et bien d’autres choses encore jugées irréalisables par ses adversaires. C’est là le point commun entre l’élection de Trump et la primaire de la gauche en France: promettre l’impossible. La proposition d’un revenu universel par le candidat Benoît Hamon suscite les mêmes réactions que les projets de Trump: irréalisable! L’époque est favorable aux irréalistes."

Anónimo disse...

ai o que se deve estar a rir o Nicolas a esta hora!...

Anónimo disse...

A tenebrosa dos putativos futuríveis do Conselho de Segurança, com Marine Le Pen,com quarto com vista sobre a cidade, começa a compor se. A não ser que Macron, esquerda caviar, com alto patrocínio da banca Rotschild, emerja.

Carlos Falcão disse...

Os torpedos foram lançados...
Como não existe fumo sem fogo, politicamente, François Fillon não está isento de um futuro catastrófico. A ver vamos!
A causa dos “emmerdes” de François Fillon, é a justa utilização do dinheiro publico, aumentando assim a desconfiança dos cidadãos franceses vis à vis da classe politica.
Espero que a justiça passe, para restaurar a confiança.

C. Falcao
N.B.: O escândalo político e financeiro francês envolvendo Jérôme Cahuzac ainda está na memória recente.

Joaquim de Freitas disse...

Ah, pois é, Senhor Embaixador, escreveu muito bem : « Les emmerdes volent toujours en escadrille »….

Que grande sorte para a França: o Zorro Fillon ia lançar pela borda fora o Usurpador do Eliseu, e varrer esta “chienlit hexagonal que nos envergonha no estrangeiro.

Claro que com François Fillon, tínhamos a garantia dum programa 100 % thatcherista . Um programa garantido pelo semanário “Le Point” , grande amigo de François, que compara a CGT à Daech e que assassina todos os dias nas suas primeiras páginas os desempregados “assistidos”, (assistante, não é a mesma coisa !), o custo “exorbitante” do trabalho, o “Código do Trabalho” arcaico, a fiscalidade “abusiva”, as “greves corporatistas”, e sobretudo os funcionários que pesam como chumbo na França.

Enfim, o instinto de classe falou, sempre claro, nítido e preciso daqueles que possuem tudo mas nunca têm que chegue.

E assim ,vimos marchando em filas serradas num belo dia de “primárias” da direita, as avozinhas com o chapéu do domingo, os jovenzinhos em loden ,acabando os seus cursos de “managers” em anglo-ricain, os patriarcas decorados de grandes mestres e a plebe levada no rolo, à saída da missa, que tinha repudiado massivamente a “gauchista” NKM, humilhado o vulgar Coppé e varrido o mole e “velho”” Juppé, para eleger antes um dur entre os duros .

E para tornar a “presidencial imperdível”, tinham escolhido um homem “íntegro”, que vai à missa, tendo como imagem uma amostra de gaulismo desnaturado, ou alterado, , enriquecido duma bela família numerosa ,como gostamos tanto no Oeste parisiense.

Um homem que mobilou a sua bela residência com muito gosto, dotado duma esposa discreta e “so British”vestida com uma elegância estrita, praticando de vez em quando o alpinismo (?) e a Formula 1 .

Este, de certeza não traz nenhuma “caçarola” com ele,, contrariamente ao ávido Sarkozy.
Este, pelo menos, saberia respeitar a sua classe, o seu “rang”, “habitar a sua função” e varrer o “modelo social” esquecendo-se dele mesmo, porque não precisa. Ou pelo menos ser capaz de fingir…
Mas, olha que pena, o castelo ruiu... Mas como era possível que a um homem, que sempre serviu o Capital, não lhe interessasse o Dinheiro?
Mas Paris vale bem uma Missa, como diria o rei que cheirava ao alho…
E François queria fazer um bom trabalho: - Suprimir 500 000 funcionários, reduzir a SS ao mínimo, como a do Obama, pôr um polícia à porta e cada desempregado, para ver se está doente ou não, levar a reforma para 65 anos (inteligente, porque sendo despedidos antes dos 60, muitos passariam para o RMI, o que seria mais barato…) fazer trabalhar os funcionários 39 horas, pagas 35, (a pobreza ele conhece, como o seu patrão São Francois de Assise !), eliminar o imposto sobre a fortuna, etc., etc.

Anónimo disse...

Qual o preço de um "manoir" em Solesmes, mais um bom apartamento no 7ème, e o custo de um míssil SS-20?