sábado, 7 de janeiro de 2017

Despedida de Mário Soares


O corpo pesado estende-se pela cadeira, por detrás da secretária. A custo, insiste em levantar-se. Para me abraçar, para agradecer a visita. O seu olhar perde-se naquela sala tão cheia de recordações, de histórias, de História. As palavras saem-lhe com alguma dificuldade, quase automáticas, sempre amáveis. Suscita os temas que o mobilizam, as emoções e as certezas últimas que lhe dão alento à vida, mas também as tristezas que o abatem. Escolho bem as minhas palavras, mas não sei se são as certas. Relembro tempos comuns, mas não tenho a certeza de me estar sempre a seguir. Procuro assuntos que o façam reagir, agarra alguns, deixa passar outros em silêncio. Os nomes fogem-lhe, vive já com essa realidade, organiza o discurso em torno desses espaços vazios. Pergunta-me pela vida, mais para se orientar do que por real interesse. Dou-lhe novidades que, há pouco tempo, seriam para ele banalidades. Instalam-se entre nós as pausas, cada vez mais longas. Fico muito triste, sem saber o que dizer. Despeço-me com a quase certeza de ser aquele o nosso adeus.

(Escrevi este post em 4 de agosto de 2015. O amigo, que então não nomeei, era Mário Soares. Morreu há pouco. O encontro que relatei foi a nossa despedida)

17 comentários:

josé ricardo disse...

Lembro-me perfeitamente desse post e lembro-me perfeitamente de ter pensado em Mário Soares. Devo muito a Mário Soares. A minha ideia de pátria, de democracia e, sobretudo, de política a ele se deve quase em exclusividade. Mas o que mais admirava no ex-presidente da República era a sua juventude. Neste momento, não me apetece escrever muito mais sobre Mário Soares. Morreu, infelizmente, demasiado cedo, como morrem sempre aqueles que muito amamos.

Rui C. Marques disse...

Apenas uma palavra : GRATIDÃO.

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Também estou triste...A minha vida foi cambiada em 1974, depois do Acordo de Lusaka de 7 de Setembro de 1974, onde Dr. Mário Soares entregou Moçambique a um bando de criminosos, que em 1976 tive que fugir da Rodésia, para salvar a pele, com uma caixa de ferramenta de mecânico, para recomeçar nova vida. A história não se apaga com uma esponja no quadro preto.... Mário Soares agradou a uns poucos (aos que favoreceu) e odiado por muitos.
Saudações de Banguecoque
José Martins

Anónimo disse...

Sr José Martins:
Com enorme gratidão, saúdo Mário Soares, no favorecimento na minha vivência de quarenta anos de democracia. Obrigado Mário Soares.

Ana Vasconcelos disse...

Devemos-lhe, e a todos que com ele lutaram, mais do que podemos dizer. Até sempre.

Carlos Fonseca disse...

Se, como diz o sr. Martins, Mário Soares agradou aos que favoreceu, então, ao contrário da sua afirmação, agradou a muitos, porque fomos milhões os favorecidos. E é justamente porque fomos favorecidos com um bem que está acima de todos - a Liberdade - que ontem foi um dia particularmente triste para esses milhões de favorecidos.

Anónimo disse...

Sr. José Martins
Compreendo o seu sentimento pessoal. Estava a cumprir o serviço militar em Angola em 74/75 e vi o drama da fuga dos portugueses. Mas o responsável é quem, contra os evidentes ventos da História, permitiu e incentivou que fossem para África meio milhão de portugueses, quando a descolonização já tinha começado. O destino desses portugueses só não era óbvio para quem não cria ver. Mário Soares, a maior figura da História de Portugal, por encarnar a estabilização de uma democracia que inclui finalmente todos os portugueses, já nada podia fazer quando as nossas FA se revoltaram para acabar a guerra. Não há nada a negociar quando uma parte se recusa a combater.
Fernando Neves

Anónimo disse...

@Carlos Fonseca
Da forma como voce se expressa até parece que foi ele que fez a revolução.


Um livro a reler

Contos proibidos, memória de um PS desconhecido

https://aventadores.files.wordpress.com/2010/12/livro_contos_proibidos.pdf

Anónimo disse...

Para aqueles que não gostavam de Mário (os retornados), devem pensar que se ele não fosse interveniente nessas ações, outros o fariam posteriormente. Tinha que haver uma solução e ele teve a coragem de a enfrentar...

Anónimo disse...

@ Anónimo 8 de janeiro de 2017 às 12:55

"...se ele não fosse interveniente nessas ações, outros o fariam posteriormente..."

Ou seja, para si o papel do ilustre personagem foi irrelevante pois se não fosse ele, seriam outros a fazer o mesmo.

Anónimo disse...

Fernando Neves tem toda a razão. Tivesse Salazar iniciado, ele próprio, as negociações para a descolonização, logo no início de 61/62 e ter-se-ia evitado muita tragédia humana, quer par nós, quer para os angolanos. Mas, um Ditador não tem a capacidade de visão política para perceber isso. Essa também uma das razões porque é Ditador. Os ex-retornados que reconsiderem as culpas históricas e as atribuam a essa criatura miserável, rato de sacristia, que foi Salazar.
Luís Ramos Alves

Anónimo disse...

@Luís Ramos Alves

O papel de Mario Soares é bem conhecido e esta bem documentado. Em relação a Salazar "apesar de não ter simpatia pelo defunto" admito que sempre teve os interesses da patria em consideração e fez por defende-los enviando as forças armadas para combater movimentos terroristas como a UPA (financiada e apoioda pelos eua) que assassinaram Portugueses. Em relaçaão a muitos retornados não esquecer que estes tambem se movimentaram e pretendiam a independencia de Angola de Portugal(independencia branca nao a independencia indigena) e viam com grande desprezo Portugal.

Anónimo disse...

Eis uma boa oportunidade para acabar com esse absurdo que é o "Parque Eduardo VII", um rei estrangeiro que não só não fez nada por nós como ainda "conspirou" contra Portugal. Acabe-se com esta palhaçada e dê-se ao parque o nome de Mário Soares. No seguimento da Av. da Liberdade, só fica bem.

Anónimo disse...

Como deve saber face á situação clínica de MS, o protocolo de estado estava a preparar o funeral de Soares de há várias semanas, sabendo-se, por isso, que estaria por dias a morte do fundador do PS.

A viagem à Índia não deveria ter sido adiada?

Na realidade, "a emenda pior que o soneto":

Santos Silva regressa a Portugal e António Costa continua a "passeata" pela terra dos seus antepassados.

Vem o número dois no avião que também poderia trazer o número um.

Costa não veio......

Francisco Seixas da Costa disse...

Se o Anónimo das 12.39 ler o post Nós e a Ïndia perceberá melhor.

Manuel Silva disse...

Anónimo de 10/1, às 12:39,
Eu tenho cá em casa um livro muito útil: «O Grande Livro dos Provérbios», de José Pedro Machado.
Os provérbios são um bom repositório de uma sabedoria secular, às vezes milenar, e ajudam-nos a compreender o mundo e as pessoas.
Há um provérbio que diz: «Quem feio ama bonito lhe parece».
O contrário não existe, mas a ideia contrária é também verdadeira.
Por mais bonito que se seja, quando alguém não gosta de nós é escusado investir nessa pessoa: para ela fazemos sempre tudo mal.
Critica o Costa por não ter vindo, desvalorizando assim a figura de Mário Soares.
Se ele tivesse vindo criticava-o por pôr as relações pessoais acima dos interesses do país.
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P. S. Aposto que é dos que não gostam ou até detestam Mário Soares, servindo-lhe a sua morte apenas para fazer este combatezito pífio contra o Costa.
Há gente capaz de tudo.

Anónimo disse...

we will always have Gaza ...

ab

J