terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Cemitério dos Prazeres


O cemitério chama-se "dos Prazeres" e tem esse bizarro nome, para um lugar de convocação da tristeza, porque aí havia uma quinta no meio da qual se erguia uma ermida a Nossa Senhora dos Prazeres. 

O cemitério dos Prazeres está ligado à minha memória de infância. Na minha família lisboeta, após a morte de um primo muito jovem, os pais, que lhe haviam erguido um jazigo nos Prazeres, tinham-se mudado propositadamente para uma casa quase em frente ao cemitério, de onde diariamente - e não estou a exagerar - iam visitar o lugar onde estava o depositado o filho. Estão hoje por lá todos, incluindo, desde há pouco mais de uma semana, um outro irmão.

Poucos meses depois de ter vindo viver para Lisboa, em 1968, voltei ao Prazeres. Era uma romagem por ocasião do funeral de António Sérgio. Estavamos os início de 1969, um ano que ia ser muito importante na vida política em Portugal, em que a "abertura" que a chegada ao poder de Marcelo Caetano tinha prenunciado revelaria toda a sua falsidade. Era o funeral de António Sérgio, um intelectual e pedagogo humanista, cuja presença no eixo da oposição não comunista fora marcante por muitas décadas. O ato redundou num momento público de expressão política democrática, com repressão policial associada. Para mim, seria uma espécie de "batismo de fogo" na agitação política lisboeta. 

Nesse dia 25 de janeiro de 1969, notava-se que no centro da manifestação - que, de momentos de silêncio tenso, passou subitamente a palavras de ordem anti-regime, com o hino nacional à mistura, a anteceder o brutal ataque da polícia - havia um núcleo de pessoas que me parecia dominar a cena. Os amigos que comigo iam ajudaram-me a nele identificar algumas figuras. Ali estava Mário Soares, regressado escassos meses antes da sua deportação em S. Tomé. Ao seu lado, ficou-me a imagem de uma mulher ainda jovem, de cabeça bem erguida, com ar determinado, num corpo pequeno: era Maria Barroso. 

Há menos de dois anos, fomos acompanhar Maria Barroso aos Prazeres. Hoje será a vez de Mário Soares. Agora, graças também a eles, já não haverá por lá polícia que nos impeça de saudar a memória dos mortos que queremos honrar.

1 comentário:

Anónimo disse...

Ontem acompanhei o funeral via RTP1. Algures ali talvez já na zona de Alcântara, ouviu-se uma voz masculina a dizer que ele era um ladrão. Todos temos direito a discordar, mas a mentir já será mais feio. A unica coisa que Soares ajudou a "roubar" e erradicar foi o Fascismo em Portugal. Relativamente aos retornados, que me "perdoem", mas estão redondamente equivocados. Depois do 25 de abril o nosso exército recusava-se a combater.De uma vez por todas tem de mudar o vosso foco de raiva face á questão da descolonização. Mas vou mais longe, para muitos dos que lá vieram acabou por ser uma sorte, porque aqui é que realizaram depois e bem os seus projetos de vida.Muitos dos ex retornados já esqueceram que se opunham a que os seus filhos fossem moblizados para combater, achavam na sua pseudo ignorância, que apenas os Metropolitanos tinham obrigação de lá ir combater e defender para além do interesse nacional, interesses particulares que lhes eram completamente alheios. Muitos ex retronados esquecem os insultos que muitas vezes dirigiam ás troipas metropolitanas quando muitas das vezes gozavam o seu direito a ter alguns dias de licença em Luanda, em Lourenço Marques ou noutras terriolas ultramarinas. Mandavam a tropa ir para o mato combater, mas eles os cobardes exploradores não queriam. Tenham juizo.