quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Brexit news

Ao longo de quase quatro décadas como diplomata, tendo passado alguns anos em Londres e alguns mais a discutir à mesa negocial com os britânicos, ganhei um profundo respeito técnico pela capacidade diplomática do Reino Unido. Por muito indefensável que as suas posições fossem, por muito embaraçados que os funcionários britânicos parecessem ao assumi-las, a verdade é que a máquina do "Foreign and Commonweath Office" (as mais das vezes, dizemos simplesmente "Foreign Office" e o nome completo do MNE britânico tem algo de politicamente relevante) me deu sempre a ideia de interiorizar uma linha de orientação clara, transmitida e cumprida de alto-a-baixo de toda a sua estrutura de funcionários.

Quem passou por Bruxelas recorda-se de discussões intermináveis, com os britânicos frequentemente isolados, mas a serem teimosos até ao fim, às vezes por uma vantagem negocial residual, na maioria dos casos explorando a regra da unanimidade para baterem o pé - podendo fazê-lo graças ao peso político que o seu país tinha no contexto comunitário. Mas, sempre, com excelente conhecimento dos dossiês, em "trade-off" permanente entre vários assuntos, roçando às vezes um insuportável cinismo. A minha admiração profissional pela diplomacia londrina não se estende, necessariamente, a uma automática leitura positiva sobre a legitimidade daquilo que defendem como seus interesses. Nem sequer à lisura de meios utilizada para os defender.

Vem isto a propósito da demissão do embaixador britânico junto da União Europeia, ocorrida há dois dias. Talvez mais importante do que o facto em si é a circunstância de ter ficado claro que o gesto se deve ao reconhecimento de que um excessivo voluntarismo político, que não tem em devida conta a realidade no terreno negocial, pode estar a conduzir o Reino Unido a um sério impasse no futuro do seu processo de abandono das instituições de Bruxelas. Dir-se-á que isso é um problema deles e que nós, do lado de cá da Mancha, até nos devemos congratular com estes dissídios intrabritânicos.

Não estou nada de acordo. Se a futura separação do Reino Unido com a Europa vier a tornar-se litigiosa, a probabilidade da questão vir a correr mal para os dois lados é imensa. Em termos negociais, a experiência mostrou-me que ter um dos lados fragilizado internamente está longe de ser uma vantagem, cumula em geral radicalismos e reduz fortemente a capacidade de compromissos e recuos.

3 comentários:

Anónimo disse...

A missiva dura de despedida do embaixador não poderia ocorrer em Portugal, nem sequer no RU, não fora o facto de, pela certa, já ter emprego garantido no privado. Anyway o Brexit não se irá consumar pois o governo britânico tratará de criar as necessidades necessárias peripécias jurídicas para que o debate processual se arraste o suficiente até que umas novas eleições o venham suspender.

Anónimo disse...

Actualmente o Reino Unido está na União Europeia com um inúmero casos de opting out.
Após negociações, que serão difíceis duranta largos anos, terminarão com o Reino
Unido fóra da UE, mas com imensos opting in. O Reino Unido acabará por tirar enormes
benefícios da nova situação face à desarticulação dos parceiros comunitários

Ana Vasconcelos disse...

O que retrata dos britânicos em negociação estende-se a outros domínios profissionais - na indústria, na política, no campo académico, etc. Está-lhes inculcado no ensino e na cultura. Aprendi que na maior parte das vezes é preciso assegurar trade offs imediatos. Frequentemente não vêm valor na noção de um capital de boa vontade futuro. Mas há que lhes admirar em geral a preparação, a lógica na argumentação e um domínio do discurso muito eficaz - em geral.
Há muito que se comenta a diferença de perspectiva enter os defensores do Brexit no Governo e o corpo de diplomacia nesta questão. Continuo a não a ver uma direcção clara neste assunto, que parece um 'pickle' cada vez maior.