segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

America, America!

Às vezes, a tão badalada presciência dos pais fundadores da sacrossanta Constituição dos Estados Unidos deveria levar-nos a recordar que esse foi o mesmo documento constitucional que, com todas as suas alegadas virtualidades democráticas, e sem que tivesse havido qualquer mudança de regime, legalizou por muito tempo a discriminação racial mais odiosa, criou o mais orwelliano sistema persecutório através do Comité das Atividades Anti-Americanas, deu cobertura de cara alegre a uma diplomacia que apoiou os mais sinistros regimes um pouco por todo o mundo e, last but not least, permitiu o cínico uso de torturas em Guantanamo. Isto só para dar alguns de muitos outros exemplos possíveis.

O que quero dizer com isto? Quero dizer que quem se fia nos "checks and balances" dado pela Constituição americana devia lembrar-se das barbaridades que já foram cometidas à sua sombra. E ter isto presente ao avaliar a América que aí vem.

6 comentários:

Luís Lavoura disse...

deu cobertura de cara alegre a uma diplomacia que apoiou os mais sinistros regimes um pouco por todo o mundo

A Constituição (qualquer constituição) apenas determina a forma da política interna. Jamais fixa a política externa. Um país pode ter uma constituição mais ou menos democrática ou autocrática, que isso jamais afetará a política externa desse país.

Comentário similar vale para Guantánamo.

Francisco Seixas da Costa disse...

Luis Lavoura: a Constituição promove valores e princípios que o Estado segue. Na ordem interna e externa.

Joaquim de Freitas disse...

Os valores e princípios nos Estados Unidos da América não são os mesmos em todos os estados da Federação.

E não admira que a Federação esteja no estado caótico em que efectivamente está (parece que apenas a guarda pretoriana do caos pensa que isso que guarda não é caótico), insistindo em ser fundada sobre valores. É o preço a pagar por terem prescindido da objectividade dos princípios e terem optado pela subjectividade inultrapassável dos valores, que são o dinheiro e o poder que ele confere àqueles que o têm.

E apesar dos discursos de união de Trump, demagógicos e populistas, procurando um consenso, não são as buscas de consensos que podem substituir a ausência de princípios. O consenso não é objectivo senão como uma espécie de algoritmo político obtido por uma operação qualquer de integração de subjectividades.

Não nos esqueçamos do algoritmo de consensualidade entre suficientes alemães capaz de em Janeiro de 1933 levar Hitler ao poder.
Foi um acto que valorisou positivamente os novos valores propostos em Mein Kampf. Poucos perceberam ou quiseram perceber que tais valores violavam mortalmente princípios como o da universal dignidade humana.
O que é trágico é que foram os seus predecessores, que esqueceram durante anos os tais valores e princípios, que abriu o caminho que levou Trump ao poder, Em francês diria “ un trop plein qui a débordé” ..E a Constituição não o pôde impedir.

Anónimo disse...

Pimba! Mais certo do que a morte. O assunto é a América? Aí está o Freitas a debitar.......

Anónimo disse...

"“Quem são os nossos inimigos? Quem são os nossos amigos? Essa é uma pergunta importantíssima Para a Revolução.”
― Mao Tsé-Tung

arber disse...

Recordatória para o leitor Luís Lavoura

CRP, Artigo 7.º(todo, mas destaco isto)

"...
3. Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão.
..."