domingo, 1 de janeiro de 2017

A minha ONU



Responder ao desafio que me foi lançado pelo “Diário de Notícias”E para falar da “minha ONU” obriga-me a contextualizar Portugal na organização, porquanto a minha relação com as Nações Unidas deriva, essencialmente, dessa leitura política.

Por razões ligadas aos equilíbrios políticos da Guerra Fria, Portugal apenas em 1955 foi admitido nas Nações Unidas, isto é, cerca de dez anos após a criação da organização. Aquilo que essa admissão possa ter tido de sucesso diplomático rapidamente se transformou num pesadelo para o governo de Lisboa, com a ONU a converter-se num palco privilegiado para os ataques à política colonial portuguesa. O nosso país entrou numa crescente confrontação com diversas instâncias da organização, que levaria mesmo, mais tarde, à sua marginalização em algumas das suas agências especializadas.

A ditadura portuguesa conviveu sempre mal com o mundo multilateral, tido como pouco conforme com os jogos de sombras do bilateralismo com que o rendilhado da diplomacia salazarista tinha conseguido passar por entre as pingasna 2ª guerra mundial, e que, aliás, viria a ser a chave para a sua sobrevivência no final desta. O facto da ONU ter passado a incorporar uma imensidão de novos Estados, saídos das descolonizações, e naturalmente solidários com os territórios que ainda lutavam pela sua autodeterminação, só agravava a desconfiança que esse areópago provocava em S. Bento.

Na minha juventude, as Nações Unidas eram apresentadas como um "inimigo", uma instância em que Portugal era sistematicamente atacado. Com uma comunicação social censurada, com o questionamento da guerra colonial visto como traição, a imagem da ONU que a ditadura expunha tinha um tom sempre negativo, marcado pela ação no seu seio dos países do "Terceiro Mundo”, que apoiavam os "terroristas" que atacavam as nossas "possessões", a ser diariamente diabolizada. O facto de frequentemente muitos países ocidentais se “aliarem” na ONU ao mundo comunista no apoio os movimentos independentistas era vendido como um contrasenso: só Portugal defendia o Ocidente, mesmo contra a vontade deste...

O 25 de abril mudou fortemente a perceção de Portugal no plano externo, mas a imagem das Nações Unidas, das suas virtualidades, do fantástico trabalho dos seus diferentes órgãos e agências, ficou ainda longe de ser reconhecido entre nós. Em inícios de 1978, fiz parte de um grupo que criou em Lisboa uma estrutura tendente à promoção da ONU em Portugal. Entre os fundadores da Associação para a Cooperação com as Nações Unidas em Portugal (ACNUP) contavam-se então nomes como D. José Policarpo, Rui Machete, António Costa Lobo, Carlos Eurico da Costa e João Palmeiro.

Quando, muitos anos mais tarde, representei Portugal nas Nações Unidas, o panorama era já bem diferente. Em Genebra e em Nova Iorque, a nossa diplomacia firmara o nome do nosso país no quadro da organização, com duas bem sucedidas presenças no Conselho de Segurança, qualificados quadros nacionais a serem reconhecidos no seu âmbito e, no geral, uma postura coerente e assente num corpus ético, que o caso de Timor-Leste ajudara a consagrar.

Portugal é, nos dias de hoje, visto na ONU como um honest broker”, um país que cumpre o que promete - e a confiança e a previsibilidade são os valores mais importantes na vida internacional. Se pensarmos que muitas dezenas de Estados têm as Nações Unidas como o centro fulcral da sua atividade diplomática, talvez percebamos melhor a relativa “facilidade” com que o nosso país consegue, regularmente, alguns importantes sucessos diplomáticos à escala global.

(Artigo escrito para o número especial do "Noticias Magazine", hoje distribuído com o "Diário de Notícias", a propósito da entrada em funções de António Guterres como secretário-geral da ONU)

4 comentários:

Anónimo disse...

Curioso o seu comentário sobre as vicissitudes de Portugal na época salazarista. Vale a pena recordar que Bento de Jesus Caraça, professor da Universidade Técnica de Lisboa (ISCEF), foi demitido da função pública por defender, no final dos anos 40 do século passado (julgo que em 1946), a adesão de Portugal à Sociedade das Nações (a antecessora das Nações Unidas). A adesão a esse areópago era considerada, durante esse período de escuridão patética, como uma iniciativa de cariz subversivo.

Antonio Cristovao disse...

A ONU deve ser o que pode ser. Uma organização de burocratas, infelizmente tratados como os " burros a pão de ló" onde se gasta demais para aquilo que rendem.
È bem significativo que Bill Gates, Warren Bufett e amigos dêm mais, com mais eficiencia e resultados que o monstro de desperdico, umbigo centralizado da ONU. Siga a festa que alguem paga o champanhe e os charutos.

Anónimo disse...

O picareta falante vai continuar a falar para o boneco......

Quanto à sua aversão a Salazar, governo me foi indiferente, deve existir por aí uma adolescência provinciana mal digerida.

Retornado disse...

Deviam ser publicados e esmiuçados um dia todos os discursos dos ministros de Salazar e Marcelo, na ONU, quando mensalmente Portugal era condenado na ONU pelo seu colonialismo em África, Angola, Guiné e Moçambique.

É que Portugal, sozinho contra o mundo inteiro (menos dois ou três abstencionistas, Brasil, Espanha, Africa do Sul...) tinha que mensalmente explicar porque seria uma desgraça dar as independências àqueles países sub-saarianos, quando cinicamente o mundo (ONU, IGREJA e outros cínicos) assistia aos massacres de Congo's, Ruanda, Biafra, Uganda...e corno de África, e batia palmas.

Encontrei aquele livro, o RAPTO, de Dora Fonte, obrigado.