quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A cidade de Ontem

Ao ler que a Santos Júnior, polícia-mor de um dos períodos mais sinistros da ditadura, foi atribuído o nome de uma rua em Coja (se fosse em Corja, não me admirava), dei comigo a pensar se, de facto, não seria justo, para cultivo de uma certa memória afetiva, ser criada, algures no nosso país, uma cidade que tivesse o nome de Ontem. Para aí irem viver poderiam ser convidados, em prioridade, todos quantos, nas redes sociais e nas caixas de comentários dos sites e jornais, permanecem fiéis a um saudoso passado em que, pelos vistos, se sentiam tão felizes. Mas muitos outros seriam elegíveis, como se intui em colunas de jornais e até em certas tribunas políticas residuais. Em Ontem, o Diário da Manhã e o Novidades dariam, ao alvorecer, as notícias a que os seus cidadãos tinham direito - mas nem mais uma, ou, então, "factos alternativos", como fazem as relações públicas de Trump! E iríamos vê-los felizes, cara ao sol, sentados na esplanada do Café do Aljube, com vistas para a Praça do Tarrafal (no centro da praça, em dias de calor haveria um lugar a que chamariam "frigideira"), à qual se acederia pela grande Avenida Oliveira Salazar, de sentido único, que, lá bem ao fundo, conduzia ao Beco Américo Tomaz (com Z). No Centro Social Silva Pais, não muito distante, ouvir-se-ia a Emissora Nacional que os "senhores óvintes" quisessem, obrigatoriamente abrindo com "Uma Casa Portuguesa" ("a alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar e ficar contente"). Na Alameda Barbieri Cardoso, ficaria a Livraria Lápis Azul, que só venderia livros rigorosamente conformes aos cânones do antigo e benquisto regime, sendo de todo excluídos aqueles em que as palavras "liberdade", "democracia" e "povo" pudessem surgir. Em Ontem, Pide seria o nome de uma associação de beneficência, com o Centro de Artes "Estátua", recuperando a tradição de uma instituição com uma benéfica ação que tão deturpada tem sido - embora, felizmente, já haja por estes dias um grupo dedicado de rapazes da historiografia que começa a tentar mudar tais erróneas perceções. O fotógrafo oficial da cidade de Ontem, um tal Rosa Casaco, faria os retratos à maneira, de preferência um "photomathon" com frente e duas laterais, numa moda estética lamentavelmente caída em desuso. E, por falar em "casaco", iria ser com certeza um sucesso o alfaite o local, o conhecido "Vira Casacas", que tanto trabalho tinha tido no 25 de abril. Perguntará o leitor: E a Justiça? E a Saúde? Quem assistiria nesses domínios os habitantes de Ontem? A Justiça, ora essa!, estaria a cargo dessas vestais do direito que eram os juízes dos Tribunais Plenários! E a Saúde, essa não poderia ficar em melhores mãos do que de esses dignos seguidores de Hipócrates que eram os médicos do Tarrafal, de Peniche e de Caxias. Mas não se fala da Educação? Não, porque em Ontem ela não seria necessária, orgulhosa do analfabetismo sadio que outrora imperava. E, sejamos óbvios, os que fossem educados só por engano é que iram viver para Ontem. Resta a ordem pública? Nem por isso! Bastava ficar por lá o capitão Maltez (nunca percebi porque nunca foi promovido, ou, se calhar, foi, depois do 25 de abril e ninguém nos avisou) e nem uma agulha bulia na serena melancolia da paz dos cemitérios. Ah! E, em Ontem, haveria também uma Colónia de Férias (então eles passavam lá sem ter uma coloniazita...). Pela certa, finalmente, a cidade não enjeitaria uma geminação com Santa Comba ou com a angolana São Nicolau, porque há memórias que calam fundo - e calar é algo que Ontem saberia sempre fazer. Um ponto muito importante seria permitir que os cidadãos pudessem sair de Ontem sempre que lhes apetecesse. Não há, porém, a certeza de que isso, necessariamente, lhes agradasse, porque a liberdade é, no fundo, aquilo que eles menos apreciam. Enfim, Ontem é, talvez, o futuro que alguns desejariam. Por que não fazer-lhes a vontade? Será que para a criação desta urbe da saudade se arranja, finalmente, uma maioria decente na Assembleia da República?

20 comentários:

maria madeira disse...

Ámen!
Gostei muito.
Obrigada.
(ah, e li de um fôlego)

Rui C. Marques disse...

Brilhante,Francisco,brilhante!

alvaro silva disse...

Sr Embaixador:
De facto há coisas difíceis de explicar, tal como manter os juízes dos tribunais plenários em funções? Por que é que os não sanearam como a muitos professores universitários? por que é que não se arrasam os Bernardinos Machados e os Afonsos Costas que levaram á morte tantos portugueses quantos levou o Salazar e o Américo Tomás (estou a falar dos mortos da 1ª Grande Guerra e da Guerra colonial, com a diferença de que a última durou 13 anos, enquanto a !ª Guerra durou 2 anos?) As deportações para as colónias ou Aljube ou Tarrafais não foram exclusivos da ditadura! A Pide foi uma continuação da Formiga Branca e esta da Mão Negra e da Carbonária? Por que é que entre 1910 e 1926 morreram mais de 3.000 portugueses vítimas de revoluções? A maioria deles inocentes ou "vítimas colaterais" das guerras pelo poder e pelo mando! Neste Portugal tem de haver lugar para todos e se olhamos para o passado é para que aprendamos algo para o futuro.

Manuel Silva disse...

Caro Senhor Embaixador:
E ainda dizem que as pessoas da diplomacia são demasiado «suaves», diplomáticas, é outra das expressões que também se usam.
O seu texto é um grito contra a falta de vergonha reinante.
Só tem uma falha: onde, exactamente, construir tal monumento ao iluminismo fascista?

Anónimo disse...

Álvaro Silva não é um democrata. Embarca no paleio dos revisionistas para atacar a República e defender relativamente o que se seguiu. Hoje, já se percebe que está ou estará brevemente com Trump, como esteve com Bush Filho. Percebem-se os amanhãs que deseja.

Anónimo disse...

Outro o dia o caro embaixador dizia por outras palavras, que, no fundo, a constituiçao americana, que tanta gente apregoa, nao tinha impedido as maiores infamias.

Os seres humanos de hoje, sao os mesmos que ha 2000 anos se divertiam a ir ao circo a ver pessoas se gladiarem, serem comidas por leoes e afins. Ha 500 anos quantas regioes deste mundo nao eram povoadas por gentes com as praticas mais barbaras?

A barbarie nao desapareceu, e saber reprimi-la, nao é uma evidencia.

Isto é para dizer que se vexa pedir que nao haja praças tarrafais, ruas inspector barbieri, ou hoteis pide, e explicar o horrendo de que fala, vai ver que ha pessoas dizem o contrario. E quanto mais pedir mais pessoas lhe dirão o contrario. Ser incapaz de viver com um tabu mostra medo. E o ser humano nao gosta de pessoas que mostram medo.


cumprimentos


Anónimo disse...

Que aborrecimento, não existir (ainda) um portal do tempo para se poder viajar aos anos dourados da 1ª Republica, ser próximo de Afonso Costa, aquele santo ateu e maçónico que iluminou Portugal , permitindo chegar brilhantemente a 2017 governados por outros geringonços.

Manuel disse...

Curiosa ideia que vem ao encontro de outra que tenho por vezes. Numa experiência social utópica, dividir um país hipotético em 2. Numa metade viveriam e governariam os que têm uma visão neo-liberal (ou de direita) das coisas, na outra os restantes. Depois o tempo mostraria quem teria mais sucesso, felicidade ou melhor qualidade de vida.
Julgo que ao fim de um certo tempo cada uma das metades se encontraria novamente dividida em facções opostas e conflitantes pois parece que é da natureza humana ser do contra.

Anónimo disse...

Neste país..... noto um desnorte muito grande. Até neste blog se volta a pensar em "lápis azul" e coisas do género "do antigamente".... para não permitir as pessoas na net de comunicarem. Estamos feitos, é o que vos digo.

David Lencastre disse...

Excelente texto! E mais saboroso ainda foram as reacções de alguns comentadores saudosistas desse passado, embora lhes falte coragem para assmir frontalmente essas suas posições, disfarçando-as com argumentos como o da 1ª República. Nem uma palavra de condenação sobre a sevícias Pide, os Tribunais Plenários, o assassinato de Humberto Delgado, etc. A mesma Direita que hoje votaria novamente em Passos/Portas (ou agora Cristas).

Reaça disse...

Também querem fazer da fortaleza de Peniche um Hotel para os turistas.
Se tal acontecer, e para a memória não se apagar, deverá levar o nome do célebre fugitivo que fugiu para o frio.

Anónimo disse...

Ora, Vistes? Não faltava um Álvaro mais preocupado com a República, coitadinho do Estado Novo, e ainda havia de vir outro mais preocupado com o Afonso Costa do que com o Sidónio e as ditaduras militar, nacional, estado novista e marcelo-primaverista (tão do agrado de uma publicação da época chamada observador). Trumpeteiros envergonhados.

Jaime Santos disse...

Ora nem mais. E ia ser preciso que em Ontem houvesse igualmente um fontanário inaugurado naturalmente pelo fantasma de Américo Tomás, depois de um dos seus luminosos discursos, onde corresse água limpa à discrição (porque água e saneamento básico nas casas nem vê-los) para que todos os que gostariam de ir para lá viver pudessem saciar as gargantas sequiosas, depois de terem engolido esta sua crónica, Sr. Embaixador...

Manuel Silva disse...

Anónimo das 11:10:
Há esse portal do tempo, através de fotografias a época: em livros, revistas e jornais.
Na Biblioteca Nacional, por exemplo.
Sobre os anos dourados da I República, mas também sobre os anos de diamante do Estado Novo, já que me parece que é desses que prefere.
Eu tenho até um livro que me ofereceram, feito a partir do imenso espólio que um fotógrafo genial nos deixou, concretamente sobre uma cidade relativamente grande do litoral perto de Lisboa: Setúbal.
Se quiser uma amostra abra este link, uma maravilha:
https://www.dropbox.com/s/2ziizirhaw1xwro/Imagens_de_outros_tempos.docx?dl=0


Reaça disse...

Os habitantes de Coja, provavelmente devem chamar-se cojenses, ou cojeiros, ou cojanos, não sei.

Talvez Santos Júnior seja um honrado cojense, estimado por aquela gente, nossos concidadãos, e a inteligência desses cidadãos, deva ser respeitada pela escolha desse nome para uma rua da sua terra.

às vezes quem muito fala pouco acerta.

Antonio Cristovao disse...

A sdua geração de politicos tem muito pouco com que se orgulhar . tres banca rotas e a caminho duma quarta mesmo com os juros artificialmente baixos suportados pelo BCE, não abona nem ao piro governo da 1ª republica. Há pior, a Venezuela está pior, mas vontade não falat a muito lirico seguir uma politica semelhante.

a disse...

Posso ser ou não democrata, é um ápodo muito subjectivo, isso faz-me lembrar o fenecido dr Mário Soares que, quando estava no poleiro era só... democracia. Quando outros o tiravam do dito eram todos uns reacionários e uns ditadores abjectos. Concluindo para o Soares só havia democracia se fosse ele a manejá-la e a ter o mando. ( Eu devo ter encarnado esse espírito soarista). Mas zarolho ainda não estou!

Anónimo disse...

Suplico Pinto foi chamado por Salazar para este lhe falar da remodelação em curso. Pergunta-lhe Supico: mas porque quer substituir agora o Dr. Santos Júnior? Está a fazer sem alterações de maior o seu lugar... Responde Salazar: - sabe o Dr. Santos Júnior é médico mas, estando no governo há tanto tempo de medicina nada sabe e tendo sido apenas ministro não sabe nada de nada. De modo que é preciso dar-lhe algum tempo para ele aprender a fazer qualquer coisa que o sustente!
João Vieira

Anónimo disse...

Não esqueci a 2º Republica, governada também por um ditador de sinal contrário ao de Afonso Costa e de que os comunistas tinham razões para serem contra pois eram perseguidos como sabemos.

Aqueles que se aproveitaram dessa luta anti Salazar, que viviam na situação então vigente, vêem agora derramar lágrimas de crocodilo, como tendo sofrido na pele o mesmo que os comunistas que na sua coerência, gostando-se ou não, deram a cara. Deviam estar calados.

Intelectuais de café e associados, de experiências frentistas, iluminados por correntes democráticas(?) de esquerda, viviam materialmente muito bem q os restantes portugueses, podendo dar-se ao luxo de comprar livros lá fora sem censura. n
Começaram a aparecer movimentos civis no tempo de Marcelo Caetano, exigindo e muito bem uma democracia do tipo europeu.

Com o 25 de Abril,foi possível concretizar as eleições livres, o MFA não queria , quereria um espécie de democracia tutelada.

O 25 de Novembro permitiu o começo da democracia.

Em 2017 estamos novamente a sofrer a ganância de poder do salve-se quem puder,palhaços e ilusionistas.


Anónimo disse...

Paece que é impossivel traduzir a palavra saúdade para outras línguas. No entanto neste blog podemos defenir a palvra saudosista de esquerda ou de uma suposta direita nos respectivos comentários.
Às vezes a política em Portugal parece como o Football. É uma questão de paixão irracional ou até de genética. Os bons filhos tinham de ser do clube do pai.
Com isto....por favor, não me mandem.... prá Sibéria.